Herdade da Comporta: a essência está na terra e nas gentes

O consórcio Vanguard Properties e Amorim Luxury prepara-se para comprar os ativos da Herdade da Comporta por 158 milhões de euros. O impacto do imobiliário e do turismo pode quebrar uma harmonia que persiste há décadas.

Ainda o sol não se levantou e já os agricultores estão nas avenidas de arrozais a lavrar a terra que arrendam à Herdade da Comporta. Muitos rendeiros começaram ainda em tenra idade a trabalhar nos campos para ajudarem no sustento das famílias, que ainda hoje habitam as sete aldeias que compõem a Herdade, que passou para a família Espírito Santo em 1955.

O então presidente do Banco Espírito Santo, Manuel Espírito Santo Silva, após profunda reflexão com o seu irmão, José, resolveu comprar a Herdade da Comporta à britânica Atlantic Company para continuar a desenvolver a indústria agrícola. “A família encabeçou um grupo de acionistas”, revelou fonte familiarizada com a história. “Desde então, a Herdade arrenda os terrenos aos agricultores locais que exploram a terra por conta própria”, revelou .

Para a família Espírito Santo, a compra da Herdade da Comporta foi um investimento afetivo, o que explica a forte ligação da família àquela região, situada a sul do estuário do Sado. Os locais cuidavam dos membros da família quando passavam temporadas na Comporta. Aproveitavam o sol de verão nos areais que se estendem quase até Sines, mais a sul. Nas outras estações do ano, era a caça que ocupava a maior parte do tempo da família.

Foi o ar rústico e autêntico, a calma do lugar, cujo silêncio corre por entre as dunas selvagens, a comunidade de cegonhas que rasgam os céus, que se confundem, no horizonte, com o azul turqueza do mar, onde habitam golfinhos, que transformou a Herdade num refúgio para as férias de alguns.

Mas não era só a caça, o sol e o mar da Comporta que chamou Manuel Espírito Santo. “A alma da Herdade da Comporta esteve sempre no de­senvolvimento agrícola devido às condições do solo e do clima”, disse a mesma fonte. “A essência da Herdade sempre foi a terra e a gente”.

Ainda antes da nacionalização, depois do Estado Novo cair, os Espírito Santo melhoraram as condições de vida dos locais que habitavam as aldeias da Carrasqueira, Possanco, Comporta, Torre, Brejos, Carvalhal e Pego. Construíram duas escolas, nas aldeias do Carvalhal e da Comporta, e um posto médico, para garantir o acesso à saúde dos residentes, que hoje são cerca de 3.000. A melhoria das condições de vida e o desenvolvimento da agricultura acentuou-se  com o processo de reprivatização, que teve início em 1979, com a devolução de 1.011 hectares à família, recuperando doze anos mais tarde os cerca de 12.500 hectares, que compõem a Herdade da Comporta.

Atualmente, na região, produz-se um pouco de tudo. Arroz, vinho, melão e melancia, pimentos, batata doce e pinhão, desde 2012. Entre os produtos hortícolas, grande parte é destinada à exportação para o norte da Europa, gerando muita rentabilidade, explicou uma fonte próxima da família Espírito Santo.

O apoio às famílias locais passou, formalmente, para a Fundação da Herdade da Comporta, uma plataforma de cooperação para um desenvolvimento sustentável e inclusivo da região, criada em 2004.

Em articulação com entidades públicas locais, a Fundação, atua em quatro eixos estratégicos: emprego e formação, habitação e património, educação e cultura, e prevenção de situações de risco, que englobam tudo o que tem a ver com as populações mais vulneráveis, sejam menores em situação de perigo, sejam idosos que carecem de assistência.

Em dezembro de 2003, a Atlantic Company, antes sedeada em Jersey, em Inglaterra, foi transferida para Portugal, e alterou-se a firma social para Herdade da Comporta – Atividades Agro-Silvícolas e Turísticas, designação que persiste ainda hoje. “Era um projeto riquíssimo e com uma forte componente de inclusão social e que não se limitava às duas áreas de desenvolvimento turístico (ADT)”, apurou o Jornal Económico.

A aquisição destas duas ADT tem estado no epicentro de uma guerra entre interessados cujo capítulo final está agendado para o dia 27 deste mês, numa assembleia geral de participantes do Fundo da Herdade da Comporta, gerido pela Gesfimo. A Rioforte, acionista maioritária do Fundo, deverá aceitar a proposta de compra dos ativos do consórcio liderado pela Vanguard Properties e pela Amorim Luxury, avaliada em 158 milhões de euros.

Em 2007, a Herdade da Comporta sofreu uma cisão, surgindo o Fundo da Herdade da Comporta, um fundo imobiliário, que detém as ADT – o Comporta Links (ADT2), no concelho de Alcácer do Sal, e o Comporta Dunes (ADT3, agora intitulado Núcleo de Desenvolvimento Turístico do Carvalhal), no concelho de Grândola, com cerca de 1.375 hectares.

Em conjunto, as duas ADT prevêem a construção de dois campos de golfe, cinco hotéis, três hotéis-apartamentos, onze aldeamentos turísticos e 26 loteamentos residenciais.

Quando a Herdade da Comporta foi constituída, as duas ADT eram apenas “projetos-âncora”, porque o objetivo inicial da família Espírito Santo consistia em construir projetos turísticos inclusivos, integrando os habitantes, respeitando a arquitetura local, preservando a autenticidade da Herdade e o meio ambiente. As duas ADT “não se resumiam a camas e a cimento”, disse a mesma fonte.

“O importante é perceber que a Herdade da Comporta está sob uma pressão enorme devido aos tristes acontecimentos de 2014”, disse a mesma fonte, referindo-se à queda do Grupo Espírito Santo e que tornou a Rioforte insolvente.

A autenticidade da região pode quebrar-se com a chegada do consórcio Vanguard Properties/Amorim Luxury. A Comporta distingue-se das outras zonas urbanas de desenvolvimento turístico da península de Setúbal porque os locais sempre cohabitaram em harmonia com a população ocasional, que não causou disrupções à vivência local. Mas esta tendência inverteu-se nos últimos anos, alterando não apenas a paisagem, mas também o acesso da população local a certos bens. Os mais velhos poderão não estar preparados para o futuro da Herdade, que passará cada vez mais pelo turismo. E os mais novos, por não conseguirem acompanhar o aumento do preço da habitação, devido ao incremento da procura, causada sobretudo por estrangeiros, começam a partir  para Grândola, Alcácer ou outras cidades nas cercanias. Em resultado, a população residente poderá decrescer.

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