Estreito de Ormuz: barril de petróleo ou barril de pólvora?

O Irão pode usar a pressão em torno do estreito de Ormuz quer para chegar à mesa com os EUA e negociar um novo acordo, quer para conter a crise política que o país enfrenta.

O estreito de Ormuz, um canal que está situado entre o Irão e Omã e que possui uma escassa largura e profundidade, tem um historial complicado devido à sua vulnerabilidade geográfica. Depois de seis petroleiros atingidos, do abandono do tratado nuclear por parte dos EUA, das sanções económicas impostas ao Irão e do abate de uma aeronave norte-americana não tripulada a tensão à volta da área é polvorosa e inflamável para todo o mundo.

As exportações e importações de petróleo e gás natural do Irão, Iraque, Kuwait, Bahrein, Qatar, Arábia Saudita e EUA passam todas pelo estreito de Ormuz. São cerca de 21 milhões de barris que circulam diariamente pelo estreito, segundo a Agência de Energia norte-americana (EIA), o que representa 21% do consumo mundial de petróleo e cerca de um terço de todo o petróleo que circula por via marítima. Cerca de 30% da produção mundial de hidrocarbonetos e um quarto do comércio mundial de gás natural liquefeito é escoado, também, pelo canal.

Numa análise económica, nomeadamente no que toca ao preço do barril de petróleo, refira-se que apenas um dia depois do ataque aos dois petroleiros o preço do barril de Brent registou uma subida de 4%. Pouco tempo depois, respetivamente no dia 20 deste mês, em resposta ao abate do drone norte americano, a cotação da commodity sobiu 6% nessa mesma data, sustentado em simultâneo por uma queda nos inventários do petróleo norte americano. No final da semana passada, a cotação do crude norte-americano registava ganhos semanais de quase 10%, naquela que foi a melhor semana desde novembro de 2016.

A tensão no Médio Oriente, cujo abrandar não se prevê num curto prazo, o prognóstico da extensão do acordo da OPEP (que antevê cortes na produção), um dólar fraco e uma Fed que pretende manter taxas de juro baixas, são fatores que fazem prever uma cotação do petróleo em alta na segunda metade do ano.

Em matéria geopolítica, um aumento dos preços do petróleo favorece os países exportadores, entre os quais se encontra o Irão. Após as sanções aplicadas pela administração Trump ao governo iraniano, não só foram afastados investimentos estrangeiros (caso da petrolífera Total e da construtora automóvel PSA), como também em maio, de acordo com a Reuters, o Irão exportou apenas 400 mil barris de petróleo, o que corresponde a uma queda superior a 50% face ao período homólogo. Simultaneamente, um aumento do preço do petróleo tem um efeito bola de neve, fazendo subir o preço generalizado de vários produtos, especialmente os asiáticos, cujo aumento se fará sentir na Europa e nos EUA.

Sem especulações, o Irão pode ter diferentes vantagens e ganhos estratégicos ao levar a cabo um ataque da espécie dos registados há duas semanas atrás. Não tanto pelo aumento do preço petrolífero, mas por razões políticas. Um pouco ao estilo de Kim Jong-un, que ao longo de 2017 fez 17 testes com mísseis, conseguindo o seu principal objetivo, sentar-se à mesa com Donald Trump para negociar tréguas.

Outro motivo surge relacionado com questões internas. O Irão vive atualmente um período politicamente conturbado. A pressão exercida sobre o estreito de Ormuz pode ser um trunfo a utilizar, quer para chegar à mesa com os EUA e negociar um novo acordo, quer para conter a crise política que o país enfrenta. O presidente Hassan Rouhani termina o seu mandato em meados de 2021 e uma negociação com Donald Trump seria um trunfo político a esgrimir.

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