Grada Kilomba e o incómodo sobre o passado colonial

A artista Grada Kilomba, por intermédio da sua arte, produz uma comunicação política dentro da esfera pública portuguesa, que é, cada vez mais, avessa ao questionamento sobre o papel de Portugal no mundo.

A última instalação artística de Grada Kilomba, patente no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa, pode inserir-se numa lógica de psicanálise do passado colonial português, porque, através de um conjunto de troncos pretos, a autora procura reivindicar uma releitura e reinterpretação do passado colonial e da condição negra de um determinado período histórico.

Deste modo, a autora evoca a sua liberdade de retrospectivar o passado colonial no presente, estabelecendo, assim, uma possibilidade histórica que permite uma disrupção com a perspectiva glorificada do passado colonial.

Ao trazer para a zona de Belém, em Lisboa, uma exposição, onde o tronco simboliza, sobretudo, sujeitos africanos submetidos a um sistema esclavagista e de exploração humana, Kilomba despede-se de uma postura artística passiva ou, singularmente, formal de representação artística, assumindo, talvez, um papel de maior intervenção no espaço público e político. Uma marca da sua produção artística. Kilomba, por intermédio da sua arte, produz uma comunicação política dentro da esfera pública portuguesa, que é, cada vez mais, avessa ao questionamento sobre o papel de Portugal no mundo.

Grada Kilomba, na sua qualidade de artista, insere-se no seio de uma categoria de sujeitos com notável legitimidade, até política. A arte, mesmo aquela que afirma  ser realista, é subjectividade, permitindo-nos aceder  à visão que o artista tem do mundo.

A postura artística assumida por Grada Kilomba numa sociedade portuguesa que é, cada vez mais, reactiva ao questionamento sobre o seu passado colonial, provoca problemas a uma autora, ao ponto de a sua exposição ter sido alvo de uma invasão por um partido político. Os elementos deste partido, num acto inqualificável, subiram para cima dos troncos para demonstrarem que a exposição não tinha o valor simbólico que pretendia reivindicar.

Sobre esta postura de desvalorização do direito à liberdade artística de Grada Kilomba, tornou-se notável o silêncio sacrossanto dos órgãos de comunicação social em Portugal. O que contrasta, objectivamente, com a cobertura mediática por ocasião das pinturas no Padrão dos Descobrimentos.

A liberdade artística não deve ser limitada pelo cariz político ou activista da artista. Porquanto a arte pode ou não assumir a função de provocar uma disrupção das metanarrativas sobre o passado e o presente. Sendo que, através da arte, podem criar-se pontos de diálogo e de divergência sobre o mesmo objecto. No entanto, nenhuma peça artística consegue instituir uma perspectiva universal e absoluta sobre a História. Porque, por exemplo, os quadros mentais e referenciais dos apreciadores da peça já estão, muitas vezes, constituídos e fechados.

Não se espera, neste sentido, que um nacionalista perspective a obra de Kilomba com o mesmo valor simbólico que um activista crítico do passado colonial. Mas ambos devem respeitar a liberdade artística da autora. Podem criticar a arte e o seu objectivo, e ao fazê-lo estão, em certa medida, a estabelecer um diálogo artístico dentro de uma sociedade pluralista. Mas invadir uma exposição entra no campo da intolerância política, sendo que uma sociedade ao normalizar este tipo de comportamento acaba por permitir uma actuação contra os seus próprios valores.

Por exemplo, se um partido ou autoridade chinesa invadisse uma exposição de Ai Weiwei, esse acto seria, de imediato, classificado como um acto de intolerância típico de um regime autoritário. Mas quando um partido português legalizado adopta o mesmo comportamento impera o silêncio. Este acto político reforça e engrandece o sentido artístico da obra e traduz-se num louvor a Grada Kilomba.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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