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Eurofighter assume-se como o “candidato ideal para substituir” F-16 em Portugal

Consórcio esteve hoje em Portugal para promover caça europeu como substituto dos F-16 da Força Aérea Portuguesa.
27 Outubro 2025, 14h08

O consórcio que fabrica o avião de combate Eurofighter Typhoon esteve hoje em Lisboa para assinar um memorando de entendimento com vista a identificar fornecedores nacionais no caso do país escolher este caça.

“Vemos uma oportunidade para o Eurofighter. Somos o candidato ideal para substituir o F-16 em Portugal”, disse hoje Ivan Gonzalez Exposito, diretor de vendas do Eurofighter. “Queremos apoiar a autonomia estratégica que a Europa precisa. Isto é muito importante para a soberania nacional e da Europa”.

O consórcio disse que já teve conversações preliminares com o ministério da Defesa e com a Força Aérea. A saída do programa F-16 para iniciar um programa com outra empresa não será fácil, entende o consórcio que garante que está disposto a “oferecer” o seu “apoio”, segundo Ivan Gonzalez Exposito.

Pela experiência de outros concursos europeus, prevê que a adjudicação demore entre 2 a 3 anos desde o seu lançamento até à sua conclusão.

O responsável garante que a companhia está disposta a fazer um “bom preço”, reconhecendo os constrangimentos orçamentais de Portugal no setor da defesa, apesar do aumento previsto nos gastos para 2026. Questionado, não avançou com valores de compra destes aviões.

A produtora aeronáutica europeia, através da Airbus Defense, é uma dos integrantes do consórcio, em conjunto com os britânicos da BAE Systemas e os italianos da Leonardo. “Podemos ajudar a indústria portuguesa a ser mais europeia, a ser mais internacional”, disse Ivan Gonzalez Exposito.

O processo de substituição dos F-16 ainda não foi lançado pelo Governo de Luís Montenegro, mas várias delegações têm visitado Portugal, como os suecos da SAAB que produzem o Gripen ou os americanos da Lockheed Martin que produzem o F-35.

Mais de 740 Eurofighters já foram encomendados por nove países, tornando este o programa europeu de aviões “mais bem-sucedido” em termos de produção, segundo a Airbus.

O memorando de entendimento foi assinado com o AED Cluster Portugal, cluster nacional para as indústrias da aeronáutica, espaço e defesa.

Recorde-se que a Airbus já contam com a produção de componentes em Portugal, mas também com um centro tecnológico em Coimbra, num total de 1.600 trabalhadores.

Uma das possibilidades é a companhia investir mais em Portugal, não só para apoiar a compra nacional do Eurofighter, mas também para apoiar outros projetos do grupo Airbus. “As vantagens económicas para Portugal não vêm só do programa Eurofighter. Há outras oportunidades que podemos explorar diretamente”, disse, por seu turno, o diretor-geral da AED, Rui Santoos.

Entre as suas mais-valias, a companhia destacou que, se o país optar pelo Eurofighter, vai operar o mesmo tipo de caças usados pelo Reino Unido, Espanha, Itália ou Alemanha; que vai apoiar o desenvolvimento da indústria portuguesa; que o país vai estar a apostar na indústria europeia num momento em que cresce esse apelo. Recorde-se que as relações entre Bruxelas e Washington têm vindo a piorar devido às tensões geopolíticas geradas com a chegada de Donald Trump a Washington.

“É muito especial, muito importante, continuar a crescer aqui. Queremos continuar a criar parcerias. Esperemos que isto abra portas a uma nova página da história da Airbus em Portugal”, rematou Nathalie Hellard-Lambic, diretora-geral da Airbus Portugal.

Americanos e suecos fazem fila para vender aviões de combate a Portugal

No final de setembro, americanos e suecos fizeram fila para vender aviões de combate a Portugal. Em dois dias, a Saab veio a Lisboa mostrar o Gripen E, e a Lockeed Martin apresentou o seu F-35 na capital.

A presença de representantes das duas empresas não será alheia ao facto de estar a decorrer por estes dias o exercício NATO Tiger Meet 2025 (NTM25) na Base Aérea N.º 11, em Beja. que envolve 1.700 militares de 12 nacionalidades, com caças e helicópteros.

Mas também revela a crescente diplomacia económica em torno do novo avião da Força Aérea Portuguesa que vai substituir os F-16 (resta saber quando).

Os encontros que tiveram lugar em Lisboa na reta final de setembro contaram com membros das respetivas embaixadas, o que revela a importância da indústria de defesa para os governos de Estocolmo e Washigton.

No encontro da Saab esteve presente a embaixadora sueca Elisabeth Eklund; no da Lockheed estiveram membros da embaixada dos EUA, o que também é explicado por as vendas do F-35 serem feitas diretamente pelo Governo norte-americano a outros governos. Os contactos ao mais alto nível são feitos diretamente entre membros dos governos.

No encontro de apresentação do F-35 a 26 de setembro em Lisboa, a empresa destacou a “interoperabilidade” do F-35, “quer seja no ar, quer seja em terra”, e também destacou a experiência da empresa: “a Lockheed Martin tem estado em todo o mundo a entregar C-130, F-16 e F-35 e nunca falhou uma encomenda industrial”.
“Quando olhamos para a evolução das ameaças nos próximos 10, 20, 30, 40 anos, é uma questão de estar num programa que vai evoluir. O F-35 tem a capacidade para desempennhar as missões sem problemas, e regressar a casa em segurança no fim da missão”, disse Greg Day, diretor para negócios internacionais da LM.
Sobre o memorando de entendimento assinado em junho com o AED Cluster para procurar fornecedores em Portugal, se o país vier a comprar os F-35, o responsável sublinhou que o acordo foi assinado para promover a “cooperação e integração” para a companhia ficar a conhecer as empresas que possam vir a ser parceiros. “A Lockheed Martin está a traballhar em inovação, desenvolvimento e engenharia. Vamos continuar a evoluir para ficarmos totalmente alinhados com a indústria portuguesa”.

Na apresentação feita aos jornalistas, a Lockheed Martin (sediada em Bethesda nos arredores de Washington DC) destacou que já existem mais de 1.200 F-35 a voar neste momento, com as bandeiras dos EUA, Reino Unido, Itália, Países Baixos, Canadá ou Alemanha.

Por ano, saem 156 destes aviões das 3 fábricas da Lockheed no Texas, Itália e Japão. O objetivo é entregar mais de 36 mil F-35 até ao fim do seu ciclo de produção.

A companhia destaca que conta com 1.900 fornecedores industriais, com mais de 25% dos componentes dos F-35 a serem feitos na Europa.

No seu pitch de venda, a Lockheed sublinha que o F-35 junta as capacidades do satélite LM100, do avião-espião U2, dos caças F-16 e F22, e dos sistemas de misseis AEGIS e HIMARS. A empresa criou o F-35 com a lógica de juntar todas estas capacidades numa única aeronave.

Em termos de tempos de entrega, Greg Day destaca que o primeiro lote pode ser entregue no espaço de 4 anos, um modelo base e que corresponde à maioria das escolhas dos países, apontou. A partir da primeira entrega, as restantes podem ser acertadas ao ritmo que o Governo quiser, sinalizou.

Questionado sobre se Portugal deveria esperar por um caça de 6ª geração, o gestor questiona: “Quando é que vai aparecer? Não vejo ninguém com um caça de 6ª geração. O programa do F-35 é para durar mais 40 ou 60 anos. O programa vai continuar a evoluir”.

Em julho, o novo embaixador dos EUA em Portugal defendeu que o país devia apostar nos F-35. “Durante décadas estiveram [Portugal] no fundo da tabela em termos de gastos com defesa. A minha tarefa é discutir a modernização militar. A frota de F-16 está envelhecida. O programa F-35 seria uma das minhas prioridades de topo. Colocaria [o país] no topo a caminho dos 5%” de gastos militares com o PIB, defendeu John Arrigo na sua audição de nomeação no Senado em Washington.

No início de junho, J.R. McDonald, vice-presidente para o F-35 também fez o seu pitch sobre a aeronave em Portugal.  “Somos o único avião de combate de quinta geração no mundo. É construído no Ocidente para países do Ocidente. Não acreditamos que haja concorrentes à altura. Já temos 20 países clientes. Acreditamos que o F-35 providencia o melhor valor para a soberania nacional. Penso que seria muito bom para Portugal, como membro da NATO, ter a mesma aeronave que a maioria dos membros da aliança para garantir a segurança de Portugal e da Europa”, defendeu na altura.

Sobre valores, o responsável aponta que o custo básico da aeronave nos últimos três anos tem rondado os 82,5 milhões de dólares (72 milhões de euros), mas este preço é o de saída de fábrica, não incluindo custos obrigatórios com infraestruturas, treino ou manutenção. “O Governo norte-americano não vende um avião. Vende um programa, o que significa infraestruturas e acordos para treinos conjuntos. Existe muito mais do que o custo de produção de um avião”. Sobre timings, disse não saber quais os prazos que o Governo português tem em mente para uma decisão sobre o próximo avião de combate.

Em relação ao acordo com a AED, disse estar a trabalhar com a “indústria portuguesa há mais de quatro anos, para identificar indústrias específicas. É uma situação onde ambos ganham: podemos trazer conhecimento e tecnologia, eles podem trazer outras capacidades. Tudo junto, podemos ter algo melhor para usar, não só para o F-35, mas para a indústria aeroespacial”, afirmou em junho à margem do evento AED Days, organizado pela AED Cluster Portugal – Aeronautics, Space and Defence.

“Este memorando serve apenas para falarmos com Portugal sobre capacidade e a indústria. Acreditamos que, se Portugal tomar a decisão de avançar com o F-35, o trabalho que fizemos vai definir os projetos certos alinhados com a compra dos F-35. Este é momento para nos conhecermos e identificar capacidades para identificar projetos que possam estar interessados em fazer parte do programa do F-35. É um passo inicial para uma relação de longo prazo”, rematou o executivo.

O avião de combate sueco que junta Ikea com Lego

Uma boa vizinhança é importante, mas a Suécia teve azar, com a Rússia ali ao lado. O caça Gripen E foi criado a pensar, precisamente, num ataque russo à Suécia. Os aeroportos são das primeiras infraestruturas a serem atacadas numa guerra, e é por isso que o caça Gripen consegue aterrar numa estrada no meio do campo. Por ter estado fora da NATO durante décadas, o país escandinavo não esteve com meias medidas e criou o seu próprio avião.

E é aqui que é possível fazer uma comparação com a também sueca Ikea ou a dinamarquesa Lego. Uma das suas vantagens é que é mais barato do que os seus concorrentes diretos, destaca a empresa, logo menos dinheiro a ser pago pelos contribuintes. Outras das mais-valias é que pode-se juntar mais software para ganhar novas capacidade, e os clientes podem modelar o avião à sua maneira, perante as suas necessidades. Em suma, mais barato e eficaz, segundo a companhia de Estocolmo.

Agora, a Saab tenta vender o seu caça a outros países, como Portugal, sendo uma das duas produtoras mundiais de aviões de combate que têm estado ativas no país nos últimos tempos numa ofensiva diplomática para tentar ganhar pontos na corrida à venda de aeronaves.

“É um avião muito eficiente em termos de custos. Foi desenhado assim desde o primeiro dia, isto não é algo que possa ser mudado posteriormente”, disse Daniel Boestad da SAAB, apontando que, tendo em conta o ciclo de vida total da aeronave, os custos ficam em cerca de um terço de alguns dos seus concorrentes mais diretos, não revelando valores. Um F-35, por exemplo, em um preço-base de produção de 70 milhões de euros.

“O Gripen foi desenhado para operar fora da base principal, se as bases principais são atacadas é preciso mover os alvos. Conseguimos operar a partir de uma estrada normal, com uma pequena equipa para operar o avião”, segundo o vice-presidente da Saab para a unidade do Gripen num encontro com jornalistas em Lisboa na quinta-feira.

Outra das mais-valias da aeronave, segundo a companhia, é a capacidade de adaptação da tecnologia com que o avião opera: basta atualizar o software para consegue acrescentar funções. “Podemos facilmente melhorar a função tática. Se houver uma nova ameaça, podemos introduzir no sistema. Antes demorava meses ou anos, agora é muito mais rápido”.

O tema da substituição dos F-16 ainda não foi lançado, pelo menos publicamente, mas no setor da defesa há quem defenda que o país deveria acelerar, pois o processo de escolha e as entregas demoram uns bons anos.

Os suecos da Saab, que fabricam o Gripen E, e os norte-americanos da Lockheed Martin, que produzem o F-35, têm estado a forjar parcerias com entidades nacionais. A mais recente foi a assinada pela Saab com a Critical Software e a OGMA-Indústria Aeronáutica de Portugal. Para já, há um memorando de entendimento que visa a exploração de oportunidades.

Entre o modelo sueco e norte-americano há algumas diferenças, pois o Gripen é mais rápido do que o F-35 (Mach 2.0 vs Mach 1.6) e com uma maior autonomia em modo de combate (1.300 km vs 1.100 km). A grande vantagem do F-35 é a capacidade de camuflagem, para desaparecer no radar do inimigo.


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