Foi publicado o novo barómetro da McKinsey e do World Economic Forum sobre como se encontra a cooperação a nível global.
“Num contexto internacional marcado por instabilidade geopolítica, fragmentação económica e pressão sobre as instituições multilaterais, a cooperação global continua a demonstrar resiliência, ainda que com uma configuração diferente da observada no passado”, é a principal conclusão da terceira edição do Global Cooperation Barometer, elaborado pela McKinsey & Company e pelo World Economic Forum.
De acordo com o estudo, o nível global de cooperação internacional mantém-se semelhante ao dos anos anteriores. No entanto, a sua composição está a mudar de forma significativa: os mecanismos tradicionais de cooperação multilateral continuam a perder peso, enquanto ganham relevância formas mais ágeis e pragmáticas de colaboração, como parcerias regionais, coligações setoriais e acordos entre grupos mais reduzidos de países.
Segundo o relatório, a cooperação tende a ser mais forte quando existe uma convergência evidente entre prioridades nacionais e objetivos globais – como acontece nas áreas da transição energética, da digitalização ou da segurança das cadeias de abastecimento. Esta lógica tem impulsionado o surgimento de parcerias regionais, acordos setoriais e coligações público-privadas como alternativas funcionais aos modelos tradicionais.
O Barómetro analisa a cooperação global a partir de cinco grandes pilares – comércio e capital, inovação e tecnologia, clima e capital natural, saúde e bem-estar, e paz e segurança, revelando tendências diferenciadas em cada um deles.
No domínio do comércio e do capital, a cooperação estabilizou, permanecendo acima dos níveis pré-pandemia. “Embora o comércio de bens enfrente crescentes pressões protecionistas, os fluxos de serviços, capital e investimento direto continuam a crescer, sobretudo entre economias consideradas geopoliticamente mais alinhadas. Esta reconfiguração traduz-se numa reorganização das cadeias globais de valor, mais do que numa retração do comércio internacional”, refere o estudo.
Já a cooperação em inovação e tecnologia registou um crescimento significativo, impulsionada pelo aumento dos fluxos de dados, do comércio de serviços digitais e dos investimentos associados à inteligência artificial.
Em 2025, a capacidade internacional de transmissão de dados era quatro vezes superior à registada antes da pandemia. Ainda assim, o relatório alerta para o aumento das restrições à circulação de tecnologias críticas e talento altamente qualificado, em particular entre grandes blocos geopolíticos.
No eixo do clima e do capital natural, a cooperação internacional voltou a crescer, sustentada pelo aumento do financiamento climático e pela expansão do comércio de tecnologias de baixo carbono, refere o barómetro.
O estudo diz ainda que a instalação de capacidade solar e eólica atingiu máximos históricos em 2024 e 2025. No entanto, “os progressos continuam aquém do necessário para cumprir os objetivos do Acordo de Paris, com as emissões globais a manterem uma trajetória ascendente, apesar da redução da intensidade carbónica da economia”.
A saúde e o bem-estar mantiveram níveis globais de cooperação relativamente estáveis, refletidos na melhoria contínua de indicadores como a esperança média de vida e a mortalidade infantil. No entanto, o relatório identifica sinais preocupantes, “a ajuda internacional ao desenvolvimento na área da saúde caiu de forma acentuada, colocando pressão adicional sobre os sistemas de saúde dos países de baixo e médio rendimento e levantando riscos para a sustentabilidade dos ganhos alcançados”.
Em contraste, a cooperação em paz e segurança continua a deteriorar-se.
Todos os indicadores deste pilar permanecem abaixo dos níveis anteriores à pandemia, num cenário marcado pelo aumento dos conflitos armados, do número de deslocados forçados – que atingiu um recorde histórico de 123 milhões de pessoas – e pela incapacidade dos mecanismos multilaterais tradicionais em prevenir ou resolver crises. Ainda assim, o relatório destaca o papel crescente de iniciativas regionais e de diplomacia “minilateral” na mitigação de alguns conflitos.
Uma das mensagens centrais do Global Cooperation Barometer 2026 é o facto de a cooperação global não estar a desaparecer, mas a adaptar-se a um mundo mais fragmentado e multipolar. À medida que o multilateralismo enfrenta bloqueios políticos e institucionais, surgem novas formas de cooperação mais orientadas por interesses concretos, benefícios económicos claros e objetivos partilhados a curto e médio prazo.
Recomendações para líderes públicos e privados
Perante este novo contexto, a McKinsey & Company e o World Economic Forum defendem que a questão central já não é se os países e as organizações devem cooperar, mas como o devem fazer. O relatório recomenda que líderes públicos e privados adotem abordagens mais flexíveis e diferenciadas, ajustando o formato da cooperação ao tipo de desafio em causa; reforcem capacidades internas de análise geopolítica e institucional, para identificar oportunidades emergentes de colaboração; e invistam em coligações público-privadas e em parcerias entre empresas como motores de cooperação eficaz em áreas críticas.
Num mundo marcado pela incerteza, o relatório conclui que a cooperação continua a ser um fator essencial para promover crescimento económico, reforçar a segurança global e aproveitar as oportunidades associadas à inteligência artificial e à transição climática – desde que assente em diálogo construtivo, pragmatismo e novas formas de articulação internacional.
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