“Existem mais razões para investir na canábis medicinal em Portugal do que desafios”, considera consultora de saúde

Empresários, reguladores e especialistas na temática estão reunidos em Lisboa, desde quarta-feira, para a quarta edição da conferência internacional CannX Lisbon. Em entrevista ao Jornal Económico, uma das ‘speakers’ desta conferência, considera que o ‘boom’ deste mercado em Portugal não mostra sinais de abrandamento por parte dos investidores internacionais.

Um ano depois da entrada em vigor da legislação que permitiu a comercialização, nas farmácias portuguesas, de produtos e substâncias à base de canábis assistiu-se a um boom no mercado em Portugal. Atualmente, existem seis empresas a operar no mercado, sendo que apenas cinco delas têm licença para cultivo da planta.

O crescimento emergente em Portugal é notável e aposta naquilo que é chamado de “ouro verde” deverá continuar a crescer de acordo a tendência. E foi precisamente isso que foi discutido na quarta edição da conferência internacional CannX Lisbon 2020, que decorreu esta quinta-feira na FIL.

Certos de que Portugal poderá ser um elemento chave para a expansão deste mercado não só na Europa, mas também no mundo, Luísa Cruz da WiseHs, o professor Alexandre Quintanilha e o advogado Carlos Nunes sentaram-se para discutir as oportunidades e desafios de investir em Portugal. Falando em inglês para uma plateia de investidores, empresários e consultores, o advogado frisou que devido à dificuldade que há na obtenção de licenças do Infarmed, é preciso “muita paciência”.

“Isto [abrir um negócio de canábis medicinal em Portugal] requer muita paciência porque estamos sempre a arrancar e parar por causa do Infarmed. Mas todos os passos são importantes. Cada passo significa estarmos mais perto de conseguirmos as licenças necessárias”, explicou.

Mas a espera não é motivo para não investir. Na verdade, segundo a consultora existem cerca de 10 razões para fazer esse investimento. “Existe uma posição favorável em Portugal em relação aos outros países da Europa e isso pode ser comprovado no investimento internacional a que temos assistido recentemente”, explicou ao Jornal Económico.

Para além do clima e solo disponíveis para a plantação da marijuana, que resultam num preço de custo muito reduzido em comparação com outros mercados internacionais, e que por sua vez ajudam a rentabilizar os negócios das empresas, Portugal tem outros aspetos a seu favor.

“Temos uma situação muito clara e regulamentada cá, uma vez que o Infarmed tem uma grande reputação a nível Europeu”, explicou a especialista. “Obviamente que com a licença atribuída por esta entidade existe um valor muito grande a nível europeu e para os outros mercados também”.

Outro aspeto é, “sem dúvida”, a estabilidade política que levou à aprovação da legalização da canábis medicinal em Parlamento com maioria a favor e o posicionamento geográfico favorável na Europa. Por exemplo, empresas como a Tilray e a EXMceuticals decidiram apostar, estrategicamente, em Portugal precisamente porque servirá como “porta de entrada” para o mercado europeu.

Segue-se ainda algumas facilidades acrescidas para os investidores, como os vistos gold, a qualidade de vida, e a presença de entidades técnicas e cientificas dedicadas a fornecer apoio jurídico e ajudar nas candidaturas ao Infarmed por parte das empresas estrangeiras.

“Os recursos humanos portugueses e qualificados são outro grande benefício na aposta em Portugal”, continuou Luísa Cruz, acrescentando que existe uma maior vontade para abraçar as oportunidades que poderão resultar desta industria. Porém, esta mão de obra não é especializada ainda, para isso é necessário haver mais oportunidades de especialização que deverão partir das entidades patronais e dos trabalhadores interessados. “Vai ter que partir daí visto que estes temas não são divulgados na universidades nem politécnicos”.

O que é certo é que estamos a assistir a um boom deste mercado em Portugal. “Está toda a gente interessada. É um negócio que tem uma rentabilidade e retorno de investimento muito bom”, frisou.

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