Japão, de país ocupante a país ocupado

Uma viagem ao passado dá-nos uma ideia do Japão do presente. Um país que foi desarmado e desmilitarizado, inimigo dos EUA transformado em seu aliado.

1945. Um marco na vida do Japão contemporâneo. Da pretensão de nação imperialista no domínio da Ásia saiu a derrota e a ocupação militar, uma grande humilhação para o povo japonês.

1. O Japão até à segunda metade do século XIX uma economia fechada de características semifeudais lança-se, a partir desta data, com a Revolução/Restauração Meiji, num processo de industrialização visando caminhar numa linha de sociedade moderna.

Para esta abertura ao Mundo muito contribuiu a grande pressão do Ocidente sobre o Japão, designadamente dos EUA que, por volta de 1850, forçou com a sua presença a abertura dos portos ao exterior e a criação de feitorias.

Inicia-se, desta maneira, a transformação do Japão que, nos princípios do século XX, já é tido como a única potência industrial da Ásia.

O Japão para consolidar esta ambição radical de transformação padecia de muitos constrangimentos. Graves problemas energéticos, escassez de recursos naturais designadamente de minérios e reduzida dimensão do mercado interno. Os recursos humanos eram menos constrangedores porque, com a “revolução” Meiji, muitos eram os estudantes japoneses que saíam para a Europa e EUA e já com uma percentagem acentuada de retorno.

2. Neste contexto, as ambições não se fazem esperar. O Japão assume a mentalidade e a perspectiva de se tornar uma nação imperialista, desencadeando conflitos militares para se apossar de territórios com potencialidades económicas úteis à expansão.

Assim, se iniciam os conflitos nos finais do século XIX que só param com o desfecho da Segunda Guerra Mundial. A primeira guerra sino-japonesa desencadeia-se em 1894-1895, a propósito da disputa da Coreia que termina com a derrota da China e a ocupação de Taiwan pelo Japão.

Segue-se um segundo conflito com a Rússia por causa da posse das ilhas Sacalinas. Quando os observadores mundiais estavam convictos de que a Rússia seria a vencedora, e era o que interessava ao Ocidente, eis que o Japão sai vencedor.

Com estas vitórias, engradece-se a euforia japonesa e mais nada fez parar o Japão que foi constituindo um exército muito aguerrido, poderoso e bem organizado. O Japão convence-se de que pode mesmo vir a dominar a Ásia.

No meio destes sucessos e sempre na procura da obtenção de recursos para a industrialização em curso, decide-se pela invasão da Manchúria em 1931, uma província chinesa com minérios e solos férteis.

A invasão da Manchúria é condenada “piedosamente” pela Sociedade ou Liga das Nações, pois, na prática, nada foi feito em defesa do país invadido. O Japão abandona a Liga, mas não desiste de montar o Império. Em 1937 entra em confronto total com a China (desencadeando a segunda guerra sino-japonesa).

Aqui nasce a resistência chinesa de oposição ao Japão, organizada segundo duas frentes:

  • Os nacionalistas comandados por Chiang Kai-Shek;
  • Os comunistas por Mao Tsé-Tung.

Vários estudiosos referem que a resistência nunca atingiu a capacidade para derrotar as forças japonesas, bem profissionalizadas, equipadas e com muita experiência de guerra. Estes avanços do Japão não eram bem vistos pelos EUA pois contundiam com os interesses americanos na Ásia.

3. Em pleno conflito sino-japonês desencadeia-se a Segunda Guerra Mundial, um dos acontecimentos mais marcantes do século XX, que no Extremo Oriente deixou marcos inesquecíveis como o ataque japonês “inesperado” contra Pearl Harbor e a destruição atómica das cidades mártires de Hiroxima (recorde-se o lindo poema de Vinícius de Moraes, “A rosa de Hiroxima”) e Nagasáqui.

Com o ataque a Pearl Harbor, em finais de 1941, o Japão entra na guerra aliando-se formalmente aos dois países do Eixo (Alemanha e Itália), embora já antes tivesse havido colaboração com a Alemanha. Aliás, entre estes dois países havia uma empatia ideológica e de processos de actuação.

Tinha acabado de chegar ao cargo de primeiro-ministro do Japão, o General Tojo, um acérrimo defensor da entrada do Japão na guerra e também dele parece ser a ideia do “Grande Japão” onde coubesse a China, a Indochina francesa, a Birmânia, as Índias holandesas, Bornéu e até a Índia.

Estavam a decorrer negociações de paz entre o Japão e os EUA, quando se dá o ataque “surpresa” à base americana. Há quem defenda e vários livros o confirmam na base de informação dos meios de espionagem que eram conhecidos indícios fortes de ataque do Japão a Pearl Harbor.

Por que razão Roosevelt, “conhecedor” do assunto, não terá agido pelo menos em termos de uma melhor defesa da base americana?

Roosevelt não sabia da data exacta mas admitia, segundo alguns analistas, a utilidade do ataque para os EUA para junto do povo (que era renitente) sustentar a entrada directa na guerra. E daí aquela sua frase tão conhecida: “Não queríamos entrar nela. Mas estamos agora nela e combateremos com todos os nossos recursos”.

No Extremo Oriente a guerra passava-se entre os EUA e o Japão. Só muito tardiamente a URSS entra em cena nesta zona quando denuncia o acordo de não agressão mútua de 1942 e faz deslocar para a Manchúria um milhão e meio de homens e cinco mil tanques já na sequência da conferência de Ialta.

Mas antes disto, as cidades japonesas iam sendo bombardeadas continuadamente e Tóquio a principal vítima do poderio americano. O povo japonês vai desmoralizando, sucumbe mesmo, tanto mais com o lançamento da bomba atómica e sua mortandade.

O Japão em grande desespero tenta negociações de paz com a URSS que não aceita, na fidelidade ao espírito de Ialta. O Japão derrotado aceita a rendição muito depois da Alemanha em 2 de Setembro de 1945.

Esta derrota acarreta para o Japão a ocupação do país pelos EUA, até porque as forças da URSS não chegam a penetrar no Japão.

E o Japão passa a ser governado pelos EUA, sob a direcção do General MacArthur que inicia grandes reformas na estrutura económica e política do país com o objectivo de reduzir a sua capacidade de fazer frente aos EUA e criar uma zona de apoio favorável aos EUA contra a URSS e posteriormente contra a China da Revolução Popular.

Sob o comando de MacArthur destruíram-se os grandes grupos económicos (Zaibatsu), as grandes propriedades agrícolas, transformando-as em parcelas de terra para entrega aos agricultores e as indústrias bélicas.

Sob o plano político, o país foi desarmado e desmilitarizado e foi-lhe imposta uma constituição em que o Imperador gozava de poderes muito limitados e sobretudo era-lhe vedado ter forças armadas. Não tardou que estas condições por mudanças profundas no xadrez político da Ásia (China e Guerra da Correia) se esfumassem e os EUA erguessem o Japão, de inimigo em aliado.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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