Habitar na pandemia e a ideia de casa

A desigualdade torna-se uma realidade mais crua quando confinados nas nossas casas tão desiguais. Estarão garantidas as condições para o trabalho e estudo em casa que estão a ser exigidos? Esta espécie de uberização das nossas casas, por decreto de contingência, é sentida de forma muito desigual e exige resposta de solidariedade.

Casas que são lugar

De entre os lugares que fazem o mundo de cada um, têm sido as nossas casas, onde habitamos, o lugar onde mais lutamos contra a pandemia. Não só por conta dos deveres de confinamento, que nelas nos recolhem, mas também pelo esvaziamento dos outros lugares, públicos, institucionais, de trabalho, de lazer, de cultura, da experiência plena do mundo.

Mas o que é uma casa ao certo? Dizer genericamente que é uma construção que pode ser habitada é dizer tudo não dizendo nada. Tendemos a pensar que as casas são aqueles lugares onde nos sentimos especialmente seguros, e que, com essa segurança de refúgio, podem ser lugares de intimidade, de dentro. E efectivamente cada casa é não apenas um, mas uma colecção de lugares de intimidade, que se relacionam entre si como lugares de exclusividades variáveis – a da casa face à rua, mas dentro dela, a do quarto de dormir, a da casa de banho, a do escritório, a da sala de visitas, e a do lugar à mesa de jantar, etc.

Camadas de intimidade diversas, que se arrumam numa complexidade própria, da ordem das relações familiares, ou de uma só pessoa. Porque, também sozinha, uma pessoa precisa, para a relação de sentido consigo própria, de uma realidade além do seu corpo, onde habita os seus hábitos. É isso que a sua casa proporciona. Há um verso de Manuel António Pina que diz: “Os lugares são a geografia da solidão”. Regressar a casa é um reencontro com o lastro de sentido da vida de cada um, e, por isso, é essencial à vida podermos estar em casa, na sua solidão, que tem de ser um direito. Quando estar em casa se torna uma impossibilidade, ou uma possibilidade demasiado escassa e longínqua, condenamo-nos a sobreviver apenas.

Estar em casa é estar num lugar próprio de identidade a dois, ou mais, ou a sós. E por isso entramos em casa como dentro de algo, mas mais do que em uma construção edificada, “dentro” significa transpor a fronteira para dentro de uma consciência, de uma visão de vida, de cumplicidades, mesmo de um inconsciente que se sedimenta em hábitos. E ‘fronteira’ pode significar literalmente a do país a que se regressa, que é também como uma casa quando se emigra ou se parte por alguma outra razão.

Juhani Pallasmaa, um dos grandes teóricos da arquitectura, conta aquele hábito comum de, chegando a um quarto de hotel, o tornar um pouco mais como casa ao largar bens pessoais sobre a cama e outras partes do quarto. A lembrar a casa. As casas são muito mais memória de uma biografia do que lugares. Ou melhor, são lugares de memória, que acomodam e assim guardam e proporcionam a lembrança, por exemplo, de gestos e cheiros, coisas que se faziam ou fazem e coisas que se sentiam ou se sentem, na casa dos avós, da praia, do tempo em que se era criança, da vida presente e das vidas anteriores, com outras geografias ou afectos.

Casas que são condição

E, contudo, as casas não são lugares, não estão em parte nenhuma, são mais aquilo que transportamos connosco, cada um consigo próprio, como ideia de casa, como colecção de memórias concretizada numa objectividade além do nosso corpo. Então, trazer connosco a casa é trazer connosco justamente tudo aquilo que é essencial para manter a segurança que permite o íntimo. Diz-se “Não tragas a casa atrás”, mas é precisamente isso que todos trazemos, uns mais outros menos, aonde quer que vamos. Então a casa não tem um lugar. A casa é uma espécie de sombra, que nos acompanha sempre desde que não andemos às cegas.

O escritor americano James Baldwin dizia que “talvez casa/lar (home) não seja um lugar mas uma condição irrevogável” (“O Quarto de Giovanni”, traduzido pelo escritor Valério Romão editado pela Alfaguara Portugal). Dizer que é uma condição é dizer que é qualquer coisa que não podemos afastar. Mas também não é exactamente uma sombra. Tem essa característica de nos seguir, aonde quer que vamos, mas, diferentemente das sombras, as casas são escolha. Para as pensar como sombras, cada uma seria a que  desenhamos e não a que nos desenha.

E se levamos connosco a casa sempre que vamos para fora, também a casa que deixámos para trás, quando regressamos, pode já não ser reencontrada. Para James Baldwin essa é mesmo uma condição: «tu não tens uma casa até a teres deixado e, depois, tendo-a deixado, não podes regressar a ela.»

Mesmo se não acompanharmos por inteiro esta condenação, um tanto pessimista, e acreditarmos que a casa pode ser um ou mais lugares reais, é tão ou mais importante a ideia subjacente de que, verdadeiramente, ser casa é sempre um movimento íntimo que realizamos nas coisas, de nos guardar nelas uma distância, que nunca se supera, e uma proximidade, que nunca nos deixa.

E se a intimidade é uma partilha de solidões, também as casas de uns e de outros se atraem. Conhecemo-nos uns aos outros quando, finalmente, nos visitamos, sejam as nossas casas físicas, sejam outras, por exemplo, os nossos livros, os nossos murais nas redes sociais, os nossos gostos, o lugar de canto do café, da cantina, onde estamos em repouso.

Visitarmo-nos ciclicamente, amigos e familiares, é ir fazendo intersubjectividade, não como a construção de um edifício de paredes, mas como fluxos de dar e receber, com o prazer do reconhecimento, também da descoberta da diferença e da sua fruição. Visitar é trazer o conforto da comparência ao visitado. Receber visitas é um aspecto central da casa.

Mas há casas que não conseguem receber visitas, que parecem desenhadas de propósito para não serem convidativas, com portas e janelas acanhadas. Pergunto-me se custaria tanto os projectos de prédios sociais rasgarem janelas maiores? Ou se é fruto de uma recusa antiga em conceder melhor experiência de casa a quem não a possa pagar e que se  traduzia no passado em impostos prediais sobre o número de janelas. Olhar para os prédios sociais em Portugal que, tendo janelas é como se tivessem sido entaipadas ainda antes de construídas, é olhar para um estigma de pobreza: terás onde habitar, mas não terás casa. Não podia ser.

A pandemia e as nossas casas

Sorte dos que tiveram ou têm muitas casas. Azar dos que não têm. Mas calamidade é mesmo não ter casa com condições em tempos de pandemia. Quando retidos, seguramente o mais importante é termos uma palavra sobre o lugar que nos retém. Ainda no primeiro confinamento, o crítico de Design Mário Moura desabafava no seu mural de Facebook: “uma das coisas que mais sinto falta não é tanto de sair, mas daquela sensação de finalmente voltar a casa.” Sensação que é muito resultado das próprias casas, obviamente. Ou melhor, de o sítio que habitamos ser casa o suficiente para dela se ter saudades.

Em contexto de pandemia e confinamento, as nossas casas passam a ter de acomodar, na medida do que puderem, quase todos os outros lugares da vida. Tornam-se unidades de produção, mesmo que não haja escritório, com janelas amplas, nem duas ou três salas; mesmo que os filhos se organizem em quartos partilhados, eles e os pais a precisar para os seus compromissos escolares ou profissionais de acesso à internet, de computadores, de espaço de reserva, companhia da solidão.

A desigualdade torna-se uma realidade mais crua quando confinados nas nossas casas tão desiguais. O que justifica a pronta atenção sobre se estão garantidas as condições para o trabalho e para o estudo em casa que estão a ser exigidos. Esta espécie de uberização das nossas casas, por decreto de contingência, é sentida de forma muito desigual e exige resposta de solidariedade, materializada em políticas públicas de emergência. Não é só uma questão de tamanho, mas de qualidade de construção do parque urbano, por exemplo com péssimas condições de isolamento térmico.

O frio destes dias de inverno deve contar como tremendo sofrimento imposto e, por isso, deveria constituir razão para não cobrar os aumentos de consumo energético associados ao frio. É inconcebível que o frio mate. Também os serviços de acesso à internet, que praticamente se substituiu à possibilidade de ir à rua, deviam passar a ser de livre e universal acesso. Pelo menos na proporção em que o seu uso se tornou profissional ou escolarmente obrigatório.

Por outro lado, mesmo os que tenham a sorte de casas boas, confortáveis e com esplêndidas condições para nelas se trabalhar e estudar, vêem disputado o seu tempo de estar em casa com o tempo de estar noutros lugares, que entraram virtualmente em casa para literalmente não desaparecerem. O tempo de estar em casa tem de ser protegido quando permanecemos todo o tempo em casa a fazer tudo o que faríamos caso saíssemos de casa.

Além das respostas de emergência, também o futuro das casas que se projectem – haja fim para esta pandemia – deve ser reflexão para a arquitectura, o urbanismo, os planos de cidade e até de comunidade. No futuro, não se pode negligenciar, como se fosse luxo, a necessidade de garantir condições de trabalho e de estudo nas casas, que têm de ser concebidas de forma muito mais integrada e sem, com isso, se tornarem um luxo. Mas não a ponto de se tornarem um projecto de auto-suficiência sempre ilusório.

O confinamento aprazível e voluntário, como numa bolha, pode não ser sentido subjectivamente como um aprisionamento, mas não deixa por isso de o ser objectivamente. É como o paradoxo daquela pessoa que está objectivamente trancada num quarto, ou numa cela, mas se sente livre porque não tem a menor vontade de sair, a ponto de nem chegar a verificar se, em querendo, o poderia fazer. E se sair também não pode significar ficar na bolha da rua em volta e do bairro local, tudo justifica redescobrir e revalorizar a rua em volta, o bairro que deixe de ser apenas dormitório, e seja mais comunidade, menos anónimo à casa de cada um dos seus residentes.

A pandemia trouxe a desigualdade para dentro das nossas casas, o que nos exige colectivamente sabermos contrapor uma resposta de solidariedade. Confinarmos não pode significar encapsularmo-nos. E esta súbita importância acrescida das casas que habitamos também deve ser oportunidade para reivindicar um direito à habitação que seja mais genuíno direito à casa. No sentido de um lugar de vulnerabilidade que nos permitimos e que permite a intimidade, mas também de relação com o exterior, que abre a porta, para sair ou convidar a entrar, que vai à janela, para espreitar ou ficar a ver. Casas genuínas, se confinam, é em nome do convívio e de uma vida boa.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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