Paddy Cosgrave: “Estamos a analisar a possibilidade de criar um evento em África”

A quarta edição da Web Summit em Lisboa superou a anterior, mas o seu fundador vai rever algumas coisas no início de 2020 e admite que a sua equipa já está a estudar um novo evento internacional.

A edição de 2019 da Web Summit fica marcada pelo recorde de mais de 70 mil visitantes e 2.150 startups presentes. E pelas novidades tecnológicas internacionais apresentadas em Portugal. Ou, ainda, pela expressão de tensões geopolíticas, designadamente, pelo braço de ferro entre os EUA e a China. Mas também pelo atraso no projeto de expansão dos pavilhões onde serão realizados os futuros eventos da Web Summit em Lisboa, com maiores expositores, de forma a poderem comportar 100 mil visitantes em cada edição. Acontece que a 1 de outubro de 2019 a Feira Internacional de Lisboa (FIL) deveria ter concretizado a primeira fase de alargamento, para uma área de 71 mil metros quadrados. A segunda fase ficou agendada para 1 de outubro de 2021, quando a área da FIL deverá crescer para os 90 mil metros quadrados. Este ano, a dona da Web Summit, a CIL – Connected Intelligence Limited, recebeu a 1 de fevereiro de 2019 o apoio anual pago por Portugal, no valor de 11 milhões de euros, repartido entre o Turismo de Portugal (quatro milhões de euros), o IAPMEI (quatro milhões) e a ATL (três milhões). A seguir, em dezembro de 2020, a CIL deverá ser informada sobre as infraestruturas que a Web Summit poderá utililizar em Lisboa até 2024, e em dezembro de 2023 saberá com que áreas de exposição poderá contar até 2028. Em entrevista ao Jornal Económico, o CEO da Web Summit, Paddy Cosgrave, diz que “está tudo bem”. Quanto aos novos projetos internacionais que estão a ser preparados pela sua organização, sediada na Irlanda, Cosgrave revela que têm analisado vários países em África para estudar a possibilidade de criar um novo evento, à semelhança do que já fizeram no Canadá e em Hong Kong.

 

A questão do alargamento da área de exposições em Lisboa estará totalmente resolvida em 2021? Deve ser cumprida de acordo com o que ficou contratualizado?
O meu irmão é engenheiro civil em Berlim, e sei o que são obras. Em toda a parte do mundo, as coisas nunca acontecem rigorosamente como são programadas ou previstas. É assim. As empresas do setor privado nunca gostam de imprevistos, nem de atrasos, mas as grandes obras têm estas contingências. Do meu ponto de vista, a evolução dos projetos em Lisboa tem sido satisfatória. Está tudo bem. É claro que vamos rever algumas coisas em janeiro ou fevereiro, mas está tudo bem.

 

A Web Summit continuará a ser um evento para as startup fazerem negócios, ou já passou a ser um grande negócio?
A principal razão que traz as pessoas à Web Summit é o objetivo de fazerem negócios. Algumas vezes reencontram pessoas que já conheciam; outras vêm ver o que é que os seus concorrentes andam a fazer e quais são os desenvolvimentos que conseguiram realizar nos projetos que têm em carteira. Tudo isto movimenta muitas pessoas em permanência – há entre 20, 30 ou 40 mil pessoas que só fazem isto permanentemente e que, por isso, passam a vida a correr as feiras internacionais. É como um dating festival [festival de encontros, ou de namoros]. Todos conhecemos a expressão de que “há sempre alguém para cada um”. É isso que aqui acontece, com investidores a falarem uns com os outros e a fazerem contas ao risco potencial das apostas nas empresas que lhes parecem interessantes. Sendo certo que a maior parte destas empresas não chega a ter sucesso e ainda menos são as que conseguem ter sucesso estrondoso. Há grandes riscos potenciais associados aos investimentos nestas empresas que podem ter modelos geniais, mas que ainda não provaram que terão sucesso. Há cerca de três ou quatro anos, houve grande entusiasmo com as expectativas de investimentos em projetos que prometiam ter grande sucesso, mas que acabaram em insucessos.

 

Qual é a taxa de sucesso dos investimentos em startup?
Cerca de 90% dos projetos de investimento nas startup não têm sucesso. Isto é: nove em cada 10 startup falham. Ou seja, não há aqui qualquer lógica do ponto de vista económico, nem na informação agregada que leva à tomada de decisões dos empreendedores no sentido de criarem uma startup deste tipo na Europa. Se em vez disso arranjassem um emprego provavelmente ganhavam mais, na grande maioria dos casos. Mas isso é a avaliação que se pode fazer do lado financeiro. Depois, há sempre o lado humano, o lado da satisfação do empreendedor. E há a relevância mediática das histórias de sucesso, porque os bons jornalistas sabem sempre descobrir e contar novas grandes histórias sobre empreendedores. Na verdade, a única razão pela qual essas histórias são interessantes é porque são raras. Se fossem histórias normais, vulgares, não seriam interessantes…

 

Seriam apenas histórias chatas…
Sim, seriam chatas e os jornais não as publicavam. Além disso, só quando alguém se torna um empreendedor é que pode chegar a ter sucesso. Mas os casos de sucesso são muito inferiores aos casos de insucesso. Porque o sucesso é muito improvável. Depois ainda há outra questão: as razões que levam as empresas das mais diversas proveniências geográficas a quererem estar na Web Summit. Todas elas são muito diferentes. Os alemães do setor automóvel – a Porsche, por exemplo – têm objetivos específicos. Serão outras as razões que levam os chineses da Tencent [que tem o maior portal de internet da China] e da Huawei a estarem na Web Summit. A Verizon tem outras razões. Tal como Michael Kratsios, o Chief Technology Officer (CTO) dos EUA, da White House, que nos apareceu sabe-se lá porquê, contactou-nos por outras razões, para estar presente, para falar sobre a política de tecnologia dos EUA, sobre os projetos norte-americanos de inteligência artificial, e o 5G das telecomunicações. Todos têm razões diferentes.

 

Há quantos anos conhece Portugal?
Desde que o meu irmão esteve em Portugal, em 2015. Antes disso, o primeiro conhecimento que tive de Portugal chegou-me através do futebol… e também pelos jornais de referência. O “Financial Times” ou o “The New York Times” não descrevem facilmente qualquer país como a Califórnia da Europa. E fizeram-no em relação a Portugal. Em poucos anos, Portugal e Lisboa passaram de um país e uma cidade pouco referidos a nível internacional para destinos preferidos na Europa.

 

Porque é que acha que isto aconteceu?
Por dezenas de fatores, alguns dos quais nunca foram controlados por Portugal. O turismo foi muito importante. Temos de ser francos: o que aconteceu no norte de África, que criou uma onda de insegurança e levou os turistas a evitarem a costa africana mediterrânica, foi relevante para o sucesso de Portugal. Quando as pessoas começaram a procurar zonas seguras, onde pudessem passar uma ou duas semanas sem preocupações, com bom tempo e bons hotéis, o turismo disparou em Portugal. Por outro lado, coisas como as manifestações culturais específicas valorizaram muito a cidade de Lisboa. As pessoas nem sempre pensam no impacto incrível que alguma arte urbana – os grafitti –, tem em todo o mundo.

 

Os trabalhos de Vhils e de Banksy?
Por exemplo. Esses detalhes aparecem em revistas de referência internacionais, nas publicações mais cool do momento, onde Lisboa, sistematicamente, começou a aparecer. Foi importante para que todos percebessem o curioso ambiente de Lisboa. Isso cativou as pessoas. Nessa altura começaram a surgir também as empresas de tecnologia. E aqui há uma situação curiosa que é importante explicar: As techs que foram para a Irlanda não criaram empregos só para engenheiros locais. Houve engenheiros de vários países que foram trabalhar para lá. Quando vim pela primeira vez a Portugal ouvi duas queixas: que os portugueses consideravam que gastaram muito dinheiro em estradas; e que gastavam muito dinheiro a formar engenheiros. Acontece que muitos desses engenheiros, com excelentes formações, acabaram por sair de Portugal. Tanto dinheiro em formação que não foi aproveitado pelo país, diziam em Lisboa. Cinco anos depois disto, um dos principais CTO do Silicon Valley veio dizer que esteve a analisar vários países e muitas cidades e concluiu que Portugal era o local perfeito para concretizar um projeto que vai precisar de excelentes engenheiros. Na Califórnia só souberam que Portugal tinha bons engenheiros porque eles foram para lá trabalhar.

 

Os alemães da BMW e da Mercedes dizem o mesmo…
Sim. Mas a questão é que Portugal aplicou muito dinheiro na formação de engenheiros e de cientistas especializados em computadores e numa primeira fase não tirou grande partido desse esforço de formação. Nem é fácil ver jovens que concluem a sua formação superior agarrarem nas suas malas e dizerem adeus aos pais. Muitos deles foram para Londres, Berlim ou para o Silicon Valley. Mas a parte mais relevante desta história é que, a nível internacional, ficou a saber-se que Portugal forma ótimos engenheiros. E isso acabou por ser muito importante para o país.

 

Que tal é fazer negócios internacionais em Lisboa? Será comparável à City, em Londres?
Eu cresci numa quinta. Quando disse ao meu pai que tinha criado uma empresa com um escritório brilhante e que lhe apresentaria a equipa entre os quais estava um engenheiro português, Ricardo, que nem sempre está sentado na sua secretária… o meu pai perguntou-me se ele trabalharia em Portugal, e eu expliquei-lhe que não. Disse-lhe que ele trabalha em Frankfurt para umas empresas que estão em outros países, algumas delas em Dublin. A área em que ele trabalha abrange vários setores e envolve contacto com diversas pessoas. Por isso, o seu trabalho é móvel, cobrindo múltiplas cidades no mundo. Isto acontece frequentemente na geração dos jovens engenheiros. Geralmente preferem deslocar-se para cidades com bons climas, de onde podem trabalhar para todo o mundo. É certo que há casos como Helsínquia, que tem um sistema de transportes públicos de classe mundial, mas que de facto não tem o clima mais fantástico, para não dizer que é mesmo terrível. Lisboa tem um bom clima, bom café, é uma cidade segura e o transporte público tem grande cobertura. Aqui, as coisas têm funcionado e a Web Summit tem crescido…

 

É fácil constatar que a Web Summit tem crescido de edição para edição. A de 2019 foi maior que a anterior…
Sim, com mais espaços de exposição, maior número de startups, embora o número de pessoas das equipas que operacionalizam tudo se tenha mantido constante. Relativamente aos visitantes, atingimos o patamar das 70 mil pessoas [exatamente 70.469 visitantes], o que é uma dimensão perfeita.

 

No médio prazo, a cinco anos, querem duplicar a dimensão da Web Summit?
Talvez consigamos duplicar o número de expositores, mas provavelmente o número de visitantes deverá manter-se em torno do atual. Os espaços de exposição devem ter adaptações a outros modelos. Algo que já foi ensaiado em Toronto, com maior número de expositores. Há muitas formas de crescer. Temos de avaliar bem as possibilidades. Podemos ter mais palcos e maior número de eventos a decorrerem em simultâneo.

 

Fazendo as contas a toda a realidade da Web Summit, quanto é que representa a sua atividade? É possível ter um valor global aproximado que dê a dimensão do evento?
Quantas big coins vale? É uma boa pergunta. Na minha perspetiva, dentro de cinco anos será um evento muito estável. Atualmente todo o retorno aparece nos últimos três meses. Para manter as luzes acesas nos próximos oito ou nove meses precisamos de obter lucros. A grande diferença surgiu com o aumento de escala, pela diversificação de eventos internacionais, um na América do Norte (agora no Canadá, em Toronto), e outro na Ásia, (agora em Hong Kong). Aumentámos a atividade anual para crescermos mais depressa. Continuámos a crescer sem ter o apoio de novos investidores. Se tivéssemos captado novos investidores seria diferente, mas aí a pressão também se colocaria pela dúvida em saber se deveríamos optar por vender ou por abrir o capital publicamente. Tenho de reconhecer que adoro fazer isto e que trabalho com uma equipa magnífica. Penso continuar nisto por mais 20 ou 30 anos. Muitas vezes comparo a nossa atividade à dos jornalistas. A maior parte das pessoas passa uma vida a fazer o mesmo. No jornalismo ou aqui aprendem-se coisas novas todos os dias. Também os jornalistas se interrogam diariamente sobre a veracidade daquilo que lhes dizem e todos os dias enfrentam novidades. A natureza daquilo que faço é igual. E é viciante. É isso que continuaremos a fazer. Para acrescentar valor aos clientes e à sua atividade empresarial.

 

Além de Lisboa, de Toronto e de Hong Kong, os vossos eventos tecnológicos poderão crescer para novas geografias?
Sim. Eventualmente em África. Temos vindo a analisar vários países com esse objetivo. Talvez em 2022. Começámos pela África do Sul, Angola, Quénia, Nigéria, Etiópia, Gana, Ruanda. Há muitas alternativas, mas o assunto tem de ser mais trabalhado. “Life goes on”…

 

Isso quer dizer que a organização da Web Summit continuará a crescer e está em vias de globalizar os seus eventos. Quantas pessoas movimentam esta máquina?
Temos quatro mil pessoas envolvidas na atividade de construção das feiras. Empregamos 250 pessoas a tempo inteiro, mas temos picos de contratações pontuais, perto dos eventos, em que o número total dispara massivamente, com muitos engenheiros civis, eletrotécnicos, da área da segurança, e também carpinteiros. Já vivemos problemas de crescimento. No ano passado não havia carpinteiros disponíveis e tivemos de contratar técnicos espanhóis, que eram todos sindicalizados. Só começavam a trabalhar meia hora depois dos portugueses. Faziam várias pausas além do horário do almoço, e trabalhavam todos juntos. Cerca de dez dias antes da abertura da Web Summit veio a Portugal um negociador sindical espanhol ter uma reunião com os responsáveis pelos sindicatos portugueses para negociar uma alteração no horário de trabalho dos carpinteiros espanhóis…

 

Implicou alterações de remuneração?
Não. Só alteraram os horários de almoço. Trabalhavam todos juntos mas queriam ter diferentes horários de almoço. Além disso, os carpinteiros espanhóis não conseguiam entender os carpinteiros portugueses, embora os portugueses entendessem perfeitamente os espanhóis.

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