Jimmy Sousa, Borg Gomes e McEnroe Matias

No London Eye as filas são de duas horas e meia, menos tempo que eu passei a votar. Digamos que chamar voto em mobilidade a algo que não se mexe é o eufemismo do ano.

Pertenço ao grupo dos portugueses que votaram antecipadamente, contra a opinião dos meus amigos, que me aconselharam a não o fazer. Respondi-lhes que não queria saber de estar na bicha no dia das eleições, que preferia ir uma semana antes e tratar logo do assunto. Arriscado era ser o primeiro a ensaiar a coisa, o beta tester, e eu não era betinho nem esta era a primeira vez que havia voto antecipado, portanto, quem mandava já sabia organizar a coisa. Famosas últimas palavras, o “Ai! que estou entalado!” de Martim Moniz na tomada de Lisboa, precisamente o que senti.

Tudo começou na mensagem que recebi: “Mesa de voto: Reitoria da Universidade de Lisboa”. Portanto, lá fui para a Reitoria. Quando cheguei, fiquei perto da Faculdade de Letras, só que a descer para o Campo Grande, onde a fila dava a volta para subir outra vez. No minuto em que pensei no que fazer, a fila cresceu 20 metros. Parecia Wimbledon!

Em Wimbledon a fila para comprar bilhete é tão grande que não é “the queue” mas sim “The Queue”, em si própria um acontecimento tão importante como o Torneio. Quem chega recebe um cartão com a posição, mas desiluda-se porque para não perder o lugar não se pode ausentar mais de 30 minutos. O que fazer está em “A Guide to Queueing”, com 31 páginas e editado pela organização, que inclui o Código de Conduta para quem faz fila. Uma regra é “não são permitidas tendas para mais de duas pessoas” porque há quem vá mais de dois dias antes para conseguir ter um bom bilhete. Uma holandesa foi cinco dias antes, e todos os dias levantava-se às cinco e meia da manhã. Era o que eu devia ter feito.

Quando estava a chegar à Reitoria, 40 minutos depois, umas senhoras disseram-nos que íamos votar numa Faculdade. Moderei o instinto assassino e lá fui, para descobrir uma fila ainda maior, que progredia à velocidade de caracol. Chamar voto em mobilidade a algo que não se mexe é o eufemismo do ano.

Paralelo, só com a abertura do primeiro McDonalds na Rússia, um projeto de 50 milhões de dólares e capacidade para 900 clientes, com 600 empregados recrutados para as caixas. Eram esperados mil fregueses e foram mais de 30 mil (poucochinhos comparados com este domingo). A espera chegou às 8 horas; um de nós levaria um hambúrguer para matar a fome, mas neste caso seria ridículo. No London Eye as filas são de duas horas e meia, menos tempo que eu passei a votar. Receei que votando antecipadamente acabasse a fazê-lo depois do dia das eleições.

Duas horas depois, chegou a minha vez. Surpresa, só havia uma cabine de voto, e punha-se o voto num envelope para depois ser posto noutro envelope, o que levava o dobro do tempo. Deixo aqui, pois, duas sugestões: o de fazer 17 de janeiro o Dia Nacional do ‘Sado-Masoquismo’, sadismo de quem organizou isto, masoquismo de quem votou; e voto antecipado em mobilidade? Só nas Caldas.

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