Já te tenho dito que não é bonito…

A classe política vai saltitando entre o Parlamento e a banca, os escritórios de advocacia ou os conselhos de administração das grandes empresas, passando entre as gotas da chuva enquanto trocam favores e fingem concorrer ou supervisionar.

Há pouco mais de uma semana, o mundo ocidental e desenvolvido viu ruir a narrativa que criara para se abster de questionar a proveniência da riqueza de Isabel dos Santos e se abstrair da enorme coincidência que era a filha de José Eduardo, o presidente de quase 40 anos dessa saudável e próspera democracia que é Angola, ser a mulher mais rica de África. Ora, como expressaram várias figuras angolanas, a maior surpresa que o Luanda Leaks trouxe foi, precisamente, a surpresa com que o resto do Mundo (fingiu que) recebeu as notícias.

Podemos começar pelo Estado português, essa entidade sempre tão coerente e eficaz no desempenho das suas funções. Depois de ter recebido a “Princesa”, em várias ocasiões, com honras de Estado e como a salvadora da pátria, o Governo português foi estranhamente rápido e expedito a distanciar-se do caso, empurrando-o para o colo do Banco de Portugal (BdP) e CMVM.

Ora, o BdP havia feito, há uns anos, uma inspecção ao EuroBIC, o banco dominado por Isabel dos Santos e mais meia dúzia de accionistas, em que foram detectados “mais de cinco dezenas de problemas, maioritariamente ligados a créditos concedidos depois do chumbo do conselho de crédito ou às numerosas e recorrentes operações com PEP (Politically Exposed Person) angolanos e que mereceram uma avaliação de “Risco Intrínseco ALTO” pelo regulador. A supervisão financeira portuguesa tinha o BIC debaixo de olho. E o que é que aconteceu? Nada.

O banco teve um aumento de capital e continuou a operar, como se nada fosse. É um pouco como se alguém levasse o carro à inspecção, os mecânicos detectassem que não tinha travões, duas luzes estavam fundidas e a direcção desalinhada, mas no final dessem a chave para a mão do condutor e lhe dissessem para conduzir com cuidado. Com a pequena diferença que um carro não lava dinheiro nem empresta dinheiro para comprar a Efacec.

Basicamente, mais uma vez o BdP foi completamente inapto a evitar fraudes de larga escala dentro do sistema financeiro português. Uma inaptidão que, diga-se, começa a tornar-se norma. Perante a constatação evidente da passividade conivente do regulador, o BdP defende-se dizendo que os processos de contra-ordenação estão, desde 2015, “em tramitação”; ou seja, não são apáticos, são só lentos. Bem, se a minha namorada me dissesse para lavar a loiça e eu, passados cinco anos, estivesse ainda “em tramitação”, provavelmente estaria também já no estatuto de ex.

Esta inércia cúmplice, que alguns tentam fazer passar por incompetência, não deverá ser investigada e punida como parte dos crimes que, alegadamente, terão sido praticados por Isabel dos Santos?

À falta de capacidade de provar, inequivocamente, a intenção maldosa de determinados agentes que, por omissão, passividade ou suposto erro de avaliação, continuam a colaborar com esquemas de branqueamento de capitais e fuga fiscal não deveria corresponder uma consequência? É que, se o salário de um CEO é elevadíssimo como forma de compensá-lo pela responsabilidade das decisões que tem de tomar, o risco que estas acarretam não pode ser artificialmente alienado, criando as instituições no poder umas redomas à volta destes senhores, a quem nada parece poder ser imputável.

Neste caso, os melhores exemplos são, por um lado, a defesa de Brito Pereira relativamente à constituição da Matter, essa empresa nada suspeita por ele constituída, a quem foram parar 115 milhões de dólares da Sonangol por “serviços de consultadoria”, ou o Sr. Bob Moritz, CEO da PWC, que se disse “desiludido” por ninguém na consultora ter descoberto o alegado esquema que, alegadamente, ajudaram a montar.

Bem, pelo menos sabemos que, se estes senhores ficassem privados de exercer actividade nas respectivas áreas não passariam fome, agora que a profissão de comediante já dá para sobreviver. Já quanto aos senhores auditores, é grave quando malta de jornalismo consegue analisar balanços melhor do que vocês.

O que vale é que a hipocrisia é uma cor que nos veste bem. O Governo que agora se mantém tão distante e imparcial é o mesmo que pressionou o MP para que enviasse o processo de Manuel Vicente para Angola; a divulgação destes documentos vem da mesma fonte dos leaks que colocavam em xeque um certo clube de futebol em Portugal, esse com uma ligação mais forte e propícia a acefalias que relativizam o caso, por vezes vindas dos mesmos comentadores que, agora deputados, exigem investigações “para apurar se as redes de diplomacia económica portuguesa alguma vez facilitaram negócios ou investimentos de Isabel dos Santos”.

E assim a classe política vai saltitando entre o Parlamento e a banca, os escritórios de advocacia ou os conselhos de administração das grandes empresas, passando entre as gotas da chuva enquanto trocam favores e fingem concorrer ou supervisionar; até que um dia metem a pata na poça. Vamos ver se se afogam – se bem que eu acho que é mais fácil sobreviver quando se tem uma bóia.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

PS – não podia deixar escapar a oportunidade de, tendo um espaço público de opinião, deixar um agradecimento a um ídolo de adolescência que, infelizmente, desapareceu tragicamente e cedo demais este fim-de-sema. Obrigado pela companhia em tantas insónias, obrigado por cimentares o meu amor por um desporto e uma liga espectaculares, mas, acima de tudo, obrigado por mostrares ao mundo que ambição, vontade de ganhar e uma ponta de arrogância não são características más, mas sim de um campeão. Obrigado, Kobe.

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