“Estrangulamento do aeroporto já leva à recusa de dois milhões de passageiros por ano”, alerta presidente da AHP

Para a AHP, o futuro, sobretudo nos próximos três anos, será de abrandamento, o qual terá de ser compensado pela promoção e o aumento da estada média.

Durante os próximos três dias, Viana do Castelo recebe o 31.º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo, promovido pela AHP – Associação da Hotelaria de Portugal. Sob o mote “Portugal: Preparar o Amanhã”, os mais diversos players, direta ou indiretamente ligados a este universo, são desafiados a debater os principais desafios que se colocam ao futuro do Turismo em Portugal.

Em entrevista ao Jornal Económico, Raul Martins, presidente da AHP, antecipa as grandes temáticas que vão ser debatidas, fazendo, entre outros, um ponto de situação quanto ao plano de investimento hoteleiro em curso para o país mas sobretudo em Lisboa; e ainda sobre a opção Montijo para o próximo aeroporto e o seu impacto.

Os hoteleiros reúnem-se no 31.º Congresso Nacional para discutir como pode, e deve, Portugal preparar o amanhã. Mas as escolhas e decisões serão tomadas no presente. Como descreve o atual momento do setor da hotelaria?

Neste momento, na hotelaria, assistimos a um abrandamento do crescimento. A taxa de ocupação, até agosto de 2019, caiu ligeiramente, cerca de meio ponto percentual, o preço médio que, em 2018 cresceu 7%, até agosto deste ano cresceu apenas 2%, tal como o REVPAR (Preço médio por quarto disponível ) na hotelaria, que no ano anterior tinha crescido 5% e, até agosto deste ano, cresceu, também, mas 2%.

Devido aos constrangimentos no aeroporto Humberto Delgado, nos próximos três anos poderemos ter um decréscimo da ocupação, em particular na zona de Lisboa, que terá de ser compensado pelo aumento da estada média e da receita total.

 

Em matéria de investimento hoteleiro em Portugal, em que ponto estamos? Ainda em fase de expansão? Particularmente em Lisboa, os investimentos previstos e já anunciados são ajustados à procura?

A procura tem aumentado, é uma realidade, no entanto o crescimento do parque hoteleiro tem sido moderado e assim irá continuar.

A experiência da AHP diz que as aberturas anuais ficam muito aquém das previsões quando se faz um balanço. No início de 2018, previam-se 61 novos hotéis, maioritariamente nas cidades de Lisboa (25) e Porto (10). No final de 2018 constatámos que as intenções de aberturas não se confirmaram. Afinal abriram apenas 26 dos 61 hotéis inicialmente previstos (10 hotéis em Lisboa e no 5 no Porto).

Neste ano de 2019, as previsões apontavam para um aumento da oferta, com 65 hotéis em carteira para este ano. Todavia, no primeiro semestre abriram 17 novos hotéis (sendo 5 na cidade de Lisboa e 5 na cidade do Porto). No entanto, outras formas de alojamento têm crescido desmesuradamente, este ano a um ritmo inferior de anos anteriores, mas essa oferta já cresceu 17% em 2019, enquanto que a oferta de empreendimentos turísticos cresceu apenas 3%. O alojamento local já tem o dobro das camas da hotelaria.

Os investimentos hoteleiros estão ajustados à procura, com o aumento da oferta de camas em Portugal, tanto em empreendimentos turísticos, como em alojamento local, a taxa de ocupação continua elevada, o que é um sinal de vitalidade de uma oferta que é adequada.

 

Como estão os hoteleiros a responder aos desafios da Transformação Digital em curso e transversal a todas as atividades?

Os hoteleiros estão atentos à importância da “Transformação Digital” no setor. A própria AHP está a desenvolver um projeto, o Click2Portugal, que vai ao encontro das necessidades da hotelaria nesta matéria. Por um lado, tem como objetivo capacitar os hotéis para o digital e, por outro, é a primeira plataforma agregadora da oferta hoteleira nacional.

A plataforma Click2Portugal pretende ser um canal alternativo de reservas, que funciona como extensão do website próprio dos hotéis, permitindo-lhes alcançar novos potenciais clientes.

 

Em matéria de transportes, como tem sido afetado o setor com o estrangulamento do aeroporto? Montijo é a melhor solução?

Montijo é a melhor solução. O esgotamento do aeroporto Humberto Delgado afeta todo o país, uma vez que é a principal porta de entrada em Portugal. Portela + Montijo vai permitir passar de 29 milhões passageiros/ano para 50 milhões, o que irá aumento em mais de 30% os turistas que chegam ao nosso país. O estrangulamento do aeroporto Humberto Delgado, agravado nos próximos anos pelas obras de remodelação, está a fazer com que já tenhamos de recusar cerca de 2 milhões de passageiros por ano. A procura aumenta, mas não estamos a conseguir dar resposta. É uma situação que não pode acontecer e que urge ser resolvida em prol do país e pela sua economia.

 

Que impacto poderá assumir um investimento relevante na ferrovia?

O investimento na ferrovia contribuirá decisivamente para aumentar a taxa de ocupação hoteleira nas regiões do interior e prolongar a estadia média dos turistas, aumentando assim a receita total do Turismo.

 

Neste encontro dos hoteleiros estarão dois destinos em evidência. Internamente, a região Norte. Que potencial encerra esta zona e o que se pode perspetivar sobre a sua evolução? Lá fora, o foco aponta para Espanha. O que está por fazer para concretizar uma “convergência ibérica”?

Em 6 anos, o turismo na região Porto e Norte cresceu bastante, bem acima da média nacional e perspetiva-se que assim continue a ser nos próximos anos. Pelo que é fundamental, e porque estamos a realizar o Congresso em Viana do Castelo, debater as oportunidades e desafios com que a região se depara com empresários que apostaram nela, mas também com alguns responsáveis políticos da região.

Quanto à convergência Ibérica, é preciso criar sinergias entre os dois países, a relação entre Portugal e Espanha quer a nível histórico, quer a nível cultural é imensa e deve ser explorada e mantida. O investimento na promoção de Portugal em Espanha tem que aumentar, sendo que o principal mercado externo no Norte é Espanha, e Portugal é o segundo país mais procurado pelo turista espanhol. Mas porque é que não somos o principal mercado emissor para Espanha? Tendo em conta a proximidade dos dois países, temos que conseguir captar mais turistas espanhóis e passar a ser o país com mais turistas.

 

Diante deste cenário, como antevê o futuro do setor em Portugal?

O futuro, sobretudo nos próximos 3 anos, será de abrandamento. Este abrandamento terá de ser compensado pela promoção e o aumento da estada média. Portugal tem todas as condições para competir com os melhores players internacionais e empresários inovadores e bem preparados. Deparamo-nos com grandes desafios, é verdade, mas estamos na linha da frente dos destinos mundiais e a nossa notoriedade é evidente. Estamos, por isso, convictos de que o Turismo irá crescer sustentavelmente, nos próximos anos, em Portugal, podendo crescer, a partir de 2022, até mais 3 pontos percentuais do PIB (Produto Interno Bruto).

 

 

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