O primeiro-ministro francês tinha prometido não invocar o artigo 49.3 da Constituição para impor a aprovação do Orçamento do Estado para 2026, mas diz não ter alternativas. De imediato, a União Nacional e o França Insubmissa – os extremos à direita e à esquerda, respetivamente – anunciaram que vão apresentar moções de censura, que só não se efetivarão se os socialistas se abstiverem. Mas os analistas dizem que a garantia dada nesse sentido pelo partido liderado por Olivier Faure não está segura.
O aumento substancial de impostos às maiores empresas do país, almoços a um euro para estudantes universitários e mais gastos com habitação social, tudo inscrito na proposta de Orçamento, leva o primeiro-ministro Sébastien Lecornu a estar convencido que essas medidas são um ‘travão’ suficiente para os socialistas ficarem do seu lado e não votarem favoravelmente qualquer das moções de censura. “Lecornu fez anúncios que são um passo na direção certa e permitem considerar a possibilidade de o Orçamento não ser censurado”, afirmou Boris Vallaud, histórico e influente socialista.
O problema das presidenciais
Mas, segundo os analistas, o problema são as presidenciais – que, apesar de decorrerem apenas em 2027, já influenciam de forma clara a evolução dos partidos no cenário da crise gaulesa. Os críticos dizem que os socialistas têm pouco a ganhar se chegarem às vésperas das presidenciais como a ‘muleta’ de mais um governo próximo do presidente Emmanuel Macron – num quadro político em que a autonomia de Lecornu é tão pouca quanto a dos seus dois antecessores, François Bayrou e Michel Barnier.
Numa altura em que os socialistas estão a ‘renascer das cinzas’, depois de terem sido eleitoralmente ‘dizimados’ por Macron, a aposta num governo ‘macronista’ com pouca margem de manobra pode ser uma opção levemente suicidária.
De qualquer modo, o primeiro-ministro francês tinha prometido entregar um orçamento ao país até ao final de 2025, mas o calendário não foi respeitado. Lecornu aponta o dedo à União Nacional e à França Insubmissa, que acusa de “tentativas de sabotagem” que fizeram com que as conversações registassem “uma mudança significativamente para o pior” – principalmente depois do Natal. Lecornu garante que a proposta de Orçamento prevê que o défice baixe de 5,4% para 5% do PIB já este ano.
Mercados instáveis
As yields das obrigações do Tesouro (OT) francês a 10 anos situam-se em torno de 3,5% – 3,6%, “refletindo uma fase de volatilidade influenciada por desenvolvimentos orçamentais internos e tensões geopolíticas. Os juros têm oscilado perto de máximos de vários meses, com o mercado a acompanhar de perto a instabilidade política e orçamental”, referem os analistas do mercado. O custo do serviço da dívida deverá disparar para 59,3 mil milhões de euros em 2026, com a dívida pública a superar 113% do PIB.
A atividade económica deverá desacelerar para 0,7% no final de 2025 e crescer apenas 0,9% em 2026. A União espera uma leve recuperação da atividade para 1,1% em 2027. A inflação deverá aumentar gradualmente de 1,0% em 2025 para 1,3% em 2026 e 1,8% em 2027, o que não tem nenhum problema, ao contrário do défice público que, apesar de previsionalmente cair para 5,5% e 4,9% do PIB em 2025 e 2026, respetivamente, voltará a subir para 5,3% em 2027. A dívida pública continuará a bater recordes até chegar aos 120% do PIB em 2027.
A taxa de desemprego esteve nos 7,5% até o segundo trimestre de 2025, próxima ao seu nível mais baixo desde 2008, mas a taxa de emprego registou uma ligeira queda no primeiro semestre e a expectativa é de uma leve redução de 0,1% em média ao longo de 2025, antes de estabilizar em 2026 e recuperar em 2027. A previsão é que a taxa de desemprego aumente gradualmente para 8,2% em 2027 – com todas as consequências que daí podem resultar, exatamente no ano em que os franceses serão chamados a votar no próximo presidente.
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