O setor europeu das telecomunicações encontra-se num ponto de inflexão, marcado pelo que se prevê ser a maior vaga de fusões e aquisições das últimas décadas. De acordo com o último relatório da Oliver Wyman, Capital Currents: Europe’s Telecom Industry Should Prepare for a Big M&A Shake-Up, vários fatores estão a convergir para dinamizar a consolidação, cuja importância será fundamental para reposicionar a Europa como referência global em conectividade e inovação.

Esta urgência de consolidação é impulsionada pela necessidade de alcançar escala suficiente para competir com os grandes atores internacionais, especialmente num contexto geopolítico como o atual. Enquanto o operador europeu médio gere aproximadamente 5 milhões de assinantes, os seus homólogos nos EUA e na China atingem 107 e 467 milhões, respetivamente.

Esta fragmentação excessiva tem consequências diretas na receita média por utilizador, significativamente inferior à dos operadores de outras regiões, o que limita a capacidade de investimento em infraestruturas digitais e a competitividade futura. Na Europa, a receita média mensal por utilizador da conectividade fixa e móvel é de 23€ e 15€, respetivamente, muito abaixo dos 59€ e 43€ registados nos EUA. Do mesmo modo, o investimento per capita na Europa é de 109€, enquanto nos EUA atinge 174€, uma diferença de 37% que compromete a escalabilidade dos operadores europeus.

Perante este cenário, a consolidação torna-se imprescindível para aumentar a escala e a capacidade de investimento. Na maioria dos países europeus, existem diversos operadores a competir em preços e serviços. Uma maior consolidação permitiria uma gestão mais eficiente das infraestruturas e uma melhoria na qualidade e sustentabilidade do serviço, além de facilitar o desenvolvimento de novas tecnologias.

Nesse sentido, os movimentos recentes em Espanha são um prenúncio da transformação que se aproxima. A Telefónica, a Vodafone e a MasOrange criaram empresas dedicadas exclusivamente a prestar serviços a operadores sem rede, como a Bluevía, a Fiberpass ou a PremiumFiber, que competem com outras entidades especializadas no aluguer de redes de fibra, como a Onivia, a Adamo ou a Elanta. Paralelamente, a consolidação entre operadores, como a fusão entre a MasMóvil e a Orange ou a integração do Grupo Euskaltel (que inclui a R, na Galiza, e a Telecable, nas Astúrias) na MasOrange, demonstra a clara tendência para a ampliação de escala e eficiência.

A Telefónica também respondeu a este desafio com a apresentação de um novo plano estratégico, que reflete esta nova abordagem para poder competir de forma realista no mercado através de operações de fusões e aquisições – uma tendência necessária a nível europeu, que diferentes executivos da empresa têm manifestado em várias ocasiões.

Para participar ativamente neste processo de consolidação na Europa, a Telefónica está a gerir de forma pragmática a utilização do dinheiro gerado pelo negócio, reduzindo o dividendo – uma medida acertada – para continuar a diminuir o endividamento, ao mesmo tempo que ganha flexibilidade financeira para poder reagir às oportunidades que venham a surgir.

Esta abordagem, juntamente com as restantes iniciativas propostas no seu plano estratégico, permitirá à empresa gerar uma poupança de até 3 mil milhões de euros em 2030 e alcançar um crescimento médio anual das receitas de 2,5–3,5%, o que acelerará o posicionamento da Telefónica como futuro líder na consolidação do setor europeu das telecomunicações.

O ambiente regulatório também está a reconhecer a necessidade de um setor mais forte e a atravessar uma evolução significativa que favorece este tipo de operações, influenciada pelos relatórios de Draghi e Letta, que, embora não vinculativos, orientam o debate sobre escala, investimento, reforma do mercado único e competitividade continental. Os reguladores estão gradualmente a adotar uma abordagem mais flexível, que favorece a criação de grandes operadores nacionais capazes de competir à escala global, embora ainda seja necessário adaptar determinadas normas de análise destas operações, de forma a torná-las viáveis, encurtar os prazos e reduzir a incerteza.

Por outro lado, o contexto geopolítico acrescenta outra dimensão a esta transformação. A soberania digital tornou-se uma prioridade estratégica para a Europa e as telecomunicações são a sua espinha dorsal. Neste cenário, os operadores consolidados, ao disporem de maior capacidade de investimento e de recursos técnicos, estarão mais bem preparados para desenvolver infraestruturas críticas sem depender de fornecedores estrangeiros, especialmente na implantação de redes de última geração, como o 5G standalone, a fibra ótica para empresas e outras tecnologias que requerem investimentos massivos e que permitirão oferecer novos serviços e impulsionar o desenvolvimento de novos modelos de negócio.

Como temos vindo a observar, o processo já está em andamento. Não existe um único caminho para o sucesso, mas este passa pela combinação de diferentes estratégias de consolidação, que respondem a objetivos e contextos diversos: consolidação nacional, fusões transfronteiriças, integração de infraestruturas, reequilíbrio do portefólio e aposta em motores de crescimento próximos do núcleo.

Acreditamos que a consolidação será positiva para todas as partes se converter sinergias em melhores redes e serviços mais competitivos, que facilitem a inovação económica. Isso exige disciplina no balanço, foco no investimento produtivo e aproveitamento das economias de escala para alcançar uma maior eficiência que permita reduzir custos. Nesse sentido, reforçar hoje a flexibilidade financeira – como anunciaram alguns operadores – permite competir num mercado que premiará aqueles que investirem mais cedo e melhor.