Há um par de dias a imprensa noticiava “fome total” no norte da faixa de Gaza, não a fome que se abate como uma tragédia, mas outra fome, de que nunca se ouvira falar, uma fome total. A expressão devia atravessar-nos a espinha e fazer-nos estremecer moralmente. Quem a empregou foi Cindy McCain, directora executiva do Programa Alimentar das Nações Unidas: “Há fome – fome total – no Norte, e está a avançar para Sul”.

Embora no original, em inglês, o que diz a alta-funcionária das Nações Unidas não seja “total famine” mas “full-blown famine”, a tradução é certeira. Pois, o que pode ser uma fome total senão uma fome que acontece meticulosa, com método, e à qual ninguém escapa?

Uma fome total não é natural, não compara com uma catástrofe natural. É outra coisa, uma fome lançada como uma arma letal num território fechado, e que avança nele como uma peste totalitária, escorrência pela faixa abaixo, uma segunda camada genocida a sobrepor-se à do já maior genocídio do século, que tolheu a vida a 34600 pessoas até à data, a esmagadora maioria civis, a grande maioria mulheres e crianças. Uma fome total é como uma limpeza total, uma imoralidade revoltante, um crime de guerra.

Há um par de semanas, a imprensa noticiava que nas praias de Gaza pessoas morriam afogadas a tentar alcançar comida caída no mar. Isso sim uma tragédia. E notícias só um pouco mais antigas diziam que menores morreram esmagados sob caixotes de ajuda humanitária vinda por via aérea cujos para-quedas não abriram. Outra tragédia. Mas todas estas tragédias não são fatalidades, são letalidades induzidas por um genocídio em curso. Esta fome total é como se um nó de corda em volta do pescoço se tornasse o nó no estômago de todo um povo, a apertar cada vez mais e a matar assim, por mais que a vítima se debata e a debater-se morra.

Há mais de um mês, o Tribunal Internacional de Justiça ordenou ao governo de Israel que garantisse a existência de alimentos dentro da Faixa de Gaza. E, no entanto, há um par de dias, Philippe Lazzarini, chefe da agência das NU para os refugiados palestinianos, denunciou que “as autoridades israelitas continuam a recusar às Nações Unidas o acesso humanitário” à Faixa de Gaza. Nem o deixam entrar.

É exasperante ouvir as palavras mais graves e vê-las, em seguida, cair em saco roto. Ouvimos António Guterres a dizer que “muitas crianças já estão a morrer de fome”, e a qualificar como “ultraje moral” o que está a suceder – “o maior número de pessoas que enfrentam uma fome catastrófica alguma vez registado, em qualquer lugar, em qualquer momento”. É isto a fome total, uma fome atentamente desimpedida num território sitiado. A quem pretenda travá-la estende-se a guerra, muito especialmente às Nações Unidas.

Como nunca no passado, esta violência está à vista de todos, nós, os nossos filhos, as nossas consciências. A Alexandra Lucas Coelho, inconformada observadora, disse-o assim – “Este genocídio é o mais filmado de sempre, o primeiro em tempo real, os jovens são os seus primeiros espectadores, e justamente por isso não querem ser apenas espectadores.”

Por isso, um pouco por toda a parte, jovens protestam. Mas as manifestações pró-palestina nas universidades norte-americanas levaram a detenções e expulsões de estudantes. E também de professores. Vídeos correram as redes sociais, como o da detenção de Noëlle McAfee, presidente do departamento de filosofia da Emory University, Atlanta/Georgia. A sua serenidade académica não lhe valeu de muito. Foi detida. Só não se detém o genocídio vergonha deste século. Faz assim tanta diferença da detenção do Kasparov na Rússia de Putin?

Em muitas universidades norte-americanas é mais difícil protestar agora do que há meio século, aquando da guerra do Vietname. Em França, os protestos também são dissuadidos. Na Alemanha, a memória do passado neutralizou a capacidade de avaliar com um mínimo de equilíbrio o presente, uma consciência nacional sequestrada. O governo de Israel desrespeita tudo, a humanidade dos palestinianos, a missão das Nações Unidas, a sua própria democracia. Mas por muitas mais geografias do Ocidente, democracia é palavra de pouco peso se opositora da acção de Israel.

Esta semana começou com a notícia de que Netanyahu mandou encerrar a Al-Jazeera em Israel, a que chamou “canal de incitamento”. Diz que o Governo chefiado por ele assim decidiu por unanimidade. Devia ter dito antes que decidiram unilateralmente, em desrespeito pelas bases de funcionamento da sua própria democracia. Desde 7 de outubro, mais de 140 jornalistas palestinianos foram mortos, o que faz da invasão de Gaza o conflito mais mortífero para os jornalistas.

Agora, o exército de Israel dá indicação para evacuação da população de Rafah leste, sinalizando que a ofensiva militar vai prosseguir apesar de todas as exigências no sentido contrário.

O Tribunal Penal Internacional pondera emitir mandados de detenção para altos dirigentes de Israel, Netanyahu incluído. Mas Israel, à semelhança dos Estados Unidos, a Rússia e a China (tão irónico, este consenso da força!), não integra os 124 países que aceitam a jurisdição do TPI. Pelo contrário, estão na companhia de mais um punhado de regimes autoritários. É bem o sinal de como a ordem internacional está fundamentalmente assente em alicerces que nada têm que ver com a justiça, mas sim com a força de uns e a impotência de todos os outros.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.