Irá o PCP sobreviver à transição digital?

O PCP terá de escolher entre tornar-se o último grande defensor do trabalho subordinado ou, pelo contrário, encarar a transição digital como uma oportunidade para libertar a sociedade deste velho paradigma.

O PCP está a comemorar o seu centésimo aniversário, mantendo uma vitalidade invejável quando comparável com a situação de outros partidos comunistas europeus que nasceram na mesma época. O PCP já não é a força ativa e influente na sociedade que era no final dos anos 70, é certo, mas a maioria dos seus pares por esse mundo fora estão em muito pior condição. Ou são meras sombras do passado ou largaram o credo marxista-leninista e são agora partidos de centro-esquerda.

A longevidade do PCP explicar-se-á com o seu papel no combate à ditadura, mas também com o natural conservadorismo da sociedade portuguesa. Em muitos aspetos o PCP é um partido conservador, o que o distingue do Bloco de Esquerda. Este conservadorismo comunista vê-se sobretudo na economia, mas também em aspetos como a defesa de teses soberanistas, as posições sobre costumes (agora menos do que antigamente) e questões relacionadas com as liberdades individuais.

Ao longo de muitos anos, sobretudo durante a ditadura, os comunistas portugueses habituaram-se a ver-se a si mesmos como indivíduos de moral superior que sacrificavam os seus interesses individuais no altar do bem comum. Há algo de religioso no ideal comunista, com a crença numa parusia que há que vir quando o comunismo finalmente triunfar, apesar do evidente fracasso do socialismo real no século XX. Nesse sentido, ser-se comunista de corpo e alma não é muito diferente de ter uma religião e levá-la a sério. Este facto ajuda a explicar a extraordinária resiliência do PCP, não apenas no plano eleitoral mas também financeiro, como demonstra o facto de ser o único grande partido que seria capaz de sobreviver sem subvenções estatais, vivendo dos contributos de militantes e simpatizantes, incluindo aqueles que, ao longo de décadas, lhe doaram imóveis e outros bens.

Ao mesmo tempo, a sua influência junto dos sindicatos garante-lhe um peso político que transcende os resultados eleitorais. Concorde-se ou não com as suas posições, o PCP e os sindicatos que lhe são próximos fazem falta à democracia portuguesa, porque defendem uma parte da população que outros partidos há muito esqueceram. E ajudam a equilibrar um pouco a balança em favor dos mais fracos, servindo de válvula de escape para tensões sociais que de outra forma se avolumariam.

Hoje, cem anos depois, a grande ameaça à sobrevivência do PCP não vem da direita, do liberalismo ou de outras forças de esquerda, mas sim da sua aparente incapacidade em adaptar-se às mudanças que a tecnologia está a trazer ao mundo do trabalho.

A pandemia acelerou a transição digital, massificou o teletrabalho e mudou a forma como muitos profissionais se relacionam com as empresas. As novas gerações olham cada vez mais para a liberdade que advém de poder trabalhar remotamente, sem laços permanentes a um só patrão e se possível com vários empregadores (a palavra certa será clientes).

Aquilo que para as gerações anteriores eram objetivos de vida – emprego fixo, casa e carro – está a ser posto em causa por muitos jovens. Naturalmente, este fenómeno inclui muitas ilusões que o tempo se encarregará de dissipar (é fácil prescindir de estabilidade quando somos jovens e pensamos que vamos viver para sempre). E tem sido visível sobretudo nas profissões mais qualificadas e em pessoas com maiores rendimentos, mas irá com certeza expandir-se nas próximas décadas, à medida que as tecnologias derem origem a novas tarefas. Estamos num processo de transformação a nível mundial que irá mudar radicalmente a forma como vivemos e trabalhamos.

Perante este desafio existencial, o PCP e outras forças de esquerda têm duas opções: ou tentam impedir a mudança, procurando impossibilitar as novas formas de trabalho; ou procuram encontrar formas de conciliar a defesa dos direitos das pessoas com esta nova realidade, por exemplo através de regras adequadas para o trabalho remoto e do reforço da proteção social para trabalhadores independentes e pequenos empresários.

No fim de contas, o PCP terá de escolher entre tornar-se o último grande defensor do trabalho subordinado ou, pelo contrário, encarar a transição digital como uma oportunidade para libertar a sociedade deste velho paradigma. E assim, paradoxalmente, desta forma ficar mais perto do seu objetivo secular de um mundo “sem exploradores e explorados”.

Não sou profeta, mas diria que a sobrevivência do PCP por mais cem anos vai depender desta escolha.

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