Investimento francês continua a crescer enquanto a língua volta a ganhar espaço

O investimento francês em Portugal está em setores tão relevantes como a indústria automóvel e de componentes, a aeronáutica, a energia, o digital, as TI, as novas tecnologias ou a distribuição.

Poucos serão os setores produtivos onde gestores e empresários franceses não estejam envolvidos. O ambiente de negócios, a estabilidade social e política, e ainda a oferta de serviços de saúde, telecomunicações e transportes fazem a diferença para as empresas francesas, ou simplesmente para a classe média francesa que se instala em Portugal.

A França está entre o top 5 dos maiores parceiros nacionais como mercado de compra e venda de produtos e serviços e, por isso, é um parceiro de eleição. Os Troféus Luso-Franceses promovidos pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Francesa (CCILF), que já vai na 26ª edição, revelam isso mesmo: a crescente importância da relação bilateral nas áreas do comércio, investigação e imobiliário, mas também no ensino e na cultura. Neste aspeto, é relevante frisar aquilo que o presidente da CCILF, Carlos Aguiar, refere na entrevista desta edição, quando afirma que “os liceus franceses em Lisboa e Porto são centros de ensino de excelência, mas que já sentem algumas dificuldades em fazer face à procura crescente das famílias francesas que se instalam em Portugal”. E tão relevante como os franceses se instalarem é a importância da língua, que ao longo das últimas décadas foi substituída por outra de caráter mais universal. Mas o francês está (de novo) a ganhar relevo em Portugal. Diz ainda Carlos Aguiar que, “para os portugueses, a aprendizagem da língua francesa voltou a ganhar importância acrescida face às oportunidades de emprego proporcionadas pelas empresas francesas, cabendo destacar o trabalho exemplar da Alliance Française e dos Conselheiros Franceses do Comércio Externo”.

 

Soberania
A par do esforço voltado para as famílias e as empresas, a França tem outras grandes preocupações relevantes para Portugal. Ainda num recente discurso do Presidente da República francesa Emmanuel Macron aos embaixadores, onde esteve presente a nova embaixadora em Lisboa, Florence Mangin (com uma entrevista na próxima edição dos Troféus), aquele frisava a prioridade de trabalhar na “construção de uma soberania europeia”. Afirmou na ocasião que este projeto “está no coração europeu e que é partilhado por muitas pessoas desta sala. A soberania europeia não é uma palavra vã. Penso que ao longo de muito tempo cometemos erros ao deixarmos o termo soberania para os nacionalismos. Soberania é uma palavra bonita. Lembra-nos aquilo que está no coração da nossa democracia e da nossa República, é um facto que tem um nome próprio, aquele que é soberano, é o povo. Aquele que decide, mas se perdermos a orientação sobre este princípio, esta soberania não nos conduzirá a lada nenhum. (…) e a responsabilidade dos dirigentes de hoje é de dar condições para terem mão sobre esse destino, para terem um povo com futuro, para que possa ser responsável e intervir”. E mais à frente, no mesmo evento, o presidente Macron fala de uma Europa e de uma estratégia que envolve também Portugal e as empresas lusas. Fala de uma Europa “que investe na investigação e desenvolvimento de uma forma massiva, com destaque para os novos setores industriais e que enfrentam as exigências da concorrência e ao mesmo tempo são compagináveis com a soberania industrial. (…) Esta é uma Europa que “decidiu ter uma verdadeira estratégia climática e industrial e que coloca uma fasquia elevada no preço das emissões de carbono, e que é aliás bastante elevada para estimular a transição que orienta os nossos atores (industriais) e cria uma verdadeira tarifa aduaneira de forma a evitar a concorrência desleal de atores que não trabalham dentro do mesmo nível de transição (descarbonização)”.

 

O investimento em França
Toda a estratégia francesa a nível de alterações climáticas e a transição para um novo nível industrial com forte redução da descarbonização são uma oportunidade para empresas portuguesas naquele país. Carlos Aguiar salienta que a Câmara de Comércio em articulação com a Business France, o equivalente ao português AICEP, a par dos Serviços Económicos da embaixada de França, “tem vindo a iniciar ou a participar em ações destinadas a dar a conhecer o mercado francês”. Alerta o presidente da CCILF que, “à semelhança do que recomendamos aos franceses que se querem instalar em Portugal, para um conhecimento aprofundado do mercado francês é prudente e avisado que o interessado procure conselho especializado adequado, que lhe permita compreender melhor o país, as suas gentes e a sua cultura, melhor formatar o seu projeto e avaliar os riscos do mesmo”.

 

Os setores
Entre os setores de maior apetência para atrair cidadãos franceses está o imobiliário. O regime fiscal dos Residentes Não Habituais, criado em 2009, oferece a isenção de IRS aos reformados e uma taxa reduzida de impostos aos rendimentos do trabalho. Este sistema tem atraído reformados e profissionais de alto valor acrescentado, situação que teve grande impacto no setor imobiliário, figurando os cidadãos franceses entre os estrangeiros com maior volume de compras. Exemplo desse sucesso foi o Salão Imobiliário de Turismo Português – Invest Portugal que se realizou em maio em Versailles, Paris, onde estiveram 150 expositores. Para além de Lisboa, Porto e Algarve, também Famalicão, Olhão, Seixal, Vila de Rei e Nazaré estiveram representadas. No mesmo evento, o realce foi para o promotor francês Nexity.

Recorde-se que o programa de Residentes Não Habituais gerou um investimento direto que está calculado entre os nove mil milhões e os 11 mil milhões de euros ao longo de 10 anos, de acordo com dados da APEMIP. Envolve 25 mil cidadãos de 146 países mas os franceses estão à frente. No setor imobiliário ganhou um peso incontornável a Vanguard Properties de José Botelho e do empresário francês Claude Berda, com o projeto da Comporta.

Em Portugal trabalham cerca de 750 empresas com capital francês que empregam mais de 60 mil pessoas. O número não é novo, o que é relevante é ter-se mantido estável. O setor automóvel, como já referimos, é dos mais importantes, com destaque para o grupo PSA com fábrica em Mangualde, ou ainda o centro de Cacia, que produz componentes para a Renault. As energias renováveis, e já vimos que este setor é relevante para a descarbonização, tem a Engie. Esta companhia conta com uma parceria com a EDP. Depois, na distribuição, o domínio é totalmente francês com as marcas Auchan e Leroy Merlin, Decathlon, Leclerc, Conforama, Fnac, La Redoute ou o Intermarché. Nas telecomunicações temos a Altice que controla a Meo, enquanto na indústria de iluminação pontua a Legrand. No setor financeiro o destaque vai para o BNP Paribas, que tem um hub em Portugal. Outros grupos relevantes são a própria Bolsa de Valores de Lisboa, controlada pela Euronext de Paris, ou ainda bancos com forte pendor tecnológico como o Natixis. Pelo meio figuram ainda nomes tão relevantes como a Altran, a Europcar ou a Teleperformance. Este conjunto de empresas permitiu que se tornassem os segundos maiores investidores diretos em Portugal, calculando-se o stock de investimento direto de França em Portugal nos 6,3 mil milhões de euros, de acordo com um trabalho desenvolvido pelo BNP Paribas.

Ler mais

Recomendadas

Governo espera receber “primeira tranche” do PRR “durante o verão”

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, afirmou esta sexta-feira que o Governo mantém a expectativa de receber “primeira tranche” do financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) “durante o verão”.

Governo poderá aumentar salário mínimo até 705 euros no próximo ano (com áudio)

Segundo os cálculos do “Jornal de Notícias/Dinheiro Vivo”, esta variação elevará o salário mínimo para os 704,9 euros (705 euros, arredondando) em 2022 e, para atingir a meta dos 750 euros em 2023, o esforço terá depois de ser maior, de 6,4%.

Défice e dívida pública aumentaram na zona euro e UE no último trimestre de 2020

O défice registou um crescimento de 8,0% do Produto Interno Bruto (PIB) na zona euro e 7,5% na União Europeia, enquanto a dívida pública sofreu um aumento de de 98,0% e 90,7%, respetivamente.
Comentários