O head of trading do Banco Carregosa, João Queiroz, explica que esta diferença entre a notação das agências de rating e o desempenho da bolsa francesa pode ser explicada pela “clássica divergência” entre fundamentais macro e dinâmica de mercado.
“As agências refletem riscos estruturais — frágeis orçamentos de Estado, elevada dívida soberana e instabilidade política —, quando o mercado acionista tem-se orientado por fatores de curto prazo e de liquidez, como a queda das yields, a expectativa de cortes do BCE e a expansão dos múltiplos (não dos resultados)”, explica João Queiroz.
Refira-se que a Standard & Poor’s (S&P) e a Fitch decidiram baixar o rating francês enquanto que a Moody’s alterou o seu outlook com uma revisão em baixa.
A 31 de maio a S&P decidiu baixar a classificação de crédito soberano de longo prazo em moeda estrangeira e local de França de ‘AA’ para ‘AA-‘, mantendo a sua classificação de crédito soberano de curto prazo em moeda estrangeira e local em ‘A-1+’, e a para as classificações de longo prazo como estável.
“A revisão em baixa reflete a nossa projeção de que, ao contrário das expectativas anteriores, a dívida pública geral da França em relação ao PIB aumentará em resultado de défices orçamentais superiores aos previstos para o período de 2023 a 2027”, salientou a S&P. A agência de rating defendeu também que acreditava que a fragmentação política “aumenta a incerteza” quanto à capacidade do governo para “continuar a implementar políticas que impulsionem o potencial de crescimento económico e resolvam” os desequilíbrios orçamentais.
A Fitch, a 12 de setembro, reviu em baixa o Rating de Incumprimento do Emitente (IDR) de longo prazo em moeda estrangeira de França de ‘AA-‘ para ‘A+’, com perspetiva estável. A redução justificou-se por motivos como: um índice de endividamento elevado e crescente; a fragmentação política causar dificuldades na consolidação, um histórico fiscal fraco; um défice elevado em 2025, um caminho incerto para a consolidação orçamental, e a rigidez fiscal.
A 24 de outubro a Moody’s confirmou que alterou a perspetiva para o Governo de França de “estável para negativa”, reafirmando o rating de emitente de longo prazo em moeda nacional e estrangeira e de dívida sénior não garantida em moeda nacional de França em Aa3.
“A decisão de alterar a perspetiva para negativa reflete o risco crescente de que a fragmentação do panorama político do país continue a prejudicar o funcionamento das instituições legislativas francesas. Esta instabilidade política pode comprometer a capacidade do governo para enfrentar desafios políticos cruciais, como o elevado défice orçamental, o aumento do endividamento público e a elevação duradoura dos custos de financiamento, conduzindo, assim, a uma deterioração mais rápida dos principais indicadores orçamentais de França do que a atualmente prevista”, justificou a Moody’s
“Além disso, a fragmentação política aumenta o risco de uma reversão duradoura de disposições-chave de reformas estruturais previamente adotadas, em particular a reforma das pensões de 2023. Se a suspensão desta reforma se prolongar por mais do que alguns anos, agravará os desafios fiscais do governo e terá um impacto negativo na taxa de crescimento potencial da economia, reduzindo a oferta de mão-de-obra”, acrescentou a Moody’s.
Mesmo no meio dos alertas das agência de rating e da incerteza política vivida em França, o analista da XTB, Vítor Madeira, sublinha que existe um dado que tem saltado à vista, e que está ligado às yields a 10 anos de França face às da Alemanha.
“O prémio de risco francês (risk premium) tem vindo a diminuir de forma lenta desde novembro de 2024. Este movimento indica que o mercado tem revisto em baixa o diferencial de risco entre França e Alemanha, interpretando o contexto político francês e o downgrade das agências de rating como não suficientemente material para comprometer a perceção de solvabilidade soberana”, explica o analista da XTB, Vítor Madeira, ao Jornal Económico (JE).
O head of trading do Banco Carregosa, João Queiroz, adianta, ao JE, que grande parte da recuperação do índice bolsista francês (CAC40) “foi técnica” tendo sido “impulsionada por fluxos de investimento para ações de grande capitalização”, sobretudo na área industrial, dando como exemplo a Airbus e a Safran) e no setor energético, tendo como exemplo a TotalEnergies, também pela “perceção de que o “dividend yield” francês (yield, ou retorno, gerado pelo dividendo) oferece proteção relativa” num contexto europeu de taxas em queda.
“O contraste é que os resultados continuam frágeis — o consenso de +10% EPS (sigla inglesa para ganhos por ação) parece otimista face aos 6% sugeridos pelo modelo macro — e os riscos políticos e fiscais permanecem latentes, refletindo-se em “outflows”, ou saídas de capital, de external traded funds (ETFs) e num “spread” OAT–Bund (ou diferença entre as yields, ou retorno, dos títulos do governo francês (OATs) e dos títulos do governo alemão (Bunds) mais largo”, acrescenta João Queiroz.
João Queiroz reforça que o rating da dívida soberana “tende a captar a solvência e o risco-país” enquanto que o mercado [accionista] valoriza a “liquidez e o “momentum” (ritmo a que o preço de um título varia)”. Para o head of trading do Banco Carregosa enquanto a política monetária “sustentar” as atuais valorizações e avaliações, o índice CAC40 “poderá continuar a subir” embora alerte que o equilíbrio “é instável”.
O head of trading do Banco Carregosa sublinha que no atual contexto o rally francês “será mais financeiro do que económico”, exceto se o calendário de apresentação de resultados do terceiro trimestre “comportar alterações”.
O analista da XTB, Vítor Madeira, assinala que as empresas que compõem o CAC 40 têm um perfil “marcadamente internacional”, obtendo uma “parcela substancial” das suas receitas fora do mercado doméstico francês.
“Por conseguinte, o seu desempenho tende a refletir muito mais as dinâmicas da economia global, as expectativas de crescimento mundial e o sentimento de risco nos mercados internacionais, do que propriamente a evolução das obrigações soberanas francesas. É o caso do índice norte-americano S&P 500 (índice de referência mundial), que nesta altura se encontra em máximos históricos e acaba por refletir um sentimento positivo nas restantes geografias”, acrescenta o analista.
Vítor Madeira explica que o aumento das yields soberanas “representa uma majoração do custo de financiamento” do Estado francês, “refletindo o prémio exigido pelo mercado para compensar” o risco de crédito e de duração associado à dívida pública.
“Em contrapartida, a valorização das ações traduz a antecipação de crescimento económico e de expansão dos resultados empresariais por parte dos investidores”, adianta o analista da XTB.
Para Vítor Madeira embora “possa existir alguma correlação” entre os dois movimentos, na medida em que as condições macroeconómicas influenciam ambos os segmentos, “essa relação não é direta nem linear”, sendo muito mais influenciada pela ação do Banco Central Europeu (taxa de juro diretora e liquidez monetária).
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