Nas grandes purgas estalinistas no final dos anos 30 do século passado, faziam-se listas de inimigos do povo. Essa expressão – inimigos do povo – aparecera pela primeira vez pela pena de Jean-Paul Marat muitos anos antes, na fase jacobina da Revolução Francesa. Era num jornal a que deu o nome de O Amigo do Povo que Marat denunciava aqueles a quem, muito ironicamente, chamava de inimigos do povo. E assim promovia o Terror que viria a devorar, como Saturno, os seus próprios filhos.

De novo com ironia, é a morte de Marat que mais o imortaliza, pintada pelo grande Jacques-Louis David, ele desfalecido numa banheira, a ferida de um esfaqueamento no peito, o braço pendente, uma pena com que escrevia ainda segura na ponta dos dedos, na outra mão uma folha em que se lê sobre uma mãe de cinco filhos e um marido que morreu a defender a pátria.

Fazer listas com nomes de pessoas é uma das evidências maiores de um regime autocrático. Na Alemanha Nazi, não faltaram listas destas, de pessoas judias e de inimigos políticos internos. Até foi feita uma lista secreta com os nomes dos cidadãos britânicos que deviam ser capturadas caso viesse a ser bem-sucedido o plano de invasão do Reino Unido. O documento só descoberto depois do termo da Guerra ficou conhecido como o Black Book.

Na década seguinte, o macartismo nos Estados Unidos fez as suas listas de pessoas cujas vidas deviam ser objecto de um opróbrio por não se conformarem ao House Un-American Activities Committee. Ser anti-americano era a acusação que permitia a caça às bruxas.

Hoje as listas estão de volta. A administração Trump faz listas de pessoas a quem não concede visto por delito político.  Há listas de intelectuais e académicos, e há listas de universidades, departamento universitários, jornais, fundações, empresas.

E agora também chegaram a Portugal, para vergonha de quem as faz sem que nada do que se disse atrás produza uma centelha de consternação. E para preocupação de todos os cidadãos deste país que poderão acabar a ser contemplados com o seu nome numa lista. Em Portugal, a caixa de Pandora foi aberta da forma mais arrepiante, com os nomes de crianças listados pela deputada Rita Matias e com a lista de apelidos lidos pelo seu chefe de fila na Assembleia da República.

A cumplicidade com estas atitudes, a presunção de que se contêm, que não são comparáveis com o passado, que estamos apenas no plano simbólico, apenas abrirá caminho para outras listas. Aliás, pelo caminho que levamos, suscitar estas preocupações, fazer o alerta alarmado do que está a acontecer, será mais tarde ou mais cedo motivo para estar numa lista.  Mas as coisas são como são: as listas de nomes demonstram que o país está numa deriva autocrática.

E o que fazemos nestas circunstâncias? Aproximam-se eleições autárquicas e eleições presidenciais e, não obstante cada eleição ter a sua especificidade, não resta grande dúvida de que a estratégia que predomina diante da ameaça autocrática (de que listas de nomes são evidência incontornável) é a afirmação identitária de cada proposta política.

Mas, pergunto: diante da ameaça, não deveria prevalecer o frentismo como forma de acção política? E não deveria prevalecer a capacidade de distinguir e acolher aqueles que nos encaram com adversários daqueles que nos encaram como inimigos? É que um adversário quer convencer aqueles com quem convive, enquanto um inimigo quer eliminar aqueles com quem ainda vai tendo de conviver. Um pouco de história pode ser lembrado.

Na Alemanha dos anos 30, o desentendimento entre o SPD (social-democratas) e o KPD (comunistas) era profundo, mas demasiado a ponto de não se justificar uma frente que tentasse deter o fascismo? Entre outras, a afirmação de então de que a social-democracia era social-fascismo, além de falsa, valeu-nos a história que se fez a seguir.

Não discordo da importância de os partidos e os candidatos terem espaço de respiração para as suas ideias e programas políticos, sem se submeterem ao rolo compressor do pragmatismo. Terem ideias claras, sem concessões, é o melhor serviço que podem prestar ao debate político. Mas ficarem por aqui e não perceberem quando a circunstância histórica exige um frentismo político é uma capitulação que nos entregará à autocracia. Não havia que recear: nenhuma concessão de princípios está em causa numa frente que identifica, com clareza, uma ameaça transversal.

Eu pergunto de novo: como se esquece que a história dos movimentos de luta política pela democracia e pelos valores que temos inscritos na Constituição tem sido uma história de frentes políticas? Não sei de quem será a responsabilidade. Pouco importa se de um ou de outro partido político, de uma ou de outra individualidade protagonista.

Não sei ao certo que negociações houve, se as houve e com que grau de implicação. Também não importa nada o jogo de ver quem fica com o ónus. O problema é partilhado e está aí diante de nós, a desenhar um futuro de perspectivas sombrias. Sobretudo nas eleições presidenciais, é aflitivo ver como candidaturas convictamente do lado da democracia e dos valores constitucionais se apresentam auto-derrotadas. Apresentam-se várias, mas para nenhuma ir a jogo até ao fim. Comparecem, mas não dizem realmente presente. No momento em que listas de nomes ameaçam este regime, como é possível desertar e não garantir a disputa de uma segunda volta da eleição do próximo ou próxima Presidente da República?