Glintt: “Portugal é um modelo europeu. Os outros países tentam adotar a tecnologia que usamos nas farmácias”

O CEO da tecnológica nacional considera que a injeção de dinheiro na Saúde não é suficiente e apela à partilha de informação em tempo real. Em entrevista, Nuno Vasco Lopes explica ainda a ‘joint venture’ que está a criar com a distribuidora espanhola Cofares e a aposta no país vizinho, onde já implementou software em mais de 10 mil farmácias.

A empresa portuguesa Glintt – Global Intelligent Technologies, que nasceu em 2008 da fusão da ParaRede e da Consiste, está à procura de negócios complementares em Espanha, sobretudo nos hospitais. O mercado espanhol é um dos maiores pilares da atividade desta tecnológica que implementou o seu software em 2.700 farmácias nacionais e mais 12 mil no país vizinho. A Glintt emprega hoje 1.100 colaboradores e em Espanha está presente em Madrid, Barcelona, Valência, San Sebastián (Guipúscoa) e Dénia (Alicante). “Hoje em dia, uma empresa tecnológica mede-se pela capacidade que tem de incorporar competências e inovação e de satisfazer as necessidades dos seus clientes”, disse o CEO, Nuno Vasco Lopes, em entrevista ao Jornal Económico.

O Programa Operacional da Saúde foi reforçado com 800 milhões de euros no Orçamento do Estado para 2020. Como viu este investimento?

A área da saúde ocupa 75% do volume de negócios da Glintt. O investimento na saúde foi penalizado na crise e vemos com bons olhos este novo investimento, mas achamos que injetar dinheiro na saúde não é a única solução para o problema. Tem de haver outro tipo de soluções, que não passam por questões ideológicas mas sim operacionais e de melhorar a forma como prestamos cuidados às pessoas. Uma das oportunidades que penso que há tem que ver com a otimização da utilização da informação globalmente. Neste momento, a informação ainda não é partilhada de uma forma sistemática entre os profissionais e os doentes. Com informação em tempo real os profissionais poderiam tomar melhores decisões. Muitas vezes, olhamos para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e não para o sistema de saúde. Se conseguirmos aproveitar toda a capacidade instalada que existe na sociedade – SNS, economia social e privados – daremos melhores cuidados de saúde às pessoas.

A presença da Glintt na Bolsa de Lisboa é para manter?

A Glintt é uma empresa muito particular, porque tem um acionista que detém cerca de 76% do capital [Farmiveste], o que a leva a ter uma performance na bolsa que é muito particular, porque, fundamental, é conhecida por ter um acionista de referência e, portanto, pouco alvo de especulações. Por um lado, é bom, por outro, olhamos para o mercado de capitais numa lógica de transparência e de reconhecimento da atividade da Glintt. O mercado de capitais português tem um problema de liquidez, transaciona pouco, mas isso não condiciona o dia a dia da empresa. A Glintt continua a crescer em termos de rentabilidade e melhorou o rácio de dívida vs EBITDA. Estamos mais focados na nossa operação diária do que em como os mercados olham para nós. Obviamente que estar na bolsa dá-nos alguma visibilidade e isso, na relação com as entidades financeiras, é importante.

“Injetar dinheiro na saúde não é a única solução para o problema”

Como está a correr a recente operação da Glintt nos Açores?

O lançamento da Glintt nos Açores foi um projeto importante na vida da Glintt, porque, na prática, montámos um centro de desenvolvimento de software dos nossos produtos tecnológicos no âmbito de um programa com o Governo Regional dos Açores, o Terceira Tech Island. Isto permitiu-nos ganhar capacidade de desenvolvimento de software [Sifarma] e garantir alguma proximidade aos clientes dos Açores. As nossas soluções têm uma presença significativa nos Açores, quer nas farmácias quer nos hospitais. Neste momento, temos cerca de 20 colaboradores no escritório e algumas pessoas fazem também suporte direto aos clientes das ilhas. A nossa quota de mercado é superior a 90% nos Açores, tal como o é em Portugal continente.

Ter um centro na Madeira está nos vossos planos?

Esta iniciativa partiu muito do desafio que o Governo Regional dos Açores nos lançou. Obviamente que hoje em dia, com a necessidade de captação de talento que existe nas empresas tecnológicas, estamos abertos a poder fazer instalação de outros centros de desenvolvimento noutras regiões, que nos permitam captar lamento.

Ou seja, se Miguel Albuquerque vos convidar…

Analisaremos com muita atenção, seguramente.

Quais as expectativas de resultados para o último trimestre de 2019?

Entre 2008 e 2015 a empresa sofreu algumas alterações não só decorrentes da própria fusão mas também da crise económica que se viveu no país, o que teve um impacto na Glintt e obrigou-a tomar algumas medidas no sentido de se reposicionar no mercado: reestruturou a sua oferta e vendeu algumas áreas [energia, terminais de Multibanco, BPO e netpeople – que valiam 20 milhões de euros] não-core. Nessa altura, as áreas core que ficaram dentro da Glintt tinham um volume de negócios de 56,6 milhões de euros. Desde aí temos assistido a um crescimento significativo do volume de vendas [em 2018 foi de 86,2 milhões de euros, mais 21,5% face ao ano anterior]. No terceiro trimestre de 2019 o crescimento das vendas foi na casa dos 6,4%. Prevemos encerrar o ano com a mesma tendência.

“Olhamos para o mercado de capitais numa lógica de transparência e de reconhecimento”

O que é que motivou esse crescimento?

A prestação de serviços e a venda de produtos. A venda de produto representa uma parte importante do volume de venda, mas também o aumento do volume de negócios em Espanha permitiu fazer crescer. Neste momento, Espanha representa cerca de 20 milhões de euros do volume de negócios para a vinda. É um mercado, para nós, muito importante e estratégico. A Glintt é líder no mercado espanhol e foi um crescimento inorgânico, por aquisição. Começámos por adquirir empresas de software na área da farmácia e, depois, fomos adquirindo empresas que fazem suporte aos clientes de farmácia. Estamos à procura de oportunidades não só em farmácia mas na área hospitalar.

No verão, anunciaram a criação de uma joint venture com a distribuidora farmacêutica espanhola Cofares. Em que consiste a plataforma tecnológica que vão desenvolver em conjunto?

A Cofares é o maior distribuidor de medicamentos em Espanha, é uma empresa que tem um volume de negócios de 3 mil milhões de euros. Tendo 17 mil clientes, a decisão de fazer uma joint venture pareceu, para ambos, uma decisão óbvia. A oportunidade surgiu pelas sinergias que podem ser criadas. O que é que esta parceria vai entregar? Novas soluções que permitam desenvolver negócio adicional para o distribuidor e para as farmácias. É uma forma de agilizarmos a utilização da informação entre farmácias e distribuidores, com uma plataforma comum que consiga criar sinergias com os diferentes sistemas informáticos que a Glintt tem no mercado espanhol. Em Portugal temos uma solução idêntica a que chamamos PharmaLink 2.0. Aliás, o setor das farmácias em Portugal é modelo na Europa. Muitas vezes, somos olhados pelos outros países, que fazem alguma tentativa de adoção das tecnologias que utilizamos noutras realidades.

De que beneficia um trabalhador ao estar na Glintt?

Investimos muito no salário emocional, na cultura e no ambiente de trabalho. Temos uma empresa muito jovem – a idade média na Glintt são 36 anos – portanto tentamos que as pessoas tenham as melhores condições para desempenharem o seu trabalho. Tipicamente, o que acontece é que as pessoas se sentem atraídas a ir para a Glintt pelo efeito boca-a-boca. O presidente da comissão executiva da Glintt recebe todos os meses todos os novos colaboradores e, na prática, pretende mostrar-lhes um pouco da cultura e conhecê-los, ouvir as suas experiências e motivações. A Glintt é uma empresa tecnológica, mas colocamos as pessoas no centro da nossa atividade. Queremos que se divirtam a trabalhar, que sintam entusiasmadas e que consigam entregar o máximo de valor no seu dia a dia.

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