Este é um texto emocional pois no principio de outubro a minha avó celebrou 103 anos. Ao pensar no papel da minha avó na minha vida profissional de todos os dias chego a duas conclusões: primeiro, fala-se pouco do papel que as nossas famílias têm no contexto organizacional; e segundo, fala-se muito pouco daquilo que as nossas famílias nos ensinam(aram) e que nos moldou como profissionais. Assim hoje quero quebrar este paradigma e celebrar a minha avó e aquilo que aprendi com ela.

A minha avó é uma verdadeira figura-modelo cuja principal característica é permanecer ligada à vida a todo o momento. Tem 103 anos e está totalmente ligada à vida. Uma história particular ilustra o que quero dizer.

Há uns meses fui visitá-la ao lar onde está e, chegando aí, pediu-me para ir a sua casa (sita na mesma aldeia), pois tinha comprado recentemente uma máquina de lavar a roupa e queria que eu lhe ensinasse os programas para poder discutir com a empregada a melhor forma de lavar e perfumar a sua roupa. 103 anos e cada pormenor conta. 103 anos e fazer com excelência conta. 103 anos e aprender com cada oportunidade conta. Dessa visita vim para casa a pensar numa questão central da nossa vida: será que chegarei aos 103 anos com esta vontade de viver e aprender?

Esta ideia de permanecer activo na longevidade parece-me fundamental para as organizações. Não foi por acaso que, na reunião de estado entre Putin e Xi Jinping o grande tema foi a longevidade. O que a minha avó mostra, dia após dia, é uma longevidade ativa de conexão com o seu propósito, de ligação com as outras pessoas da sua comunidade e de ligação ao que a rodeia. Ao ligar-se à vida e ao fazer vir ao de cima os seus desejos, sonhos e pequenas tarefas do dia-a-dia, a minha avó dá sentido a esta longevidade.

Outra das grandes lições que a minha avó me proporcionou tem a ver com gerir com eficácia e eficiência um conjunto muito limitado de recursos. Uma vez convenceu-me a ir ajudá-la a fazer marmelada. A tarefa era bastante simples: descascar uma quantidade absurda de marmelos que precisavam de ser misturados com açucar e cozidos numa panela de pressão.

Quando cheguei tudo estava organizado para ser “feito com calma”, com pausas e em conjunto, mas eu, com pressa de fazer a tarefa e regressar à minha vida reorganizei tudo. Em minha defesa posso dizer que usei critérios modernos do pensamento organizacional para colocar tudo à minha maneira. A reação da minha avó foi de desapontamento: “Ricardo, isto sempre funcionou assim”. Falei-lhe de inovação, da capacidade de olhar novamente para os problemas e a minha avó, com paciência deixou-me “ganhar”.

No fim da tarde, eu tinha cortado tudo mas mostrava as marcas físicas e ambientais da eficiência capitalista: cansaço e lixo. Na realidade, por toda a cozinha havia sinais evidentes desse esforço. Então a minha avó falou de desperdício, da necessidade de poupar e da calma que temos de empregar quando queremos aproveitar a melhor parte de todos os recursos.

Olhar em conjunto e com calma para os recursos disponiveis, gastando energia em organizá-los de uma maneira que os conserve, é uma arte que aprendi naquela tarde. Agora consigo ver que a velocidade com que nos lançamos a fazer todas as tarefas da nossa vida não tem necessariamente de contaminar as oportunidades de reorganizar os recursos escassos que temos à nossa disposição. Porventura, parece uma lição simples, mas aliar a paciência com a sabedoria coletiva parece-me uma forma de estar que poderia ajudar muitas empresas a resolver problemas persistentes.

Tento, com este texto, celebrar dois traços da minha avó, que claramente se irá rir quando ler o que escrevi. Mas a verdadeira celebração vai para além disso. Penso que faz sentido trazer mais das nossas famílias para o nosso local de trabalho. As  histórias e as pessoas da nossa familia são fundamentais para acelerar caminhos para sabedoria coletiva dentro das nossas organizações. Arrisco-me a dizer que só desta forma poderemos ser inteiros naquilo que fazemos. Obrigado querida avó pela tua influência na minha vida profissional. Obrigado a todos os avós.