‘Green bonds’ e o caso português

Durante a última década ficou demonstrado de forma evidente que o custo na emissão de títulos obrigacionistas é menor para empresas cotadas que apresentam melhores índices de Corporate Social Responsibility

Durante a última década ficou demonstrado de forma evidente que o custo na emissão de títulos obrigacionistas é menor para empresas cotadas que apresentam melhores índices de Corporate Social Responsibility. No entanto, no que se refere ao pricing das green bonds emitidas, são encontradas evidências antagónicas em relação ao prémio de risco exigido aos emitentes. Ou seja, ainda que contribuindo para a responsabilidade social das empresas, e neste caso para a sustentabilidade climática global, os dados relativos à emissão de green bonds revelam um padrão heterogéneo dependente do tipo de emitentes, constatando-se a existência de um prémio pago sobre os títulos emitidos por instituições supranacionais e empresas, em comparação com os títulos comuns. Fenómeno ao qual escapam apenas os emissores financeiros, e sobre o qual não me alongarei.

De forma objetiva e contundente, o preço e a estrutura destes empréstimos sindicados mostra que as empresas com preocupações ambientais pagam um spread de empréstimo mais elevado através de sindicatos bancários constituídos por menos bancos.

Quais são então as razões que levam os países, através da emissão de dívida soberana (e.g.: Holanda, França. Polónia), e as empresas, a optarem por este tipo de instrumento para se financiarem, quando não são sequer encontradas evidências de que os recursos obtidos para refinanciamento da carteira de “projetos verdes elegíveis” em curso, ou o financiamento de novos “projetos verdes”, seja feito a um menor custo de capital? São várias as razões. Deixo aqui algumas.

No que se refere a entidades soberanas, e entidades públicas de uma forma geral, o apoio ou emissão de green bonds são um sinal político de peso e um meio para a implementação de políticas públicas, direcionando financiamento para a mitigação das alterações climáticas, limitando a emissão de gases de efeito estufa que constituem um risco real nas receitas futuras das empresas e nas economias como um todo. Fazem-no diretamente através da emissão da sua própria dívida verde, ou privilegiando títulos qualificados com tratamentos fiscais preferenciais para as empresas.

No que se refere às empresas, e para além da conotação de sustentabilidade ambiental para as marcas, constata-se que existe uma reação positiva do mercado de ações e uma maior liquidez das mesmas imediatamente após a emissão de green bonds. Está provado que tanto o desempenho operacional como o desempenho ambiental dessas empresas melhoram após a emissão de green bonds, com impacto na melhoria dos resultados financeiros que o mercado incorpora de imediato. Para os acionistas, o potencial impacto negativo no custo de financiamento é compensado pelo aumento do valor dos seus ativos que decorre da maior eficiência operacional, liquidez de mercado e subsidiação fiscal.

A emissão global de green bonds ultrapassou US $250 biliões em 2019 representando ainda uma pequena fatia do mercado global de obrigações – cerca de 3,5% da emissão total de títulos globais (US $7,15 triliões). Pese embora o grande trabalho que há ainda a fazer em relação ao atual sistema de classificação de green bonds , o compromisso assumido por muitos países em atingir as metas climáticas do acordo Paris, incluindo um dos três objetivos principais: “tornar os fluxos financeiros consistentes com o caminho para a redução das emissões de gases de efeito estufa e um desenvolvimento resiliente em relação ao clima” (Nações Unidas (2015), artigo 2.1 ) bem como o número crescente de entidades do setor privado com mandatos explícitos para a gestão dos seus portefólio com alocações para apoiar a mitigação das mudanças climáticas, são uma manifestação clara de que as decisões políticas estão a ter reflexo na economia (empresas) e nos mercados financeiros.

Quando, em outubro de 2018, a EDP anunciou o seu Green Bond Framework definiu, como objetivo a atingir em 2020, que 76% da sua capacidade instalada fosse proveniente de fontes renováveis. No mesmo documento, reconheceu também a emissão de green bonds como parte do esforço dos diversos participantes do setor elétrico para impulsionar a descarbonização da economia e como uma ferramenta importante para incentivar a transição para uma economia de baixo carbono (nota: mais de 6% da estrutura acionista EDP segue princípios de Socially Responsible Investment).

Em julho deste ano, a mesma EDP anunciou que 74% da sua capacidade instalada provinha já de energias renováveis e fez um aumento de capital de mil milhões de Euros para adquirir mais 24 parques eólicos e duas centrais mini-hídricas localizadas em Espanha e Portugal à Viesgo. E quando em setembro colocou 850 milhões de dólares (cerca de 717 milhões de euros) em green bonds com vencimento em janeiro de 2028, através de um sindicato bancário constituído por 9 (nove) bancos, na sua sexta colocação de dívida que obedece a critérios ambientais com grande procura, significativamente abaixo do custo médio da dívida que a elétrica portuguesa tem hoje, estava apenas a executar mais um passo da estratégia anunciada dois anos antes. Cada vez mais, as estratégias de longo prazo das empresas, e dos países, tem de assentar em princípios de sustentabilidade.

 

 

Fontes: Bank of International Settlements Quarterly Review, EDP, European Commission, Jornal Económico, The Economist, World Bank Group

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