Estado da Nação, o debate que faltou

Perderam-se milhares de postos de trabalho, falharam apoios sociais, mas mantiveram-se injeções absurdas a instituições bancárias e subsídios perversos às indústrias responsáveis pela crise climática que vivemos.

Debateu-se na passada semana o Estado da Nação. Mas para além do enunciado de medidas, que grassaram o propagandista, foi mais uma vez com frustração que se verificou que, para além de no último ano pouco ou nada ter mudado, não se debateram efetivamente os problemas estruturais que persistem no nosso país.

Como podemos mudar ou evoluir se não se reconhece o que está mal e não se debate e projeta o país a médio e longo prazo?

De confinamento em confinamento, agradecemos aos profissionais de saúde, mas não se cuidou de rever as suas carreiras ou garantir um maior investimento no Sistema Nacional de Saúde, ficando aquém da média europeia.

Perderam-se milhares de postos de trabalho, falharam apoios sociais, mas mantiveram-se injeções absurdas a instituições bancárias, borlas fiscais e subsídios perversos às indústrias responsáveis pela crise climática que vivemos, continuando assim a virar a cara aos grandes problemas que contribuem para a degradação do meio ambiente, como a pecuária e a agricultura intensiva e superintensiva.

Falta visão e coragem política para enfrentar estes setores e garantir a descarbonização da economia e a necessária transição para modelos económicos sustentáveis e responsáveis, que nos permitam combater a crise climática.

E no que respeita à proteção animal e à biodiversidade, não há dinheiro para os investimentos que são necessários fazer nesta área, mas invertem-se prioridades e deram-se de mão beijada 14 milhões de euros para o baronato da caça!

Com os fundos europeus que aí vêm, Portugal tem uma oportunidade única para garantir a recuperação de rendimentos, para tornar o país mais resiliente, para apostar na diminuição das assimetrias regionais e sociais, para combater a pobreza, para garantir que o caminho que se fez em matéria de igualdade não fica para trás, entre tantos exemplos.

Mas de fora deste debate ficou também o estado da democracia, o que é manifestamente incompreensível num ano em que vimos o Bloco Central acabar com os debates quinzenais com o primeiro-ministro, em mais uma tentativa de desvalorização do Parlamento, assim como assistimos a grosseiras violações de direitos humanos, como a morte do cidadão ucraniano, Ihor Homeniuk, o “Russiagate”, ou mais recentemente o caso das mulheres ativistas ambientais que foram obrigadas a despir-se para serem revistadas.

Já que se perdeu a oportunidade de debater de forma séria tudo isto no debate do Estado da Nação, que não se cometa o mesmo erro no debate que se aproxima do Orçamento do Estado, que não é um momento qualquer, mas que deve constituir uma efetiva oportunidade para o país e que não pode ser mais do mesmo.

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