Estado dormente

António Costa e o Marcelo Rebelo de Sousa querem os portugueses de volta ao trabalho mas não vai ser tarefa fácil

1 Primeiro foi a Auto-Europa, depois a praia, agora o Campo Pequeno, dizem que para ver ‘cultura’. Já só falta irem às compras a um centro comercial e programarem idas ao futebol ainda antes da final da Liga dos Campeões que ambos pretendem ver discutida em Lisboa. Ou seja, António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa não podem ser mais explícitos. Querem os portugueses de volta ao trabalho, acabar com o tempo do confinamento a que demasiados concidadãos se habituaram de forma absolutamente devotada. Como percebemos, não vai ser tarefa fácil. O fervor com que muita gente aderiu a esta causa nacional de ficar em casa criou um exército militante pela saúde de todos nós. O País encheu-se de fiéis zeladores das virtudes do trabalho digital, diante dos quais ninguém pode minimizar a importância do ‘achatamento da curva’ ou a possibilidade de uma ‘segunda vaga’! Ai deles! Quase três meses de idolatria aos novos evangelistas dos telejornais não podem acabar assim, de novo das 9 às tantas com duas horas para almoço. Pelo menos até ao fim das férias, os portugueses que nesta emergência mantiveram o emprego não vão sucumbir aos seus líderes sem darem luta. Têm razões para isso. Primeiro, porque há três meses acreditaram neles, prepararam as respetivas trincheiras para a guerra anunciada; e, depois, porque vem aí dinheiro fresco da Europa, a água do mar está óptima, as férias não tardam e até temos um para-amigo novo. Marcelo e Costa vão ter de se esforçar mais.

 

2 Entretanto, o Conselho de Finanças Públicas diz o óbvio, a propósito da crise gerada pelo COVID-19: o défice vai aumentar, o PIB vai cair, o desemprego passa os 10%. Estamos numa recessão “fulminante”, fruto de “um choque negativo sem precedentes”. É nisso que António Costa Silva foi chamado a trabalhar ‘pro bono’. Não diabolizo. Desde sempre que me interrogo: se os governantes trabalham tanto, se têm sempre uma agenda tão sobrecarregada, se passam tanto tempo em viagens, se também têm de dar atenção ao partido, onde tudo começa e acaba, quem raio andará a pensar por eles? António Costa descobriu a fórmula: tem amigos que lhe emprestam o cérebro. Eu, sinceramente, gostaria de ver esses outros amigos no governo. Afinal, já são 70. Mais um menos um pouca diferença faria. Mas, pelo menos, defendia-se a imagem da República. Feita assim, a coisa parece tratada à moda da monarquia. O rei quer, o rei faz. O Presidente despacha tudo e o líder da oposição, pelos vistos, também. Acho isto de ter um Estado dormente ligeiramente incomodativo.

 

3 Felizmente, temos André Ventura a fazer mexer o bicho da indignação. Dá jeito a ele, como as sondagens repetidamente mostram, e à malta do reviralho, para quem um ‘fascista’ e um ‘racista’ são sempre dádivas do céu. Defender temas como a segurança e a ordem pública, o reforço dos meios policiais ou a justa aplicação da Lei a toda a gente, sem excepções concedidas às modas e às causas, nunca foi bem visto pelas forças ditas ‘progressistas’. É culpa generalizada dos partidos tradicionais que temas desta importância sejam deixados de borla ao cuidado de oportunistas da palavra, que assim tomam de assalto preocupações genuínas das populações. Mas, por outro lado, Portugal adora espectáculos destes: gente a dizer ordinarices durante horas a fio e basbaques a celebrarem a alarvidade, se preciso for até em corsos pelas ruas. É assim que se passa este tempo. Primeiro disseram que era humor. Agora também podemos dizer que é política.

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