Macau e a liberdade aparente

A China não pactua com notícias que coloquem em causa a política de Pequim. Por isso não vai tolerar por muito tempo que a Associação dos Jornalistas de Macau afirme que os jornalistas não são instrumentos de propaganda.

As recentes denúncias sobre a pressão que as autoridades chinesas estão a exercer sobre os jornalistas em Macau só serão novidade para quem desconhece a forma como a República Popular da China lida com a comunicação social. Uma relação na qual a aparente liberdade esconde uma feroz ditadura do pensamento único.

Uma atitude que considera perfeitamente normal que a rádio e a televisão públicas exijam aos jornalistas, inclusivamente aos de língua portuguesa e inglesa, que assumam uma política editorial patriótica. A única que serve os interesses de Pequim e, como tal, passível de acautelar o statu quo.

A República Popular da China não pactua com notícias que coloquem em causa a política de Pequim. Por isso não vai tolerar por muito tempo que a Associação dos Jornalistas de Macau afirme que os jornalistas não são instrumentos de propaganda. Sendo certo que o estatuto de Região Administrativa Especial garante alguns direitos específicos a Macau, talvez seja oportuno afirmar que o Partido Comunista Chinês controla a imprensa em toda a China.

Há três anos, quando estive em Xangai a convite da Universidade de Fudan para participar numa conferência sobre Populismo e num workshop sobre Desenvolvimento Regional, tive oportunidade de falar longamente com Larry Diamond, um dos maiores estudiosos da democracia no mundo. Uma conversa que me permitiu perceber que o espírito de abertura presente nas temáticas abordadas nos eventos científicos estava longe de corresponder à realidade política vivenciada no país.

Daí que o Índice de Democracia 2020, elaborado pelo “The Economist”, coloque a China quase no fundo da lista, mais concretamente no 151.º lugar entre 167 países, com a agravante de apenas atingir 2,27 numa escala de zero a dez. Uma forma de dizer que estamos perante um regime ditatorial. Por muito que Pequim se esforce por fazer circular uma opinião de sentido contrário.

Na conjuntura atual, os jornalistas em Macau estão numa situação em tudo semelhante àquela vivenciada pelos jornalistas portugueses durante o Estado Novo. Uma realidade que contei no livro “O Império da Ilusitânia. A Censura na Metrópole e em Angola”.

Assim, agora como então, os profissionais dos meios de comunicação enfrentam não uma, mas três formas de censura. A primeira da responsabilidade direta das autoridades chinesas. A segunda a cargo das Direções dos meios de comunicação, embora por pressão oficial. A terceira feita pelo próprio, uma autocensura destinada não apenas a manter o posto de trabalho, mas sobretudo a evitar problemas com a censura, pois a ditadura do pensamento único dispõe de uma vasta rede de controladores sempre prontos a apresentar serviço. A senha que permite aumentar o crédito social e o acesso a cargos elevados.

Face ao exposto, a melhor imagem para classificar a situação da liberdade de expressão em Macau talvez seja a das noivas de Xangai. Assim, quando vão fazer a tradicional sessão fotográfica junto ao Bund, os vestidos, apesar da variedade de cores, mostram uma noiva em tudo semelhante à imagem tradicional. Porém, basta que a nubente, ao caminhar, levante um pouco o vestido para que a multidão – de transeuntes e não de convidados – se aperceba que as sabrinas e as meias não precisam de ser novas. O importante é salvaguardar a aparência. Aquela que fica para a posteridade. Sorridente, enquanto tal for possível. Como em Macau.

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