Eu acuso

Senhores deputados, não se queixem da comunicação social. A culpa do crescimento de movimentos demagógicos, populistas e tendencialmente fascistas é, em primeira e quase em última linha, vosso.

(Sou das que quis acreditar que, não obstante tudo,  Bolsonaro podia não ganhar. A vitória, contudo, não é tanto mérito dele quanto o resultado de um quase mudo protesto dos cidadãos contra a escalada de corrupção que, se a uns enriquece, a muitos outros revolta. Não querer perceber isso e procurar atribuir a responsabilidade a realidades diversas do que o profundo descrédito que a classe política, por sua culpa exclusiva, merece é ignorar o óbvio ou continuar a tapar o sol com a peneira).

No espaço de uns meros dias, o nosso Parlamento tratou de nos envergonhar em três episódios, cada um mais ridículo do que o outro. Tivemos uma deputada que decidiu pintar as unhas enquanto era discutido o Orçamento do Estado e, em vez de perceber que a Assembleia da República não é uma chafarica onde se expõe a manicure, imputou o ónus à comunicação social que, tantas vezes, se faz o jeito. Há limites, até de respeito, que se impõem, sob pena de começarmos a achar normal que, por exemplo no meio de um debate, se faça a depilação ou a barba.

De seguida, somos confrontados com um deputado que arranja formas de ser dado como presente quando, na realidade, o não estava. A correcção veio, como é óbvio, sem explicações adicionais e apenas depois de o caso ter sido denunciado, de novo  pela comunicação social.

Se não é difícil perceber o destino de ambos se, por acaso, fossem trabalhadores por conta de outrem, a responsabilidade que têm é muito superior a estes últimos. Não perceberem isto é, quanto a mim, a demonstração que são dispensáveis.

Por último, e como se não bastasse já, a mesma Assembleia da República, eventualmente entre umas madeixas e umas saídas para ir mostrar presença noutros compromissos, aprovou uma fantástica resolução, a solicitar que a Ryanair faça o real favor de cumprir a legislação portuguesa. O que se segue? Eventualmente, um “por favor”.

Como já escrevi, somos um país que se habituou a ver em tudo uma piada, o que não significa que, volvida a gargalhada inicial, o que fique não seja um profundo desprezo pelos políticos. A decepção, como a História já o demonstrou, paga-se, muitas vezes, com a substituição por pessoas que, à semelhança de Tiririca, apenas prometem que “pior não fica”. O problema é que fica, mesmo para aqueles que, no momento do voto, sabem escolher a forma correcta de protesto.

No limite, senhores deputados, acuso eu: não se queixem da comunicação social, enquanto pintam as unhas, assinalam presenças onde não estão ou fazem resoluções inúteis sobre o cumprimento da lei que vos compete aprovar. A culpa do crescimento de movimentos demagógicos, populistas e tendencialmente fascistas é, em primeira e quase em última linha, vosso. Não nosso. Vosso.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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