Ikea investiu mais de 100 milhões na sustentabilidade em 2018

O objetivo para 2020 é que 100% do material da empresa seja encaminhado para a reciclagem, à semelhança do que acontece com o cartão. “Odiamos desperdício”, diz Cláudia Domingues.

A chegada ao Ikea de Loures, a bordo de um automóvel só com dois passageiros, não foi tão sustentável quando desejaríamos, e mal chegámos, ao início de uma tarde soalheira, as luzes da loja estavam quase todas acesas. Contudo, a empresa sueca mede quase ao watt e ao mililitro o que gasta, procurando anualmente para encontrar novas formas de tornar as operações mais eficientes. É o caso do uso de lâmpadas LED que consomem menos 25% d eletricidade, de torneiras que poupam quase 50% de água que as ditas tradicionais ou dos secadores de mãos no wc que não funcionam mais do que 10 segundos consecutivos. Aliás, quase toda a eletricidade gerada pelos 11.300 painéis solares nacionais é consumida diretamente nas lojas, o que permite reduzir em 25% os custos da luz todos os anos.

“Odiamos desperdício, porque desperdício é não só dinheiro que deitamos fora, que não estamos a otimizar, como é estar a utilizar recursos do planeta que são finitos. Estes dois elementos mostram como a sustentabilidade não é algo que seja apenas interessante ou giro e o que o consumidor procura. Pelo contrário, é tema para discussão”, afirma Cláudia Domingues, diretora de Comunicação e Sustentabilidade, em entrevista ao Jornal Económico (JE).

No ano fiscal de 2018, a Ikea Portugal investiu mais de 100 milhões de euros em sustentabilidade, um montante que inclui tantos os projetos de eficiência energética como a compra do Parque Eólico do Pisco, que produz energia renovável capaz de alimentar cerca de 30 lojas da marca. Cláudia Domingues acredita que a noção de sustentabilidade faz parte do ADN da multinacional do imobiliário, uma vez que foi fundada com o propósito de ter produtos que cheguem à maioria das carteiras, o que significa produzir com o menor custo e matérias possíveis. “Obriga-nos a sermos muito inteligentes e razoáveis na forma como se gere toda a cadeia de produção”, diz.

Segundo um estudo da retalhista, em 2016 cerca de 20% cidadãos colocava as alterações climáticas como uma das suas preocupações diárias, e em 2018 verificou-se um aumento de 10 pontos percentuais nessa percentagem. “Os números dizem-nos que as pessoas estão mais ‘alerta’, mais interessadas e a tomar decisões mais informadas. Antes a mensagem não chegava tanto à classe média, preocupada com o emprego e em pagar as contas ao final do mês. Está a haver uma fase de transição, por causa da discussão pública e política, de as marcas se começarem a preocupar e de vemos estudantes a fazer greves pela crise climática”, defende a responsável do Ikea.

A teoria é corroborada naquele documento, que concluiu que 88% da amostra gostava de “fazer mais” pelo ambiente. “Vimos diferentes motivações para isso não acontecer, uma delas não estarem dispostos a pagar mais – ou seja, «eu não tenho dinheiro para ter um consumo mais responsável». Para nós é quase um contrassenso. Os produtos sustentáveis não têm de ser necessariamente mais caros. A gama que temos é mesmo para ajudar no final do mês”, explica ao JE.

Nas casas dos portugueses o Ikea não consegue mexer mais, pelo que cabe agora reestruturar e melhorar e cada vez mais a sua, numa ótica de economia circular. Entre os meses de setembro de 2017 e agosto de 2018 (últimos dados contabilizados), as cinco lojas no país produziram 4 mil toneladas de cartão, que foi posteriormente recolhido e reciclado de forma a originar um novo cartão para embalamentos nas unidades Ikea Industry, em Paços de Ferreira. Aí a meta é mais ambiciosa: até ao próximo ano a empresa quer que 100% do material seja encaminhado para reciclagem. “Não estamos lá ainda, há sempre dificuldades operacionais, mas esse é o nosso objetivo: ter mais materiais não-virgens. Em termos de volume de resíduos, o papel é onde temos a maior fatia”, refere Cláudia Domingues.

No fim de semana de 25 e 26 de maio, a Ikea dedicou esses dias à sustentabilidade, no âmbito da campanha “Um mundo melhor começa em casa” – cujo objetivo é chamar a atenção para comportamentos e soluções mais funcionais em casa, que possam contribuir, ainda que de forma irrisória, para um impacto positivo no planeta. Durante esses dois dias os consumidores puderam, por exemplo, visitar feiras de artigos em segunda mão em Alfragide, Sintra, Loures, Matosinhos, Braga e Loulé.

Além deste tipo de atividades e da gestão de resíduos e operações, um dos pilares de sustentabilidade do grupo tem que ver com as pessoas: trabalhar de um modo mais justo, igualitário em termos de género, com base na exigência de um código de conduta dos funcionários e fornecedores.

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