O pior disto tudo é que sendo as rotundas verdadeiros dispositivos de distribuição de signos mais ou menos coletivos, esteja esta identidade aqui registada de forma tão incómoda entre coisas do passado que desapareceram, ou se enrolaram em polémicas, e sinais da máquina poderosa da economia-mundo que se alimenta de tudo como certos mamíferos.

© Álvaro Domingues, in “Volta a Portugal” (Ed. Contraponto, Lisboa, 2017).

Identidade é um daqueles assuntos que serve para qualquer serão, remédio de dor de costas, filosofia ou receita de cozinha. Questionam uns se realmente existe ou é como a palavra fantasma que é feita de nevoeiro, coisas transparentes e esvoaçantes e ruídos esquisitos. Não interessa. Tal como todas as palavras, serve para comunicarmos uns com os outros e tentar perceber como é que nos podemos arrumar enquanto indivíduos.

Não é fácil. Identidade carrega consigo certas inércias, ideias feitas, generalizações, narcisismos e bicos de papagaio. No tempo salazarento eramos um povo descendente de heróis dos mares, terra de camponeses pobrinhos e felizes, gente temente a Deus, terra de poetas, de Fátima, do fado e do futebol. Talvez Camões tivesse inventado uma parte deste xarope em decassílabos heróicos e todos os românticos tivessem gostado de pintar um Estado-nação posto numa geografia mítica semeada de prodígios, desgraças, saudades e lugares comuns. Tudo isto se podia organizar na generalidade, ou mais pitorescamente, por regiões e províncias. O Ribatejo, por exemplo, uma denominação que perdeu o mapa.

O Puro Ribatejo tem um touro no coração. Não é assunto pacífico. Marialvas e aficionados da festa brava não largam o tema, mas os auto-denominados amigos dos animais abominam tais práticas e atos sanguinários. Nada direi sobre o assunto. 

De mais difícil compreensão é o painel azul do Triunfo Bonus com caracteres chineses e erros ortográficos na escrita de Phlight que, como se sabe, deveria ser Flight. Pode ser do acordo ortográfico. Também gostava mais de pharmacia escrita assim; tinha outro estilo e a letra f tem má fama.

O Ribatejo é uma região que cedo entrou no imaginário nacional. Frei Luís de Sousa dedica-lhe uma descrição em 1623:

«(…) Faz aqui o rio [Tejo] huma agradavel divisão, deixando a parte direita, e occidental, onde fica a Villa [de Santarém], tudo o que ha de montuoso, e à esquerda  estendidas campinas, que fertiliza com suas enchentes, como faz ao Egypto o seu Nilo. E com tudo tal fertilidade tem os montes, que se atrevem a competir com os campos. Por que se estes são ricos de todo o genero de grão: enriquece os montes hum bosque contínuo de olivais, que os cobre até os muros da villa. E da mesma maneira que os campos parecem cheios de fermosos casais, e instrumentos de lavoura, e povoados de todo o género de criação de gado; assi polos montes se vem infinitas quintas de bom edifício cercadas de vinhas, e pomares, regadas de fontes e arroyos (…)»

Depois virá Garret com as “Viagens na Minha Terra” (1846) e mais tarde Alves Redol (“Gaibéus” em 1939 e “Barranco de Cegos” em 1961, por exemplo). O romantismo de Garrett e o neo-realismo militante de Redol pintam Ribatejos completamente diferentes. Os touros e os campinos são parte de uma sociedade agrária pré-moderna extremamente contrastada entre muito ricos e pobres, senhores e criados, como no Alentejo. Na tourada o cavaleiro é aristocrata e os forcados são a plebe, tal como no fado a aristocracia boémia se apropria de um género musical dos bairros pobres de Lisboa. Os dois modelos coexistem nos Marqueses de Marialva dos tempos de Pombal, escritores e praticantes das artes de cavalaria e frequentadores das vielas da Mouraria fadista. Depois o marialva deu em coisa ordinária e machismo problemático.

Agora o Ribatejo está noutro registo. Há cada vez menos touros bravos e cada vez mais campos de tomate e pimento, vinhas, gado para carne, milho, hortícolas… para as multinacionais da agro-indústria e do agro-negócio. Por isso se torna cada vez mais difícil meter o coração, o boi, e o Triunfo Bonus em chinês Phlight no Ribatejo que deixou de ser puro. Será mutante, rugoso, mestiço, impuro. O pior disto tudo é que sendo as rotundas verdadeiros dispositivos de distribuição de signos mais ou menos coletivos, esteja esta identidade aqui registada de forma tão incómoda entre coisas do passado que desapareceram, ou se enrolaram em polémicas, e sinais da máquina poderosa da economia-mundo que se alimenta de tudo como certos mamíferos.

Apesar dos sinais para regular o tráfego, o local bateu de frente com o global e não se entende nada. Parece chinês.