Numa época de incerteza internacional e mudanças tecnológicas aceleradas, Portugal enfrenta o dilema de permanecer periférico ou utilizar estrategicamente os investimentos na indústria de defesa para reindustrializar e, crucialmente, unir o país. Este setor há muito deixou de ser apenas um suporte das Forças Armadas; tornou-se um polo tecnológico, exportador e inovador, capaz de gerar emprego qualificado, captar investimento externo e, sobretudo, contribuir para superar a crónica divisão entre litoral e interior.

A indústria de defesa portuguesa conta atualmente com mais de 380 empresas e supera os 40 mil empregos diretos, constituindo uma rede avançada de inovação que cruza áreas como aeronáutica, espaço, sistemas navais, cibersegurança, inteligência artificial, materiais avançados, energia e comunicações. Empresas como OGMA, Embraer Portugal, Thales, Critical Software, Edisoft, West Sea e Tekever projetam Portugal como “hub” competitivo em tecnologia dual, com efeito multiplicador em toda a economia nacional.

O setor demonstra dinamismo notório, representando já mais de 1,6% do PIB, com faturação anual na ordem dos 4,75 mil milhões de euros e alcançando 2% das exportações nacionais. Quase 60% das entidades são prestadores de serviços e mais de 26% têm matriz industrial direta, permitindo que a cadeia de valor se estenda a cerca de quatro dezenas de setores, do fabrico de equipamentos ao desenvolvimento de soluções digitais.

A forte orientação para exportação e integração em cadeias globais, articulada com programas como o Fundo Europeu de Defesa e iniciativas da NATO e União Europeia, favorece o financiamento qualificado, geração de patentes e lançamento de ‘spin-offs’ — num ecossistema que, além do segmento ‘high-tech’ puro, integra e potencia indústrias tradicionais como têxtil técnico, calçado tático, cerâmica resistente, materiais compósitos e cortiça técnica, com expressão muito significativa fora dos grandes centros urbanos.

Esta profunda integração dual é uma das maiores mais-valias do país. Na prática, clusters de Ave, Braga, Felgueiras, Bairrada ou Aveiro demonstram que se consegue inovar e exportar valor sofisticado a partir do interior. Ao investir e criar polos avançados de I&D conectados a universidades e politécnicos, Portugal tem pela primeira vez ferramentas para inverter o ciclo de desertificação, regenerando território e revitalizando comunidades. Importa que este objetivo se traduza em medidas concretas: zonas industriais especiais com benefícios fiscais, prémios públicos à fixação de startups em territórios de baixa densidade, quotas territoriais em compras públicas e protocolos universidade-empresa para formação dual e programas avançados de requalificação.

Assim, investir em defesa será potenciar não só fábricas e centros de investigação, mas também toda a cadeia local de PME e fornecedores, multiplicando oportunidades para empresas regionais e para trabalhadores altamente qualificados.

Reindustrializar com base na defesa implica transformar despesas em investimento âncora. A meta dos 2% do PIB para a Defesa, partilhada pelos parceiros NATO, e os novos programas de armamento e offsets devem priorizar a produção nacional e envolver o tecido empresarial do interior – para que não se repita o padrão de concentração em Lisboa e litoral, e para que as contrapartidas beneficiem de facto quem mais delas precisa. É igualmente indispensável estimular contratos de desenvolvimento sustentável: a indústria de defesa portuguesa tem todas as condições para liderar na descarbonização, eficiência energética e materiais ecológicos, tornando o setor referência também em inovação responsável.

Para atingir este potencial transformador, é necessária uma nova engenharia institucional, com forte coordenação entre Defesa, Economia, Coesão Territorial, Ciência e Ensino Superior, e compromisso político duradouro que transcenda ciclos governativos. Políticas fragmentadas ou desenhadas “em Lisboa” correm o risco de gerar apenas ganhos cosméticos ou beneficiar projetos já instalados, perpetuando desigualdades regionais e sociais.

Esta aposta estratégica ganha ainda maior acuidade no contexto europeu: perante a pressão para reforçar autonomia estratégica, reduzir dependências externas e competir numa geografia dominada por EUA e China, Portugal tem de afirmar-se não como mero consumidor de tecnologia, mas sim como produtor soberano de conhecimento aplicado.

Portugal já dispõe de um ecossistema de I&D de Defesa robusto, mas, para converter este ativo em prosperidade territorial e soberania efetiva, faltam incentivos pragmáticos e políticas de continuidade. Não basta anunciar fundos ou verbalizar vontade: é urgente operacionalizar incentivos regionais e quotas industriais.

Reindustrializar Portugal pela Defesa é a única forma de transformar potencial em valor partilhado – dotando todas as regiões de meios para competir, gerar riqueza e fixar talento.

Para os decisores políticos, técnicos e institucionais, esta não é apenas uma oportunidade conjuntural: trata-se de uma responsabilidade moral e histórica. Ignorar ou adiar esta resposta estruturante será desperdiçar recursos e, pior ainda, perpetuar o país de duas velocidades – hipotecando o futuro de quem nasceu longe dos grandes centros. Portugal só será plenamente soberano quando todos os seus territórios, do litoral ao interior, puderem reclamar, em igualdade, o futuro que a indústria de defesa hoje permite desenhar.