Eu ainda sou do tempo…

Na atual revolução industrial, a maior flexibilidade dos modelos de participação no mercado de trabalho também torna a participação mais instável.

Para a minha geração, ouvir alguém dizer “eu ainda sou do tempo…” era sinal de que essa pessoa estava a ficar velha (ou na gíria juvenil, “cota”). Pois há bem poucos dias, deparei-me com o meu filho de 12 anos a dizer para a irmã de 6 anos: “Mana, eu ainda sou do tempo em que os telemóveis tinham botões!” São pequenos exemplos como este que nos confrontam com a acelerada evolução da tecnologia.

Neste contexto de constante mudança, muito se tem falado sobre o futuro do trabalho, o futuro sem trabalho, os trabalhos sem futuro ou os trabalhos do futuro. Seja qual for a perspetiva por que se olhe para o tema, também é verdade que o assunto não é novo. Já em 1930, Keynes questionava se o surgimento de novas tecnologias que substituem o trabalho poderia ultrapassar o ritmo a que descobrimos novos usos para o nosso trabalho.

A atualidade e pertinência desta questão não só se mantém como se alarga. Se, até agora, a tecnologia substituiu, maioritariamente, trabalhos rotineiros, os desenvolvimentos ao nível da inteligência artificial têm vindo a permitir a automação de trabalhos cada vez menos rotineiros.

Como o futuro é construído pelas escolhas e decisões que se tomam no presente, é importante olhar para as tendências atuais com o intuito de melhor responder às necessidades e oportunidades que virão.

A globalização, a crescente mobilidade e o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação mudaram e vão continuar a mudar o mercado de trabalho. Novas formas de organização do trabalho estão a emergir e o emprego estável para a vida está a ser substituído por modelos de trabalho mais fluídos e flexíveis: trabalho remoto, trabalho por projetos, trabalho colaborativo, trabalho em rede, part-time, emprego temporário ou freelancer.

Numa era em que estão disponíveis enormes quantidades de informação, a capacidade de transformar essa informação em soluções para problemas reais é crucial. A formação contínua será, cada vez mais, uma necessidade – quer pela velocidade a que as competências se tornam obsoletas, quer pela maior multiplicidade de papéis que irão ser exigidos que uma pessoa desempenhe ao longo da sua vida.

Além disso, a diversidade de nacionalidades e culturas que se encontra nas cadeias globais de valor torna a fluência em várias línguas uma competência essencial e diferenciadora. Seja qual for o futuro sabemos que, no presente, a fronteira entre o trabalho e o lazer se tem vindo a esbater, com a tecnologia a permitir trabalhar a qualquer hora e em qualquer lugar. As implicações de todas estas mudanças não são apenas pessoais, mas também sociais.

Nas anteriores revoluções industriais, a complementaridade entre a tecnologia e o trabalho qualificado potenciou a desigualdade entre indivíduos mais e menos qualificados.

Na atual revolução industrial, a maior flexibilidade dos modelos de participação no mercado de trabalho também torna esta participação mais instável, levando a que as pessoas enfrentem um aumento da incerteza de rendimentos que, em si mesma, se apresenta como mais uma fonte de desigualdade. A capacidade de responder a estes desafios na distribuição é um fator chave na definição do futuro que iremos construir.

Mesmo sem pretensões de adivinhação, é fundamental que o futuro do trabalho esteja no centro do debate, quer pela importância do trabalho na construção e afirmação da identidade da pessoa e dos laços sociais, quer porque o trabalho é indissociável do trabalhador. Pensar o trabalho é também pensar a pessoa.

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