Falhados

Na Wikipédia aprendem-se coisas nunca pensadas por um cidadão comum, como um tipo de morte chamado hilaridade fatal, resultante de paragem cardíaca ou asfixia na sequência de um ataque de riso.

O meu irmão resolveu vir viver para Portugal. Depois de uns anos em Inglaterra, não suportou nem o clima, nem a cozinha, se é que a english cuisine merece ser qualificada como cozinha. Reconheço, a favor dele, que me faz impressão um tipo culinário com especialidades cujo nome não consigo traduzir, como spotted dick, que faz mais confusão depois de Chris Griffin, num episódio do “Family Guy”, dizer: “I always thought spotted dick had something to do with Morgan Freeman.”

Depois do meu irmão se instalar em Portugal, e graças às visitas dos meus sobrinhos, aprendi com eles a consultar uma coisa fantástica – Oh!, que falta na minha juventude, para fazer os trabalhos de casa do liceu –, a Wikipédia.

Na Wikipédia aprendem-se coisas nunca pensadas por um cidadão comum, por exemplo, que há um tipo de morte chamado hilaridade fatal, em que a morte sobrevem de paragem cardíaca ou asfixia na sequência de um ataque de riso. Há casos desde a Grécia antiga, como o de Crisipo de Solis, filósofo do Século III a.C., que morreu depois de dar vinho ao burro e vê-lo alimentar-se de figos. Se já na altura morria gente de riso, e como foram os gregos uma civilização politicamente avançada, há seguramente correlação entre as duas coisas.

Eu posso entender, pois já ouvi declarações de políticos que quase me mataram de riso. Outro caso é o de Thomas Urquhart, que morreu de hilaridade fatal em 1660 ao saber que Carlos II subiu ao trono – estou surpreendido por isso não acontecer regularmente hoje em dia.

A Wikipédia é também importante para nos documentarmos sobre Ampelmännchen, a figura de peão com um chapéu na cabeça que aparece nalguns semáforos das passadeiras na Alemanha e que é das poucas coisas que sobram da Alemanha do Leste. Extremamente popular, é um símbolo de culto, presente nos souvenirs vendidos aos turistas.

Ou ainda para sabermos que há entre o Egito e o Sudão o território de Bir Tawil, com dois mil metros quadrados, que ninguém reclama. É uma verdadeira terra de ninguém, que não aparece nos mapas de nenhum dos dois países. Em 2014 foi reivindicado pelo americano Jeremiah Heaton, de Abingdon, na Virgínia, que queria aí estabelecer um reino para a sua filha de sete anos ser uma princesa a sério.

Voltando ao meu irmão, ele vai agora viver para os Açores, e confesso que me assustei quando consultei a Wikipédia e li sobre a falha dos Açores. É uma junção tripla entre as placas tectónicas africana, euroasiática e norte-americana, situada na Dorsal Média Atlântica, da “categoria R-R-R” do “tipo T”.

Dito assim, aterra, e com razão. Está na origem do terramoto catastrófico que, em 1522, destruiu quase toda a população de Vila Franca do Campo, alterou a ocupação da ilha de São Miguel e originou um tsunami. Em 2018, só numa madrugada foram uns 300 sismos. Confesso que até aqui estava convencido que a falha dos Açores eram os resultados das eleições de há uma semana.

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