Recentemente, a propósito da conferência “Geoestratégia e Gestão” verificámos o quanto este tema merece uma reflexão sobre as suas implicações no ensino da gestão.
Nas últimas décadas de período pós-guerra fria, a geopolítica parece ter passado para um lugar algo secundário face a outros temas, tais como a tecnologia e a sustentabilidade. Mas na realidade, em agosto passado, uma conceituada consultora de estratégia publicou o resultado de inquérito a executivos, no qual as tensões geopolíticas foram consideradas o “maior risco ao crescimento económico”. O contexto de mudança não se circunscreve apenas às tarifas comunicadas pelos Estados Unidos da América ou à situação de guerra na Ucrânia. Permanece em outros contextos geográficos como por exemplo a pressão sobre o acesso a matérias-primas em África, com a China a beneficiar de um movimento de iniciativa, disputado por recentes aprovações de financiamento pelos Estados Unidos da América ou por uma Europa em Cimeira com a União Africana, no próximo novembro.
Poderá não ser à toa que, o Economist reclama, também em agosto, o conceito de geoeconomics para contrastar com o geopolitics, numa clara provocação à raiz e causa do contexto atual. Se revermos publicações como a “Diplomacia” de Kissinger, a “História das Civilizações” de Braudel, ou o mais recente “Civilização” de Fergusson, compreendemos que alguns destes comportamentos modernos são explicados por modelos históricos.
Um outro conceito, de geoestratégia pode ser definido como a “arte que utiliza o conhecimento geográfico para planeamento e execução, ou seja, a forma como fatores como o terreno, o clima, a demografia e a economia são aplicados para alcançar objetivos”.
Uma competência necessária para os gestores melhor avaliarem o contexto de negócios e incorporarem nas suas decisões estratégicas. Um contexto que não sendo novo, a perceção de segurança no pós-Guerra Fria nos fez esquecer da sua relevância para a gestão. Os eventos da crise sanitária Covid, em 2020, foram um primeiro aviso global, apenas reforçado com outros mais recentes. Estas “coisas” nunca aconteceram “lá longe”, porque sempre impactaram “cá perto” de nós. É o que sucedeu no passado e continua a suceder no presente. Para isso, todos os conceitos de geopolítica, geoeconomia e geoestratégia são úteis para uma compreensão do mundo. Compreender não pode, no entanto, ser um fim em si, mas o início de um processo que serve para o aproveitamento de oportunidades e para o exercício da influência sobre o que acontece no mundo.
Talvez, para provocar e reforçar a imperiosa necessidade de ensinar os nossos alunos a lerem o mundo e – como um participante da Conferência propôs – de ensinar os nossos alunos a “imaginarem o mundo”, devamos acrescentar o conceito e a disciplina de geogestão (geomanagement).



