Este Salgado de Lisboa

Este Salgado de Lisboa é mais um prego na estaca das elites que geriram diversas áreas num Portugal que perdeu muito tempo a fazer-lhes vénias. Um ídolo com pés de barro que pôs e dispôs de Lisboa como quis.

Não é por ser primo-irmão de Ricardo Salgado que o homem com mais poder na última década na Câmara de Lisboa será culpado pelas suspeitas que impendem sobre ele. Já ninguém se recorda que o comentador que deitado na cadeira fala com Clara de Sousa na SIC Notícias, José Miguel Júdice, foi o mandatário da candidatura à edilidade de António  Costa em 2007 e o seu número 2 era Manuel Salgado. Júdice e este Salgado, dois rostos de uma elite que sempre ganhou rios de dinheiro com a cidade, na advocacia e na arquitectura. Um bloco central de interesses a que une não nenhuma ideologia mas apenas o doce perfume do dinheiro.

Quando a Polícia Judiciária (PJ) fez buscas nos últimos dias na Câmara Municipal de Lisboa ninguém se surpreendeu. Primeiro, porque são casos que vêm de trás e já em 2018 este Salgado era notícia de jornal por estar a ser investigado pela PJ, depois, porque todos os decisores e funcionários da autarquia se habituaram a ver o seu filho, Tomás Salgado (que ficou com o Risco, nome do atelier de arquitectura do pai), a transitar livremente por reuniões camarárias e não por ser um cidadão lisboeta que pode participar nas reuniões públicas mas por ser parte envolvida em diversos dossiers.

Que me lembre, desde o início do século, apenas um vereador acumulou mais pelouros, Carmona Rodrigues, contudo, nada que se pareça com o peso de quem manda no Planeamento, Urbanismo, Património e Obras Municipais como aconteceu com este Salgado. Compararam-no ao Marquês de Pombal para acentuar que era ele que mandava – e ele deixou sempre correr esta narrativa porque nos seus silêncios mora uma vaidade cínica de quem se sente superior.

São inúmeros os casos envoltos na opacidade. E há duas curiosidades que não podem deixar de provocar repulsa. Por um lado, o facto de este Salgado por ali andar há 14 anos (como vereador Todo-Poderoso e depois presidente da SRU), de peito feito, sem prestar grandes contas, a autorizar crimes urbanísticos (na opinião de muitos) de lesa-pátria à vista de todos como a Torre das Picoas (onde agora está a sociedade de advogados PLMJ de José Miguel Júdice) ou o novo hospital da CUF em Alcântara, autorizado e erigido em tempo “record”. Tudo envolto no melhor manto dos hipócritas que agora despertaram para a realidade como se não soubessem nem tivessem visto nada.

Por outro lado, a súbita cavalgada da próxima onda das eleições autárquicas para os agentes da Justiça aparecerem a pavimentar o caminho das informações que colocarão nos jornais para reforçarem o juízo da opinião pública sobre as suas investigações e que servirão de arremesso na luta política. Como ficou evidente no momento em que Carlos Moedas, que continua na sua risível e medíocre campanha (a ela iremos na próxima semana), tentou de imediato colar este Salgado a José Sócrates.

Dizia um físico alemão, Georg Lichtemberg que “quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito”. Este Salgado de Lisboa é mais um prego na estaca das elites que geriram diversas áreas num Portugal que perdeu muito tempo a fazer-lhes vénias. Um ídolo com pés de barro que pôs e dispôs de Lisboa como quis, entre o manto diáfano de diversas cumplicidades que navegam há anos num mar de impunidade. Este Salgado acabou. Mal.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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