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Gronelândia: Governo da Dinamarca adverte que ameaça dos EUA “é para levar a sério”

Mette Frederiksen assegura que, se houver qualquer avanço norte-americano sobre a Gronelândia, isso configurará o ataque de um país NATO a outro país NATO. Não é a primeira vez que esse perigo existe, mas, diz, será o fim da aliança atlântica.
Gronelândia
6 Janeiro 2026, 07h00

O presidente norte-americano, Donald Trump, deve ser “levado a sério quando diz que quer a Gronelândia”, afirmou a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, esta segunda-feira, acrescentando que se os Estados Unidos invadirem a Gronelândia, isso significará o fim da NATO. “Deixarei claro que, se os Estados Unidos optarem por atacar militarmente outro país da NATO, tudo para, incluindo a própria NATO, e, consequentemente, a segurança que foi estabelecida desde o fim da II Guerra Mundial”.

A pressão sobre a Gronelândia por parte de Donald Trump surgiu pela primeira vez em 2019, ainda no seu primeiro mandato – quando elaborou sobre a possibilidade de comprar aquele enorme pedaço de terreno à Dinamarca. O país deu-se ao trabalho de responder que a Gronelândia não estava à venda – mas fê-lo quase por delicadeza: a proposta surgia tão bizarra que não era para levar a sério. Mas era: já em 1946, o então presidente dos EUA, Harry Truman, ofereceu à Dinamarca 100 milhões de dólares em ouro para adquirir a Gronelândia – percebendo cedo a sua posição estratégica em termos de geopolítica. Muito antes, em 1868, o presidente Andrew Johnson – que comprou o Alasca à Rússia em 1867 – terá sido o primeiro a perceber a excelência da posição geográfica da Gronelândia. Muito depois, em 1917, os norte-americanos compraram as Ilhas Virgens por 25 milhões de dólares em ouro – tomando uma posição na altura importante nas Caraíbas, mas o dado a reter é que o país vendedor foi… a Dinamarca.

Ainda na campanha eleitoral que o levaria de regresso à Casa Branca, a questão da Gronelândia – juntamente com a do 51º Estado dos EUA, o Canadá – regressou à agenda e mereceu o mesmo tipo de resposta: não está à venda. Já com Donald Trump sentado na Sala Oval, uma viagem do vice-presidente J.D. Vance à Gronelândia (a uma base militar norte-americana) fazia finalmente acender as luzes amarelas de ameaça moderada. O regresso ao tema no mesmo instante em que militares norte-americanos entraram Venezuela dentro e prenderam o presidente local e a sua mulher, fez acender as luzes vermelhas de ameaça extrema.

Trump há muito que pressiona para que a ilha, rica em minerais e geoestrategicamente cada vez mais bem posicionada (à medida a que o Ártico vai perdendo gelo), que é em grande parte autónoma mas ainda faz parte da Dinamarca, se junte aos Estados Unidos. O presidente dos Estados Unidos sabe que a intervenção militar é a sua pior opção – e é por isso que os analistas afirmam que, se Trump tiver paciência (coisa que não lhe é conhecida), a melhor opção de Washington é promover a passagem da autonomia para a independência. Há grupos na Gronelândia que encarariam essa hipótese como muito interessante. Aliás, quase todos os partidos e todos os quadrantes políticos apoiam a independência: o Inuit Ataqatigiit (social-democrata de esquerda), o Siumut (socialista), o Naleraq (populista e de centro), o Nunatta Qitornai (regionalista) e o Demokraatit (social-liberal), que venceu as eleições de março de 2025, são todos a favor da independência face à Dinamarca. Ora, se a Gronelândia se tornasse independente, a questão da NATO não se colocaria. E os jornais dinamarqueses têm relatado casos cada vez mais numerosos de insídia norte-americana sobre políticos locais para que apressem a independência. Em março de 2025, Trump afirmou que aprovaria a decisão do povo da ilha de se unir aos Estados Unidos, eventualmente por referendo – e é por isso que esta pressão ‘não-militar’ continua a ser exercida.

Vale a pena recordar que em 22 de dezembro, o Ministério das Relações Exteriores da Dinamarca convocou o embaixador dos EUA no país, Ken Howery, para o questionar sobre a nomeação, por Trump, do governador da Louisiana, Jeff Landry, como enviado especial do país para a Gronelândia.

A operação na Venezuela aumentou os temores na Europa de que Washington possa sentir-se encorajada a anexar a Gronelândia em seguida, com líderes das nações nórdicas ao Reino Unido a prometerem apoio a Copenhaga e ao direito da Gronelândia à autodeterminação.

Do seu lado, a União Europeia avisou que a Gronelândia não é “um bocado de terra que esteja à venda”. “Estamos em contacto com a Gronelândia e com o seu primeiro-ministro, Jens Frederik Nielsen, e garantimos que o território não é um pedaço de terra que esteja à venda”. Também a porta-voz para a Política Externa, Annitta Hipper, reafirmou que a União “continuará a defender os princípios de soberania nacional, de integridade territorial e da inviolabilidade das fronteiras”. “E ainda mais se a integridade territorial de um Estado-membro da União Europeia for posta em causa”, acrescentou.

Em março passado, Trump tentou engajar o secretário-geral da NATO, o neerlandês Mark Rutte, para o assunto. Trump disse a Mark Rutte, de visita na Sala Oval, que o controlo norte-americano da Gronelândia era necessário para a segurança internacional e que contava com ele para o ajudar. “Sabe, Mark, precisamos disso para a segurança internacional, não apenas para a segurança em geral, mas para a segurança internacional”. “Falaremos com você”, afirmou, perante um Mark Rutte que não soube o que responder.

O principal lesado da ‘compra’ ou ‘invasão’ ou ‘operação militar especial’ na Gronelândia é o presidente russo, Vladimir Putin. Talvez por isso, foi dos primeiros a considerar que a ameaça norte-americana era mesmo para levar a sério. Em março passado, Putin disse publicamente que os planos de Trump para a Gronelândia “são sérios” e alertou que o Ártico pode tornar-se num “trampolim para possíveis conflitos”. São “projetos que têm longas raízes históricas”. É evidente que os Estados Unidos continuarão a promover sistematicamente os seus interesses geoestratégicos, político-militares e económicos no Ártico”, mas seria um “grave erro” acreditar que as declarações do líder da Casa Branca são extravagantes. “Nada disso”.

Em 1974, um golpe de Estado cipriota grego pró-união com a Grécia, levou a Turquia a intervir militarmente em Chipre para proteger a minoria turco-cipriota. A pequena ilha ficou dividia até hoje em dois países – se bem que ninguém reconheça a República Turca do Chipre do Norte (a não ser, evidentemente, a própria Turquia). Já então, Turquia e Grécia eram países da NATO e foi por muito pouco que não entraram em guerra um com o outro – como sucedeu dezenas de vezes antes ao longo da história. O problema foi de tal ordem, que a Grécia acabou mesmo por abandonar a NATO – ou mais propriamente retirou-se da estrutura de comando militar da aliança, mantendo-se integrada nas atividades políticas. Mas só em 1980 é que voltaria a integrar-se como membro de pleno direito.


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