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IA chinesa: O cisne negro que pode esmagar as avaliações de Silicon Valley

Segundo a análise, a IA tornou-se o combustível de valorizações históricas, sustentada pela premissa de que o poder computacional e os modelos de linguagem de elite são recursos finitos, caros e dominados por um punhado de gigantes de Silicon Valley. Mas este paradigma enfrenta um desafio estrutural vindo do Oriente. Pois, segundo João Lampreia, especialista da Freedom24, a entrada em cena de modelos chineses de IA — mais eficientes e drasticamente mais baratos — pode ser o catalisador de uma mudança profunda na lógica de investimento global.
18 Fevereiro 2026, 23h43

O mercado financeiro global vive, há dois anos, sob o dogma de que a Inteligência Artificial (IA) é um recurso escasso, caro e de domínio quase exclusivo dos gigantes americanos. Este cenário alimentou o crescimento meteórico das “Sete Magníficas” e elevou a Nvidia ao estatuto de barómetro da economia mundial.

“Nos últimos dois anos, o mercado tem operado sob o paradigma da “exclusividade da IA”. Os investidores têm pago um prémio pela escassez: oferta limitada de chips, custos enormes de treino e a lacuna tecnológica em relação aos Estados Unidos. Mas, por detrás deste ruído, está a formar-se outro risco, muito mais perigoso — não macroeconómico, mas estrutural. Não nasce em Washington ou Frankfurt, mas em Shenzhen, Pequim e Xangai”. Quem o diz é  João Lampreia, expert da Freedom24, que publicou um comentário sobre o impacto do surgimento de modelos chineses de Inteligência Artificial mais baratos na atual narrativa de escassez que sustenta as valorizações das grandes tecnológicas.

Segundo a análise, a Inteligência Artificial (IA) tornou-se o combustível de valorizações históricas, sustentada pela premissa de que o poder computacional e os modelos de linguagem de elite são recursos finitos, caros e dominados por um punhado de gigantes de Silicon Valley. Mas este paradigma enfrenta agora um desafio estrutural vindo do Oriente. Pois, segundo João Lampreia, especialista da Freedom24, a entrada em cena de modelos chineses de IA — mais eficientes e drasticamente mais baratos — pode ser o catalisador de uma mudança profunda na lógica de investimento global.

O analista diz que no final de 2023, a situação mudou — algo que o mercado “quase” ignorou. O surgimento de modelos chineses (como o DeepSeek), comparáveis em qualidade aos líderes de mercado, mas mais baratos, coloca em causa a rentabilidade de longo prazo de toda a cadeia de infraestruturas de IA, alerta João Lampreia.

O analista diz que enquanto o modelo ocidental se baseia na força bruta — mais GPUs, mais energia, mais centros de dados —, o surgimento de modelos chineses como o DeepSeek introduziu uma variável disruptiva: a eficiência. Ao demonstrar que é possível entregar resultados de alta qualidade com uma fração do custo e do poder computacional, a China está a transformar a IA de um “bem de luxo” num “bem de consumo”.

A análise cita dados da IEA e da Administração Nacional de Energia da China (2025),  que sublinham que o custo energético na China (0,06–0,08 USD/kWh) é significativamente inferior ao dos EUA, especialmente em clusters de IA como o Texas, onde pode atingir os 0,22 USD.
Esta vantagem permite à China repetir o padrão que já aplicou ao aço, aos painéis solares e às baterias de lítio, nomeadamente escalar a produção rapidamente; inundar o mercado com oferta; e  forçar a queda de preços mais depressa do que o esperado.

Assim, o maior perigo para os investidores em índices passivos (S&P 500, MSCI World) pode não ser o fracasso da tecnologia, mas o seu sucesso excessivo. Se a IA se tornar omnipresente e barata, a concentração atual em hardware torna-se um risco sistémico, segundo da Freedom24.

O analista diz que estamos a entrar num novo ciclo onde a sustentabilidade das margens e o retorno sobre o capital investido (ROIC) voltarão a pesar mais do que a simples escala computacional.

Para João Lampreia, especialista da Freedom24, este é o momento em que a IA se torna uma indústria pesada. “O mercado valoriza hoje o futuro monopólio sobre a infraestrutura intelectual. Se a IA pode ser produzida de forma barata, a tese de investimento em hardware de margens astronómicas colapsa”, alerta o analista.

Outro aviso deixado é que a situação atual guarda paralelos sombrios com a era dot-com. João Lampreia lembra que em 1999, acreditava-se que os fabricantes de routers (Cisco) seriam os eternos donos dos lucros da internet. Hoje, a aposta é que a Nvidia e os provedores de computação em nuvem deterão a hegemonia.

No entanto, se a arquitetura de IA começar a exigir menos recursos e a concorrência chinesa baixar os preços, os múltiplos de avaliação (P/L) da Nvidia — atualmente entre 45 e 50 — sofrerão uma compressão severa. O negócio pode continuar a crescer, mas o preço das ações tenderá a ajustar-se a margens de infraestrutura, não de software de luxo.

Por outro lado, o analista diz que num cenário de “IA Abundante”, o capital não desaparecerá, mas mudará de mãos.

João Lampreia antecipa uma rotação fundamental. Os perdedores serão os fabricantes de hardware de topo e operadores de data centers baseados na tese da escassez. Já os vencedores serão as empresas de IA aplicada, SaaS e soluções verticais (medicina, logística, finanças).

O valor migrará de quem “faz as contas” para quem entrega o resultado final e a experiência ao utilizador, defende.

 


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