Futebol, um negócio arriscado de emoções

Os recentes acontecimentos devem servir de exemplo e dar que pensar a todos aqueles que, com relevantes responsabilidades nos vários clubes, andam por aí a instigar o pior que a emoção do futebol consegue tirar de nós.

Sou do Benfica. Tentarei que isso não afete a minha capacidade de opinar com isenção, mas não garanto. O futebol é um desporto fascinante, capaz de tirar o melhor e o pior de nós. O melhor, por exemplo, quando um pontapé inesperado certeiro do “meio da rua” de um herói improvável como Éder faz uma nação saltar, abraçar-se, rir e chorar de emoção, unir-se como nunca num orgulho inexplicável. Parece que fomos dez milhões a dar aquele pontapé! O pior, quando dou por mim, homem adulto em quem os pais acreditam ter investido uma educação exemplar, a discutir agressivamente com os amigos, a vociferar do 3.º anel do Estádio da Luz nomes impróprios contra árbitros ou mesmo contra o nosso herói Jonas quando falha penaltis que eu tenho a certeza que marcaria.

O futebol é democrático, não tem preconceitos, não tem classes sociais e não tem idiomas. Mas dá-nos a estranha vontade de abraçar desconhecidos e de bater em amigos. Por incrível que pareça a quem tem o azar de não gostar deste desporto, não é a mesma coisa chegar a segunda-feira com uma vitória do nosso clube ou uma derrota. Por outro lado, o futebol profissional é, como sabemos, um negócio que movimenta biliões no mundo inteiro, em que os principais ativos são pessoas e em que o simples facto de uma bola bater no poste ou entrar na baliza pode significar um lucro ou um prejuízo relevante. É uma realidade de trabalho, superação, competência e investimento, mas também em que a sorte, o azar e o “erro humano” têm uma influência determinante. É, portanto, um negócio de altíssimo risco e que exige uma sensatez bem acima da média a quem exerce cargos de direção, pois tem esta equação complexa para gerir: negócio e emoções.

Parece assim evidente que quem dirige um clube de futebol, não tendo que abdicar do entusiasmo, tem, obrigatoriamente, que suspender/controlar a sua condição de adepto. E jamais poderá ser um fanático ou um “Ultra”. Porque se for, o negócio será consumido pela emoção e acabará, inevitavelmente, num fracasso. Mas, pior do que isso, torna-se um “Ayatollah” daquilo que de horrível o fanatismo por este desporto suscita nas pessoas. Mesmo que não tenha essa intenção.

Não querendo meter a foice em seara alheia, não posso deixar de dizer que o que se passou de violência esta semana no Sporting tem muitos responsáveis criminais que deverão ser punidos, mas tem um evidente grande responsável “político” que se chama Bruno de Carvalho e que, obviamente, não tem qualquer condição emocional para ser Presidente de uma grande Instituição e muito menos de uma empresa desportiva que tem um balanço para gerir e que tem que prestar contas a adeptos, acionistas e obrigacionistas.

Todo o clima de guerrilha absurda que se está a viver no futebol em Portugal não é só um problema do Sporting. Os recentes acontecimentos devem servir de exemplo e dar que pensar a todos aqueles que, com relevantes responsabilidades nos vários clubes, andam por aí a instigar o pior que a emoção do futebol consegue tirar de nós. Não pode valer tudo e numa realidade que mexe tanto com as massas é onde o Estado de Direito tem que estar mais presente.

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