Fed, quo vadis?

O FMI projeta um crescimento de 6% para a economia mundial e a OCDE estima que o G20 esteja já ao nível pré-pandemia. De acordo com a Comissão Europeia, os 27 chegam ao pré-pandemia no final do ano.

Enquanto escrevo decorre a reunião do Open Market Committee da FED, aquele momento em que se fala Fedspeak, a língua viva incompreensível para os mortais em que era exímio Alan Greenspan e que terá porventura sido criada por Chauncey Gardiner, personificado por Peter Selers no “Being There” de Hal Ashby. O programa para esta reunião promete ser mais animado que de costume, dados os números de junho da inflação nos EUA: os preços subiram 0,9% num mês, o que fez a taxa anual subir para 5,4%, o valor mais alto em 13 anos; mesmo a inflação-core, que exclui produtos alimentares e energia, subiu 4,5%.

Também de registar é o aumento dos preços no produtor: 7,3%. Estamos longe do objetivo de 2%. A questão é, portanto, quando irão as taxas de juro subir, se já no próximo ano ou só em 2023, como se antecipava. Powell tem defendido que a subida da inflação é temporária, fruto do ajustamento a um novo nível de procura. Há 50 anos havia uma marca de tabaco que se chamava Provisórios; como não podia deixar de ser, havia também uma chamada Definitivos. Resta saber se, como se parodiava na altura, não temos provisórios com sabor a definitivos.

No tocante à Fed, além das taxas de juro será decidido se começa o phasing out dos 120 mil milhões de dólares mensais de compras de ativos pelo banco central, como disse Powell na sua audição no Congresso no dia 14. Estão particularmente em causa os 40 mil milhões mensais de dólares de MBS (mortgage-backed securities), atendendo ao “aquecimento” do mercado imobiliário – os preços da habitação aumentaram 23% em 12 meses. Relembre-se que a economia americana está em franco crescimento, numa combinação de recuperação da pandemia, política monetária expansionista e dinheiro público atirado ao problema.

Os EUA crescerão perto de 7% este ano (8,5% em termos anuais no segundo trimestre); diz a Goldman Sachs que os investidores estrangeiros irão pôr mais 200 mil milhões de dólares em ativos financeiros nos EUA, depois dos 700 mil do ano passado – sinal claro de que acreditam na força da recuperação económica. O FMI projeta um crescimento de 6% para a economia mundial e a OCDE estima que o G20 esteja já ao nível pré-pandemia, mais atrás na Europa: a Alemanha chegará lá no próximo trimestre, Itália e Espanha no terceiro de 2022. De acordo com a Comissão Europeia, os 27 chegam ao pré-pandemia no final do ano.

Está na altura de tratar da saída da crise: no Reino Unido, diz Fraser Nelson que agora há que atender à bomba da dívida: cada ponto adicional da taxa de juro acrescenta 21 mil milhões de libras aos encargos da dívida pública, duas vezes todo o orçamento de ajuda internacional do país (e 10% do PIB português). Chegará a receita fiscal extra para o cobrir? Conclui que a subida dos juros pode ser a pandemia dos próximos anos. Johnson não foi derrotado pelo vírus, será que o vai ser pela dívida? Quem te avisa…

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