Infeciologista da Estefânia aponta sinal “reconfortante para a reabertura das escolas” na transmissão do coronavírus

Especialistas presentes na apresentação da situação epidemiológica da Covid-19 em Portugal disseram que o regresso às aulas presenciais não levará necessariamente ao aumento de casos de infeção.

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A coordenadora da unidade de Infeciologia Pediátrica do Hospital Dona Estefânia, Maria João Rocha Brito, disse que apesar de a transmissão da Covid-19 para as crianças e jovens “permanecer um enigma”, os dados existentes indicam que o coronavírus SARS-CoV2 não se transmite da mesma forma que a gripe e outras doenças respiratórias, o que apontou como um sinal “reconfortante para a reabertura das escolas”.

Maria João Rocha Brito apontou os exemplos da Dinamarca, onde a reabertura das escolas não provocou um pico de novas infeções, e da Austrália, país onde a doença é “muito pouco frequente na população infantil”. Essenciais serão, em seu entender, os cuidados de higienização e de proteção individual, tendo em conta que apesar da declaração de estado de emergência logo a 18 de março, 45% das crianças internadas devido à pandemia no Hospital Dona Estefânia apresentavam coinfeções, incluindo alguns casos de vírus influenza B.

Numa intervenção à distância na apresentação da Situação Epidemiológica da Covid-19 em Portugal, realizada na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, a médica do hospital pediátrico lisboeta admitiu, no entanto, que o regresso às aulas e a aproximação do outono e inverno levarão a que a gripe sazonal constitua um problema adicional, pois o impacto do distanciamento social fez com que a disseminação de outros vírus se tenha “reduzido de forma impressionante”.

Entre os 5.148 casos de menores com Covid-19 em Portugal, 285 foram tratados no Hospital Dona Estefânia, tendo havido 114 internamentos e a morte de duas crianças – “uma de Covid e outra com Covid”, salientou a infeciologista. Com 53% de doentes do sexo feminino e maior incidência nos mais velhos (36% com mais de dez anos) e mais novos (27% com menos de um ano), apenas 52% do total de pacientes tinham familiares infetados.

Apesar de 23% das crianças e jovens que recorreram ao hospital pediátrico lisboeta serem assintomáticas, 18% tinham doenças ligeiras associadas a comorbilidade, 23% doença moderada e 27% doença grave. Entre as doenças associadas mais frequentes, houve 48% com pneumonia, 8,5% com miocardite e 4,5% septicemia, mas também 4% de MISC-C (síndrome inflamatória multissistémica) e 2% de insuficiência respiratória grave.

Especialistas defendem reabertura das escolas com higiene e distância física

Numa outra intervenção, Carla Nunes, especialista em epidemiologia da Escola Nacional de Saúde Pública, analisou o cenário de reabertura de escolas noutros países, dando nota que “com medidas adequadas de distância física e higiene, as escolas provavelmente não serão ambientes de propagação mais eficazes do que outros ambientes ocupacionais ou de lazer com densidades semelhantes de pessoas”.

“Existem estudos pontuais tanto positivos como negativos, mas no global as evidências sugerem que a reabertura das escolas não foi associada a um aumento significativo na transmissão comunitária”, assinalou.

A especialista frisou que, por exemplo, nos países nórdicos foi registado um aumento do número de casos, ainda antes do regresso às aulas, pelo que não poderá ser atribuído às escolas, mas sim a “férias, festas e eventos realizados durante o verão e ao relaxamento das medidas de distanciamento”, acrescentando que as normas são muito heterogéneas entre países.

“A escola é apenas um dos setores que está a abrir, que proporciona alterações de comportamento neste grupo fora da escola”, vincou, identificando que alguns dos problemas identificados a 18 de maio foi o convívio pós-período de aulas e em outro grupos com uma “enorme variedade de condições”, sendo “impossível isolar e controlar totalmente o efeito especifico da abertura das escolas”.

Manuel do Carmo Gomes, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa referiu que “se reabrirmos as escolas com um regimes de contactos interpessoais semelhante à situação pré-covid é altamente provável que Portugal venha a ter uma segunda onda de covid”

“Contudo, há um aspeto muito positivo, o modelo [que avalia possíveis contágios] prevê que é possível evitar a segunda onda, é exigente, mas é possível e o modelo vai mais longe, dá-nos uma indicação de quanto é que nós temos que fazer para evitar a segunda onda concretamente, se nós conseguirmos que os contactos da rede de contactos dos jovens nas escolas e para fora da comunidade seja aproximadamente 50% para 30% dos contactos que havia na época pré-covid, o modelo prevê que a segunda onda será evitada”, assegurou Manuel do Carmo Gomes.

Receitas para evitar uma segunda vaga

Último especialista a ser ouvido na apresentação da Situação Epidemiológica da Covid-19 em Portugal, o epidemiologista Henrique de Barros do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, dedicou a sua apresentação à forma de evitar uma segunda onda de infeções a lançar alertas para o “risco de culpar a vítima”. Isto porque, em seu entender, as escolas podem ter casos de infeção sem que nenhum tenha ocorrido em ambiente escolar.

Ainda assim, Henrique de Barros salientou que a “sobrepopulação do espaço físico” pode ser um fator tão determinante nas escolas quanto é nas residências de algumas famílias e, tendo em conta que 40% dos infetados são assintomáticos e pode transmitir o coronavírus, o epidemiologista defendeu que é preciso apostar no rastreio. “Por muitos que nos custe, não sabemos muito dos mecanismos íntimos daquilo que se está a passar”, reconheceu, apontando a higiene pessoal e etiqueta respiratória e a instalação da aplicação Stayaway Covid como outras prioridades.

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