Fomos todos surpreendidos recentemente com a decisão do Governo de não avançar com a estratégia web3 (muitas vezes referida erradamente por Estratégia Blockchain). E isto para além do aviso de que, a acontecer, seria noutros moldes. A verdade é que não explicam porquê, nem houve uma única palavra sobre o conteúdo da estratégia web3 já estudada, pelo que, à partida o público em geral não sabe o que ficamos a perder.
Com tão pouca explicação, imaginamos que tal estratégia tratará de qualquer coisa ligada à Blockchain, talvez de criptomoedas, tema polémico e que interessará apenas a um núcleo significativamente restrito de entusiastas tecnológicos. Se afinal a economia real pouco ou nada tem passado pela web3, por que razão haveria algo de interessante na mesma estratégia? Esse também terá sido provavelmente o raciocínio de quem tomou a decisão (provavelmente) sem a ler a dita estratégia, ou se leu, não percebeu. Ou então outra razão obscura que me vou abster de explorar e qualificar.
Então vamos mesmo ficar sem estratégia para a web3? Para já, eu protesto.
Não vale a pena esconder. Fui eu que a escrevi há pouco mais de dois anos, pelo que tenho bem a noção do custo económico que tal decisão vai ter. Não vou, aliás, perder tempo a explicá-la agora, pois publiquei as bases da mesma aqui para quem tiver curiosidade. Não é um documento “à consultor”, e nem sequer é a versão final. É simplesmente o meu texto original de enquadramento, escrito por quem vive da prática empresarial, das ideias, e do ensino, e não de relatórios elegantes.
Diz-se que a estratégia ficou na gaveta. Não é verdade. Foi para o lixo. Mas as ideias não desaparecem quando partilhadas porque podemos e queremos. Então vamos lá.
Como quem tomou a referida decisão anda provavelmente distraído, talvez não tenha percebido que muito já aconteceu nestes últimos dois anos e que as bases da estratégia web3 já foram inelutavelmente lançadas no seio da União Europeia. Vai acontecer, meus amigos, independentemente da actual inépcia estatal. Corremos é o risco de ficar para trás… outra vez.
Na verdade, só não se deu por ela porque a comunicação social também anda distraída a este respeito. É um caminho sem retorno porque a conveniência da tokenização vai aproximar-nos da eficiência económica já atingida noutras partes do globo com as Super Apps, as quais não são passíveis de ser aplicadas no ocidente, tal como já expliquei aqui. Ora, tudo o que significa redução de fricção económica origina a criação de valor económico imediato, o que explica a importância estratégica desta revolução tecnológica.
Em particular, a União Europeia já está a tokenizar a identidade jurídica, numa evolução da famosa chave móvel digital, a qual se vai transformar em carteira digital. Essa legislação já está aprovada e em aplicação, estando prevista a entrada em cena das carteiras digitais portadoras de identidade jurídica já neste ano de 2026. A prová-lo está a recente evolução da aplicação móvel gov.pt, a qual já serve para as empresas interagirem com o estado.
Para além da identificação jurídica, a União Europeia também já começou a tokenizar o dinheiro desde Julho de 2024 com os chamados e-money tokens (em português, microfichas de pagamento electrónico) e é por isso que o tão badalado projecto do Euro Digital nem sequer virá a ser necessário. Esta terceira forma de dinheiro vai fazer sentir a sua conveniência na autoexecução ecossistémica da web3, a qual vai poder começar a suportar quaisquer transacções da economia regulada. As primeiras transacções serão as do sector financeiro, ainda em 2026, por exemplo com a negociação de acções, obrigações e fundos com unidades de participação em mercados primários e secundários.
Naturalmente, para que a economia possa beneficiar em pleno da autoexecução ecossistémica da web3, os vários sectores da economia têm de sofrer alterações de legislação e regulação. No, fundo, tem de acontecer sector a sector o que já aconteceu ao dinheiro, à identificação jurídica digital e aos activos financeiros mais simples.
Imagine-se o que o aumento de eficiência em várias ordens de grandeza vai fazer, por exemplo, às transacções imobiliárias e aos vários tipos de direito de propriedade. Ou à capacidade de darmos liquidez aos activos móveis e imóveis, permitindo por exemplo a existência de garantias em tempo real sem necessidade de contractos complicados nem de hipotecas. Convido, aliás, os economistas a medir o valor da rentabilização dos activos hoje imobilizados na economia (stranded assets), e isto ao alcance de todos os que os detêm (pessoas e pequenas empresas incluídas).
Além disso, o impacto da tokenização tem efeito imediato no aumento de confiança ao nível das transacções. E também tem impacto imediato na conveniência, portanto, na eficiência dessas mesmas transacções em todos os sectores sem excepção.
Em suma, o impacto económico da web3 vai ser enorme transversalmente a toda a economia e é isso que estamos a perder. O atraso escolhido pelo Governo, que coloca a estratégia web3 na gaveta, não é perdoável.
Além do mais, na economia digital existe a vantagem de ser o primeiro, sendo, aliás, por isso que os EUA têm a supremacia nos serviços digitais com as Big Tech (Amazon, Google, etc.). Não é coisa pouca, pois afinal transformaram-se nas maiores empresas do mundo. Vamos deixar que outros Estados tomem a dianteira outra vez na próxima vaga tecnológica? É que o Genius Act nos EUA também vai tokenizar o dinheiro ainda este ano e isto em cima da tokenização de activos financeiros que já possível por lá. Sim, os nossos amigos do outro lado do Atlântico também já perceberam o valor da web3, e, se não formos rápidos, vamos perder a vantagem que apesar de tudo estávamos a conseguir por cá.
É preciso implementar uma estratégia rapidamente. Não tenho, portanto, palavras para as decisões que os últimos três governos têm tomado a este respeito, com atraso atrás de atraso. Se os decisores não percebem, há quem explique, e também há cursos sobre o tema. Se quem está a coadjuvar o Governo nas áreas tecnológicas também não percebe, não lhe ficará bem impedir que o país evolua apenas porque não sabe como beneficiar disso. O que não é aceitável é uma não-decisão negligente que nos vai sair cara a todos.
É por isso não posso ficar calado. Fica aqui o voto de protesto e a abertura para explicar tudo isto com o detalhe que for necessário. Mais do que falar, precisamos de líderes que tomem as decisões certas.



