GEOTA: “Obras como as barragens do Tâmega jamais deveriam entrar no categoria de ‘verdes'”

A coordenadora da GEOTA lamentou a obtenção de financiamento por parte da Iberdrola para a construção do Sistema Eletroprodutor do Tâmega (SET). Ana Brazão revelou, ao Jornal Económico, que a GEOTA avançou com três queixas ao Banco Europeu de Investimento devido ao “desrespeito pelas populações que têm sido afetadas pelas obras”.

Cristina Bernardo

“Lamentamos que obras com os profundos impactes ambientais e sociais das barragens continuem a receber apoios ditos ‘verdes’. Sobretudo projetos como o SET”, lamentou a Ana Brazão, ativista do Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA) ao Jornal Económico (JE).

Em causa está o financiamento no valor de 400 milhões de euros que a Iberdrola obteve para a construção do Sistema Eletroprodutor do Tâmega.

Trata-se de um projeto que inclui a construção de três novas barragens e três centrais hidroelétricas com uma capacidade total de 1.158 megawatts (MW), o que pode representar um aumento de 6% na potência elétrica total de Portugal e que poderá fornecer energia renovável para 440 mil residências.

A operação foi assinada, esta quinta feira, pelo presidente da empresa espanhola, Ignacio Galán, e pelo presidente do ICO, José Carlos García de Quevedo, e procede o empréstimo anterior de 650 milhões de euros já cedido pelo Banco Europeu de Investimento (BEI) em 2018.

Ao JE, Brazão relembra o impacto ambiental que a construção destas infraestruturas pode causar, nomeadamente um dos últimos territórios em Portugal onde podem ser encontradas espécies ameaçadas como o Lobo Ibérico.

“Várias habitações em Fonte de Mouro têm sofrido danos nas casas desde o início das obras, devido ao uso de explosivos, danos pelos quais nem o subempreiteiro nem a Iberdrola assumiram ainda responsabilidade”, explica, acrescentando que as populações a jusante da futura barragem de Daivões – em Mondim de Basto, Celorico de Basto e Amarante – temem a redução drástica do caudal no rio Tâmega.

Por esse motivo, a GEOTA avançou com três queixas ao Banco Europeu de Investimento, com especial foco sobre “o desrespeito pelas populações que têm sido afetadas pelas obras e ainda as que serão afetadas se o projeto for concluído”.

“Obras como o SET jamais deveriam entrar no categoria de “verdes”, ainda para mais quando não são cumpridas condições elementares à correta mitigação de impactes negativos”, sublinha Ana Brazão.

Relembramos que a GEOTA manteve uma posição ativa na travagem da construção da barragem da EDP no Fridão, tendo chegado a apresentar uma ação em tribunal para esse fim.

Em abril, o Governo anunciou que a infraestrutura, que teve um investimento de 218 milhões de euros por parte da EDP, não vai ser construída e que a gigante energética não vai indemnizada.

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