João Cotrim de Figueiredo: “A liberdade é um bem que tem de ser posto ao serviço da economia e das pessoas”

“Não é possível fazer uma recuperação social, económica e a preservação da saúde mental de muitas pessoas, sem coragem, pondo permanentemente à frente a segurança em detrimento do retorno à normalidade”, disse o líder da IL ao JE.

Lusa

João Cotrim de Figueiredo, presidente da Iniciativa Liberal (IL), tem estado sob os holofotes mediáticos depois da realização, no último sábado, de um arraial popular em Lisboa que desafiou os desejos da Câmara Municipal de Lisboa (CML) e algumas recomendações da Direção-Geral de Saúde (DGS). Em entrevista ao Jornal Económico, Cotrim de Figueiredo explica como deve ser vista esta iniciativa e só tem pena de não a poder replicar “em todas as capitais de distrito”.

Como tem visto as reações ao arraial realizado pela Iniciativa Liberal em Lisboa?

Não sei se isto é um elogio à forma como fazemos política, mas aqui não há nada por onde pegar. A primeira coisa que as pessoas têm de registar é que aquilo que fizemos no sábado à noite foi um evento de grande alegria e grande mobilização, e que correu muito bem. Fizemo-lo dentro das regras de distanciamento e de consumo de produtos na via pública. É um exemplo do que deve acontecer. Portugal tem de desconfinar. Temos de voltar à nossa vida normal e provamos que é possível fazer um evento com qualidade e segurança. Era aquilo que a CML deveria ter feito: promover arraiais por toda a cidade com o mesmo tipo de organização, aberta às pessoas, com o controlo à entrada e a exigência da existência de gel e a utilização de máscaras. No nosso arraial foi isso que aconteceu. É muito estranho todo este coro contra a IL mas vou tomá-lo como um elogio. A nossa capacidade está a incomodar muita gente.

A IL utilizou os mecanismos que estão previstos para a realização de eventos políticos para as adaptar à realização de um evento deste cariz, mais social. Assume isso?

Assumo que utilizámos as prerrogativas dos partidos mas fizemo-lo aberto a toda a gente e com um argumento político, ou seja: é possível, havendo vontade, e busca de boas soluções, com as condicionantes que ainda têm de existir, como é óbvio, celebrar os Santos Populares. Isso a CML não quis fazer. Portanto, sim, usamos uma prerrogativa de um  partido, mas não foi para fazer um arraial. O que fizemos no sábado foi uma declaração política.

Não acha justas as críticas de que a IL ignorou as recomendações da DGS e da CML?

Não é verdade. Estivemos em contacto com a CML, dez dias antes do evento; com a PSP também muitos dias antes; e sempre com a capacidade de acolher as sugestões. Se perguntar à PSP, ouvirá dizer que correu tudo muito bem. Até nos deram os parabéns pela capacidade que tivemos de organizar o evento em segurança e com toda a normalidade possível. Em relação à DGS, a questão que se levantou – e foi parar aos jornais ao mesmo tempo que a nós… – foi que recebemos o e-mail da DGS 21 horas antes do evento, na sexta-feira à noite. É daqueles e-mails que se fosse enviado para a CML, como foi no caso dos festejos do Sporting, se calhar não haveria ninguém para o ler. Mas nós lemos. Eram oito da noite, continha uma série de recomendações e aquelas que pudemos ainda acolhemos.

Quais?

Espaçamos mais as mesas, fizemos um conjunto de advertências às pessoas que entraram no recinto. Foi o possível. Mas havia coisas absolutamente disparatadas como, por exemplo, fazer o arraial só com lugares sentados ou a distribuição da comida ser em caixas. Isto não faz sentido nenhum 21 horas antes do evento.

A IL foi, noutra altura, muito crítica em relação a eventos do PCP, nomeadamente a Festa do Avante. É capaz de me explicar o que mudou?

Há bastantes diferenças. Desde logo, estamos em junho de 2021, não estamos em setembro de 2020. Estamos à entrada do Verão, não estamos à entrada do Inverno. Temos 43% dos portugueses vacinados, não temos 0% vacinados. Isto são grandes diferenças. Mas há mais! Já ouvi dizer que nos opusemos à realização da Festa do Avante mas não foi bem assim. O que dissemos é que era inadmissível que a DGS autorizasse determinadas atividades políticas e não autorizasse os portugueses a fazerem a sua vida normal, nomeadamente, naquela altura, disfrutar da época balnear que se estava a aproximar e que tinha regras nas praias que eram para nós incompreensíveis. Por exemplo, as pessoas não podiam passear à beira da água acompanhadas de um amigo, ou jogar com raquetes, entre outras coisas. Portanto, era uma questão de paridade com os direitos de todos os portugueses. Essa foi a primeira crítica. A segunda, mais de fundo e permanente, é que a Festa do Avante é uma forma de angariação de fundos do PCP e sem qualquer sujeição fiscal. Os consumos que se fazem ali não estão sujeitos a IVA. No nosso arraial não só não vendemos bilhetes como os consumos foram sujeitos a IVA. Os comerciantes venderam exatamente ao mesmo preço que em qualquer outras circunstâncias.

Este arraial foi mais importante em que dimensão: política, social ou económica?

O alerta que pretendemos fazer é o de que Portugal tem de voltar o mais depressa possível à normalidade. E isso é um alerta político. Demonstrámos que era possível promover um evento social, neste caso de cariz popular e de grande tradição, na cidade de Lisboa – mas espero que o País siga o nosso exemplo.

A IL pensa promover outras iniciativas deste género?

Gostaria muito, mas não temos capacidade para o fazer em todo o País, em todas as capitais de distrito.

Ouvi-o falar em “combater a deriva do medo” e na necessidade de “libertar Lisboa”. Esses foram alguns dos slogans do arraial. Neste momento, a IL diverge muito da estratégia do governo, e neste caso da CML, quanto ao desconfinamento?

Sim, sobretudo na atitude que têm perante as dificuldades de sair da situação pandémica e começar a recuperação. Não é possível fazer uma recuperação social, económica e a preservação da saúde mental de muitas pessoas, nomeadamente dos mais jovens, que têm estado a sofrer particularmente o confinamento, sem coragem, pondo permanentemente à frente a segurança em detrimento do retorno à normalidade. A Liberdade é um bem que tem de ser posto ao serviço da economia e da vida diária das pessoas. Foi isso que quisemos simbolizar no sábado à noite. E acho que o conseguimos. Há muito tempo que não via tanta gente tão alegre, satisfeita e em celebração tão fraterna. É um excelente sinal e tem significado político.

Marques Mendes, comentador político, disse que este tinha sido um monumental ‘tiro nos pés’ da IL. Como vê essas declarações?

Não comento comentadores.

 

 

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