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“Estávamos preparados”: Calçado português rejeita medidas protecionistas

Sector do calçado português anuncia que não desiste do mercado norte-americano. A associação que responde pelo sector nacional afirma que continuará a desenvolver os seus interesses nos Estados Unidos e vai fazer um “fortíssimo” investimento de 120 milhões de euros.
3 Abril 2025, 11h49

O anúncio de novas “tarifas recíprocas” globais anunciadas esta quarta-feira por Donald Trump não apanharam a indústria portuguesa de calçado desprevenida. “Do ponto de vista do princípio, rejeitamos medidas protecionistas. Pelo contrário, somos sempre favoráveis ao comércio livre, justo e equilibrado”, considera o porta-voz da APICCAPS em comunicado. “Ainda assim, estávamos preparados para este momento, uma vez que estamos a finalizar um fortíssimo investimento – 120 milhões de euros  – em domínios como automação, robótica ou sustentabilidade”.

Nesta nova ordem económica mundial, os produtos europeus – como o calçado – deverão ser taxados em 20%, o que compara com um adicional imposto de 34% sobre a China ou 46% sobre os produtos vietnamitas.

No imediato, considera Vasco Rodrigues, da Universidade Católica do Porto, citado pelo comunicado, “estas tarifas implicam que o calçado importado vá ficar mais caro, o que vai desincentivar o consumo”. Considerando a diferença entre as tarifas aplicadas ao calçado proveniente de diferentes países, “esta decisão constitui uma oportunidade para reforçar a quota de mercado do calçado português nos EUA”, sublinha. O responsável do Gabinete de Estudos de Gestão e Economia Aplicada da Universidade Católica do Porto realça, no entanto, que importa perceber “o impacto noutros mercados”. “Com dificuldades acrescidas de acesso ao mercado americano, os produtores chineses e vietnamitas vão certamente reforçar os esforços de penetração no mercado europeu e noutras geografias. Os produtores portugueses têm de se preparar para um acréscimo da concorrência nos seus mercados tradicionais”, sublinhou.

De acordo com o World Footwear Yearbook, os EUA são o maior mercado mundial de calçado. Anualmente, importam mais de 1986 milhões de pares de calçado, em valores próximos dos 26 mil milhões de dólares. A China é tradicionalmente o maior fornecedor do mercado, com uma quota próxima dos 60% (o equivalente a 1200 milhões de pares), seguida de Vietname (quota de 23% referente a 461 milhões de pares) e Indonésia (quota de 6% alusivos a 129 milhões de pares em 2023).

“Para Portugal, os EUA são um mercado estratégico, perfilando-se atualmente como o 6º mercado de destino das suas exportações. Na última década, as exportações portuguesas para os “states” duplicaram, atingindo valores próximos dos 100 milhões de euros no final de 2024. “Ainda que já exportemos mais de 90% da produção para 170 países, consideramos o mercado norte-americano estratégico e a grande aposta da indústria portuguesa de calçado para a próxima década”, considera Paulo Gonçalves.

Para o porta-voz da APICCAPS, “o setor do calçado não vai desistir do mercado”. Pelo contrário, do ponto de vista estratégico, “atendendo que os meios ao nosso dispor não são ilimitados, o esforço de promoção internacional exige uma eficiente aplicação de recursos”. Por esse motivo, no âmbito do Plano Estratégico do Cluster do Calçado 2030 foram selecionadas 145 cidades prioritárias, 30% das quais nos EUA. “Entre as economias avançadas, os EUA são o país que oferece melhores perspetivas”.

De acordo com Paulo Gonçalves “o setor do calçado tem hoje muito melhores condições para abordar ao mercado norte-americano, nomeadamente na sequência dos investimentos em curso nas áreas da automação e sustentabilidade”. “Estamos no mercado americano para durar”, concluiu.

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