Festejos do São João potenciaram “super transmissão” no Porto, diz matemático Óscar Felgueiras

O matemático e epidemiologista Óscar Felgueiras confirma ao JE que os festejos da semana passada desempenharam um papel importante no agravamento de casos no Norte. Os dados indicam que a região encontra-se numa “situação que gere alguma preocupação” e estima que “nas próximas semanas” se assista a “um aumento muito significativo de casos de Covid-19”.

A região do Norte esteve em situação de “super transmissão”, na semana passada, após os festejos do São João, no Porto, motivo pelo qual se encontra hoje numa “evolução agravada” da pandemia, confirmou esta quinta-feira ao Jornal Económico (JE) o matemático especialista em epidemiologia Óscar Felgueiras, da Universidade do Porto.

“Tudo indica que existe uma coincidência temporal. Nos últimos dias temos assistido a um crescimento generalizado em toda a região Norte, mas no concelho do Porto e arredores, há de facto um aumento mais expressivo e que começa a ser cada vez mais nítida a relação com o São João”, explica o especialista que integra a equipa da Administração Regional de Saúde do Norte (ARS Norte).

Óscar Felgueiras adianta por isso que a região poderá estar a caminhar para um novo máximo a nível do risco de transmissão, o famoso Rt. “Em outubro, no Norte, após o início do ano escolar, o máximo registado foi de 1,30. Atualmente, muito provavelmente estaremos a falar de valores nessa ordem ou superiores”, estima em conversa com o JE.

Quanto à incidência, segundo avança o jornal “Público“, esta quinta-feira, os dados apontam para os 137 casos de covid-19 por 100 mil habitantes a 14 dias. Se juntarmos a isto à avaliação da passada semana, também acima dos 120 casos por 100 mil habitantes, vemos que o concelho está pela segunda vez acima da “linha vermelha” traçada pelo Governo para as zonas de alta densidade populacional, o que deverá significar redução de horários e imposição de medidas mais restritivas.

Questionado sobre se a variante Delta representa um papel neste aumento de casos, Óscar Felgueiras não deixa margem para dúvidas, uma vez que “a variante é mais transmissível e o Norte, até agora, tinha tido uma prevalecia menor do que o Sul do país”.

“A estimativa do INSA apontava para uma prevalência de cerca de 30% no Norte até 15 de julho”, explica ainda. “Perante a situação de super transmissão da semana passada”, tudo indica que poderá haver “uma prevalência da variante certamente acima deste nível. Isto faz com que o impacto de um evento de super transmissão seja maior do que se estivesse em causa uma outra variante. É de algum modo expectável que tenhamos um aumento muito significativo de casos”, frisa.

Relativamente ao peso que as novas infeções por Covid-19 poderão exercer sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS), Óscar Felgueiras admite esperar que haja um “aumento relativamente moderado” quanto ao nível de internamento, argumentando que as faixas etárias mais vulneráveis, ou seja, as mais idosas, estão já “praticamente todas vacinadas” e que as novas infeções estão associadas principalmente à população mais jovem.

Quanto à meta de vacinação, que agora deverá subir para 85% da população com as duas doses da vacina tomada (recorde-se, que a meta anterior, estimada pela União Europeia, era de 70%, com pelo menos uma dose até ao final do verão), o matemático considera que esse vai ser um objetivo demorará “vários meses” até ser cumprido.

“Perante esta variante só com duas doses é que faz sentido falar em verdadeira imunização. Vamos precisar de mais tempo para que a vacinação, por si só, consiga controlar a pandemia”, rematou.

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