Fintechs ganham vantagem com o confinamento

Muitas são “alvos fáceis”, com pouca liquidez, mas estão a aproveitar a mudança de hábitos de pagamento para captar clientes.

Bancos versus fintechs, confiança dos clientes e segurança dos depósitos e operações versus agilidade na criação de novos produtos/serviços e flexibilidade em alterar o modelo de negócio? Não, não vamos voltar ao debate ininterrupto dos últimos cinco anos. Nos últimos dois meses, as rotinas dos cidadãos transformaram-se, a economia contraiu, as pessoas deixaram de se deslocar tanto e os hábitos de consumo mudaram para grande parte dos cidadãos, o que causou alterações nos modos de pagamento, dando gás aos canais digitais dos bancos (ver página ao lado) e maior projeção às fintechs. A maior do mundo, a Ant Financial, revelou esta quarta-feira que só entre março e abril as empresas de serviços na China criaram mais de 800 mini programas Alipay (desenvolvidos pelo grupo chinês para digitalizar este setor), cada um com mais de dez mil utilizadores mensais ativos.

A associação Portugal Fintech também não tem dúvidas: “O novo coronavírus é o impulsionador tecnológico do século”. Simão Cruz, cofundador e um dos jovens portugueses destacados este ano pela revista “Forbes”, considera que a pandemia alterou a hierarquia das necessidades quer dos consumidores quer das empresas, e acentuou a importância da colaboração. O subdiretor de Estratégia Digital e Desenvolvimento do banco BiG dá o exemplo da “Fintech Solutions List”, que detalha como mais de 40 startups podem cooperar no processo de transformação digital das organizações. “Com 24% a operar em insurtech, 16% em lending e credit, seguidos por áreas como personal finance ou Data e IA, mais do que trabalhar com uma startup, é possível combinar várias soluções ao longo de uma cadeia de valor para criar propostas de valor únicas”, diz ao Jornal Económico (JE). “Mais do que nunca, as startups e as grandes instituições bancárias são aliadas para que todos possamos sair mais fortes da situação atual”, garante.

A resposta, mais do que nunca, está nas parcerias. A empresa portuguesa ebankIT, que desenvolveu uma plataforma bancária digital e vende serviços de mobile e internet banking, backoffice/frontoffice e centros de contacto, está há seis anos a ajudar bancos e redes cooperativas de crédito a inovar. Enquanto fintech que trabalha para grandes instituições financeiras, desvaloriza a opinião de quem as considera um risco para o negócio da banca dita tradicional. “São complementares”, assevera Renato Oliveira, presidente do conselho de administração e CEO da ebankIT. “A sociedade está a evoluir de forma a aceitar e compreender esta nova realidade online, sobretudo no momento que estamos a atravessar. Diria até que, com a aceleração digital forçada destes últimos dois meses, existem mais hipóteses para os processos digitais ganharem protagonismo e as fintechs apresentarem um melhor posicionamento para responder a esta nova realidade de negócio digital”, refere.

Em fevereiro, a Revolut fechou uma ronda de investimento que avaliou a empresa em 5,5 milhões de euros, permitindo-lhe ter uma almofada financeira para o “asteroide” que já tinha chegado mas ainda não tinha deixado “cratera”, reproduzindo as expressões do vice-presidente da Comissão Europeia. Ricardo Macieira, country manager em Portugal, admite que muitas fintechs serão incapazes de agir e tornaram-se “alvos fáceis, dado que tendem a ser empresas recentes, com pouca liquidez ou cash flow para reagir à súbita perda de faturação”, mas acredita que outras, à semelhança do unicórnio britânico, aproveitarão a oportunidade “para reprogramar os seus negócios e reestruturar as suas organizações”. “Dependerá muito da capacidade de resiliência”, explica ao JE.

A Visa, com quem a Revolut colabora, apercebeu-se de que a pandemia colocou as fintechs sob os “holofotes” e há duas semanas anunciou o reforço do ‘Fast Track’, um programa que cresceu mais de 200% desde a sua expansão global em 2019 e que passou agora a integrar mais de 140 empresas tecnológicas financeiras. “Acreditamos que a chave é a colaboração entre grandes empresas, como instituições financeiras e bancárias e as fintechs, de modo a antecipar melhor as necessidades dos clientes e permitir mais inovação, para que seja sempre possível encontrar novas ideias que venham a revolucionar o mercado”, afirma Paula Antunes da Costa, diretora da Visa em Portugal. “Esta é uma oportunidade de ouro para as fintechs”, realça.

Os administradores da Raize asseguram que têm aproveitado este período para “investir sem interrupção” na captação de clientes e no desenvolvimento de produtos, que chegarão ao mercado nos próximos meses. Com o confinamento e o dever cívico de distanciamento social, “as plataformas digitais de serviços financeiros deixaram de ser uma ‘oferta inovadora’ e passaram a ser um ‘serviço base’ que todos os clientes devem estar confortáveis a utilizar. A relação pessoal com o agente bancário deixou de ser ‘essencial’ e passou, em muitos casos, a ‘desnecessária’”, dizem José Maria Rego, Afonso Eça e António Marques.

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