Trump já anunciou o novo presidente da Fed, Kevin Warsh. O cenário de fundo para a escolha mantém-se: mais inflação em perspetiva, esperando-se descidas da taxa de juro – se foi mantida na última reunião do Federal Open Market Committee, não foi graças aos nomeados de Trump, Waller e Miran, que votaram pelo corte.
Mas não se perde por esperar pois – condição sine qua non – Warsh está comprometido com a redução dos juros, como o estavam os outros candidatos ao lugar. Em consequência, a University of Michigan Survey dá uma expectativa de inflação de 3,5% para 2027 e 3,4% em média para os cinco próximos anos. E se há expectativa de inflação, exige-se o aumento dos salários e temos inflação. Powell salientou a importância da decisão de manutenção dos juros para defesa da independência do banco central e confessou acreditar que foi por não acatar os desejos de Trump que lhe foi posto um processo sobre as obras de remodelação na sede da instituição. Diga-se de passagem que não há comparação com as obras de Trump na Casa Branca, para acomodar o seu salão de baile.
Resta saber se Trump não vai exigir uma espécie de acordo pré-nupcial a Warsh. Quando nomeou Powell em 2017 disse que “Jay will put his considerable talents and experience to work leading our nation’s independent central bank”; agora fala dele como “moron”, “stupid” e “incompetent”, e confessa que “I’ll be honest, I’d love to fire his ass.” Pois, Warsh não vai ter a vida fácil e é bom que compre uns tampões para os ouvidos, até porque foi um “falcão”, alguém cuja primeira preocupação está na inflação. Era, por exemplo, adepto da redução do stock de ativos financeiros da Fed – demitiu-se da Reserva Federal em 2011 por se opor ao Quantitative Easing, que em 16 anos aumentou este stock de 900 mil milhões de dólares para nove milhões de milhões –, o que faria subir a taxa de juro e elevaria o custo da dívida pública americana, coisa que Trump quer evitar após o valente empurrão que está a dar aos défices orçamentais. Sem falar do mercado da habitação, que faria descer a popularidade de Trump (em 39%) à subcave.
Warsh está num dilema: ou é fiel a si próprio ou “roda” a taxa flutuante do stock de ativos, absorvendo riscos que deviam ser do setor privado. Se Warsh parece mais “pomba” desde que Trump começou a procurar um sucessor para Powell, há quem ache que foi por razões estratégicas. Se, como o escorpião, revelar a sua natureza, partimos para um filme que já vimos, e que não acaba bem.


