Há lodo no cais (Take II)

Um país que afirma fazer depender as exportações de um grupo de trabalhadores que detém o vínculo mais precário possível é um país condenado.

(Um dos primeiros textos que escrevi na imprensa, no então Diário Económico, foi justamente sobre a realidade dos estivadores. Recuperando o tema, faço a minha declaração de interesses: sou advogada de um sindicato de estivadores que não são os que estão em luta mas que representa os que considero terem sido as primeiras vítimas da desregulação do sector. A precariedade não é, de facto, nem para eles, nem para ninguém. E a luta deles deve ser a de todos.)

Uma das minhas canções preferidas proclama ser difícil segurar uma vela perante a chuva fria de Novembro. É o que está a fazer um corajoso grupo de estivadores, lutando contra a precariedade, ao mesmo tempo que se tenta colocar a opinião pública contra eles e lhes é colocado nos ombros o invocado peso da diminuição das nossas exportações. Um país que afirma fazer depender as exportações de um grupo de trabalhadores que detém o vínculo mais precário possível é um país que estará, por natureza, condenado, por mais apelos e declarações indignadas que os seus representantes possam fazer.

Por seu turno, uma opinião publica que aceita acriticamente que estes trabalhadores não podem ter um conteúdo mínimo de direitos em nome de uma alegada causa nacional tem de ser composta por pessoas que ou desconhece a realidade da estiva ou impõe aos outros sacrifícios que não aceita para si. Isto porque, para os que não sabem, na estiva há trabalhadores contratados ao dia há décadas, sem lhes ser permitido fazer planos sequer para a semana seguinte, desempenhando o mesmo trabalho dos designados “efectivos dos portos” mas recebendo significativamente menos. Não obstante ocuparem vagas permanentes, são pagos ao dia, melhor dizendo à jorna, sem terem a certeza de haver trabalho no dia seguinte e prontamente despedidos quando invocam qualquer pretensão.

A pergunta que se deveria fazer e que não tenho vista reproduzida por aí é a de se saber se os mesmos são necessários, como agora se afirma, a que título não detêm um contrato de trabalho por tempo indeterminado. Mas, refira-se, nem a pergunta é feita nem a contratação é posta em prática. Tudo isto é real e, pior que tudo, há quem afirme que tudo isto é legal.

Por outro lado, existirem trabalhadores com vínculo efectivo que prescindem de receber mais rendimentos, determinados pela ausência de prestação de trabalho suplementar e por solidariedade com os eventuais, em vez de ser objecto de crítica, deveria ser louvado porque nos dias que correm a solidariedade é um bem cada vez mais escasso. Em vez da crítica fácil, o exercício que proponho é o de saber o que cada um de nós pensaria se, durante 20 anos, não soubesse se a cada dia poderia alimentar os filhos.

Daí que não tenho dúvidas de que lado estou e de que a luta vale a pena. Afinal, como diz a dita música: “We still can find a way/ Nothing lasts forever/ Even a cold November rain”.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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