Um T2 em Sines para arrendar já custa dois mil euros, o preço de Lisboa ou Porto. Mesmo em pleno inverno, os hotéis estão com uma taxa de ocupação de 80%, mas não são turistas de época baixa que por lá andam de calção e manga curta a desafiar o vento Atlântico, são profissionais ligados à indústria e ao porto que não têm onde ficar. E tudo isto – preços de Oslo, serviços inexistentes ou maus e falta de casas – já está a acontecer muito antes da verdadeira chegada dos hunos, o exército de engenheiros que fará mexer os monumentais centros de dados de Inteligência Artificial. É por esta razão que voltámos a Sines esta semana: custa a acreditar no contraste entre os trinta projetos zilionários previstos para a cidade (25 mil milhões contratualizados) e a inexistência de um plano público que requalifique e reimagine a cidade.

Mas é assim que Portugal funciona: não há planeamento. O empenho do Governo – em particular de Gonçalo Matias e Manuel Castro Almeida – em dinamizar Sines deve ser elogiado, mas é apenas parte do trabalho, talvez metade. A cidade vai ter o dobro dos habitantes dentro de cinco anos. Haverá uma pressão demográfica fatal para a população local mais empobrecida. Pescadores, trabalhadores portuários e funcionários públicos, só para dar três exemplos, serão confrontados com o brutal impacto de uma nova realidade muito inflacionada. Sines será como as vilas do faroeste americano durante a febre do ouro: muita procura, oferta escassa e muitos garimpeiros especuladores. Na verdade, se não houver planeamento adequado (saúde, educação, segurança, transportes, higiene urbana, etc.), a competitividade de Sines será, a prazo, posta em causa: ninguém quer viver muito tempo numa cidade desconjuntada e impreparada. Estivéssemos nós a falar de um Mundial e haveria mil planos e até debate público. Sines… Sines só existe para as folhas de Excel. Fala-se dos biliões que vão entrar, pouco se diz sobre a responsabilidade – e a oportunidade urbanística – que os bi implicam.