Fusão falhada

Os desafios que a banca portuguesa tem pela frente irão originar operações de aquisição, mas os gestores devem ter sempre em conta a estabilidade de longo prazo.

Nem as mais recentes notícias de fusões animaram o sector financeiro europeu, com o índice EuroStoxx Banks a atingir o mínimo de 1996, ou seja 25 anos.

A possibilidade de junção entre o Credit Suisse e o UBS, ou da constituição de grupos ibéricos, CaixaBank/Bankia ou Sabadell/Abanca, tiveram algum eco em Portugal com rumores sobre uma fusão entre BCP e Montepio Geral.

Regra geral, quando as fusões ou aquisições são anunciadas, a cotação das empresas sobe com a perspectiva de sinergias, de ganhos operacionais, de uma maior capacidade de investimento e, não menos importante, pela perspectiva de maior retorno para os accionistas.

Normalmente estamos perante fusões dentro de sectores em crescimento, o que não é de todo o caso da banca, uma vez que não são as oportunidades que levam as instituições financeiras de maior dimensão a agruparem-se, mas sim a necessidade de sobrevivência, colocando em causa o investimento dos accionistas a longo prazo.

O aumento do desemprego, associado aos incumprimentos, à diminuição da concessão de crédito, ao aumento de necessidades de capital, às taxas de juro negativas, ou à concorrência de empresas mais tecnológicas, condicionam a sobrevivência da banca a prazo.

Receio que uma eventual fusão entre BCP e Montepio não criasse valor, muito pelo contrário. Neste momento o problema está identificado e tem a ver com a sustentabilidade financeira da Associação Mutualista, e a valorização da sua participação do Montepio Geral.

Ora, não consta que os maiores accionistas do BCP, a Sonangol ou a Fosun, e muito menos os milhares de investidores que viram as suas poupanças dizimadas, estejam dispostos a realizar um aumento de capital para financiar a aquisição de um banco que necessita de uma reestruturação profunda. Assim, a única opção seria uma fusão que traria uma Associação tecnicamente falida para a estrutura accionista de um banco que passou por uma profunda reorganização, e conseguiu devolver as ajudas estatais.

Para além disso, e tendo em conta a actual capitalização bolsista do Millennium bcp, de 1,2 mil milhões de euros, a sobrevalorização contabilística do Montepio originaria uma alteração substancial da estrutura accionista do Millennium bcp, numa altura em que a própria auditora da Associação Mutualista, a PWC, coloca sérias reservas ao activo da CEMG.

Com efeito, pode ler-se no relatório e contas a ser aprovado na Assembleia Geral da Associação Mutualista de 15 de Outubro, que “os ativos por impostos diferidos registados e os capitais próprios constantes do balanço consolidado do Grupo, em 31 de dezembro de 2019 e em 31 de dezembro de 2018, encontram-se sobreavaliados por um montante materialmente relevante…”. Ou seja, temos mais um potencial problema num grupo, para o qual nenhum político ou supervisor pode dizer que desconhecia.

Os desafios que a banca portuguesa tem pela frente irão originar operações de aquisição, mas os gestores devem ter sempre em conta a estabilidade de longo prazo e absterem-se de realizar negócios que apenas sirvam para marcar os seus mandatos. Esta é uma fusão falhada à partida.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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