Lisbonne brûle-t-elle?

Investidores estrangeiros em imobiliário alegam que é preciso garantir que a cidade tenha uma espécie de “reservas de índios” que retenham alguma presença folclórica na multidão estrangeira que esmaga as ruas da cidade.

Em 1965 é publicado o livro “Paris brûle-t-il?” dos jornalistas Dominique Lapierre e Larry Collins. No ano seguinte, René Clément realiza, a partir do livro, um filme com guião de Gore Vidal e Francis Ford Coppola.

A invasão da Normandia já ocorrera. As tropas aliadas avançavam em direção da Alemanha. Hitler dá ordem ao general Dietrich von Choltitz, que terá participado no massacre de 36 mil judeus em Sébastopol, para minar os principais edifícios de Paris, entre os quais a Torre Eiffel. Choltitz conta nas suas memórias que estivera com Hitler e que este estava visivelmente louco.

Choltitz alega que se recusou mandar explodir as cargas espalhadas pela cidade porque era um “centro da cultura”. Em palavras atuais, teria dito património da humanidade. Na verdade, Choltitz já se preparava para ser futuro prisioneiro. De Gaulle avançava, com o beneplácito de Eisenhower, sobre Paris. Choltitz rende-se à Resistência que entretanto ocupara a Perfeitura e levantara 600 barricadas em toda a cidade impedindo de facto a colocação ou acionamento de cargas explosivas. De um telefone fora do descanso ouvem-se gritos em alemão: Paris já está a arder?

A minha memória evocou este episódio ao ler o protesto de um autarca da margem sul do Tejo sobre a catástrofe urbanística que será para aquela região, incluindo para a reserva natural, a transformação da base aérea do Montijo em aeroporto civil. Depois li um jornal espanhol a gozar com os portugueses que vão construir um aeroporto numa zona que ficará submersa em 2050.

E ainda um texto intitulado “Esta não será a nossa cidade”, publicado no LinkedIn pelo escritor e antigo jornalista José Vegar, que lamentava a destruição do nosso modo de vida lisboeta já em curso pelas hordas de turistas.

Vegar escreve: “Não sei, por exemplo, se devo considerar uma agressão directa e pessoal ver um grupo de ingleses quase nus e bêbados na rua do Ouro às dez da manhã. Não sei, também por exemplo, se não é um ataque directo a subida demencial dos preços da restauração. Mas estes são apenas exemplos de contacto pessoal. O que tenho andado a pensar é que a reabilitação urbana de vastas áreas de Lisboa e do Porto não pode ser a sua transformação em parques artificiais de consumo primário e prazer fugaz. Como igualmente ando a pensar que uma economia urbana assente em invasões turísticas curtas e diariamente renovadas não é sustentável.”

Também acho que não é sustentável e tenho defendido como modelo de negócio para Portugal a investigação científica aplicada em clusters onde temos bom know-how, capacidade instalada e exportadora: indústria de diversos setores.

O problema não é o Montijo, não são apenas os flamingos, nem apenas a sustentabilidade de um modelo assente no turismo. É qualquer novo aeroporto que duplique a capacidade de tráfego que conduzirá à obliteração do modo de vida das pessoas antes conhecidas por lisboetas. É o nosso estilo de vida lisboeta easy going e tolerante, no passado tão prezado pelos visitantes e que fazia parte do pacote de atrativos da cidade, que está a ser ou já foi destruído.

A transformação urbanística de Lisboa num parque de diversões em que os lisboetas que restam são empregados de mesa brasileiros que habitam em longínquos subúrbios conduz ao desaparecimento da urbe como entidade sociocultural. O networking intelectual já se deslocou para outros pontos da cidade, como Alvalade.

A catástrofe está à vista de todos. Habitei dez anos no Chiado e saí a tempo. Era perfeito. Podia viver-se no bairro, passear sem roçar nos ombros de ninguém. Uma qualidade de vida que nunca mais regressará. De que vale a recuperação dos edifícios se não servem os lisboetas? Será que os turistas gostam da selva em que aterraram? Será que a sua expectativa não está a ser defraudada? Será que o seu WoM (“word of mouth”, passa palavra) vai ser positivo? Não acredito.

Ao matar a civitas, a ganância louca de promoção turística e imobiliária apoiada pelos poderes públicos, sem consideração pelo futuro, está a matar o seu próprio negócio. Mas alguns já perceberam o erro enorme. Segundo me contam, investidores estrangeiros em imobiliário consideram que sem lisboetas não há palhaço e estão a mudar os planos que tinham de reabilitação do centro de modo a que alguma da nova oferta seja acessível aos indígenas. Consideram que é preciso garantir que a cidade tenha uma espécie de “reservas de índios” que retenham alguma presença folclórica na multidão estrangeira que esmaga as ruas da cidade – muitas ruas, e já não apenas a Baixa, Chiado, Alfama.

A construção de um novo aeroporto, qualquer que seja o local, irá despejar muitos mais milhões de invasores na cidade em cima dos milhões que por cá vagueiam. Em 1147 a cidade foi destruída e pilhada pelos cruzados ingleses, flamengos, alemães, italianos. Agora esses mesmos são amigos, vêm em paz e deixam euros, mas da sua deambulação turística resulta a inevitável destruição do habitat natural dos lisboetas. É um verdadeiro abraço de urso, o mesmo que sufoca Veneza, Barcelona, Praga.

Lisboa já está a arder mas não temos exército aliado, nem De Gaulle, Resistência, ou barricadas. Mas não teremos sequer vontade e coragem para protestar com vigor contra a destruição do nosso precioso habitat e modo de vida secular?

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