Desde 2023, o dinheiro gasto com cartões estrangeiros aumentou quase três vezes (184%) no concelho de Machico, segundo as contas do Jornal Económico. Os dados da SIBS sobre compras em terminais de pagamento automático, publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), mostram que, só no ano passado, o valor saltou de 31,9 para 53,9 milhões de euros (mais 69%).
Apesar de não ser o município do país com maior aceleração nestes últimos dois anos (é o quarto num total de 308), destaca-se de forma clara no top 100 dos maiores gastos, que vão de Espinho (12,5 milhões) a Lisboa (2,7 mil milhões). Pode parecer gralha, mas foi mesmo esta a discrepância em 2025 — a capital recebe 24% do dinheiro.
Na verdade, aqueles 53,9 milhões de euros já fazem de Machico o 33º município que mais dinheiro recebe por via de cartões estrangeiros, sejam compras feitas fisicamente ou online. Está em causa um pouco mais do que toda a região da Lezíria do Tejo (que inclui concelhos como Santarém, Rio Maior, Almeirim ou Azambuja), praticamente o mesmo que todos os municípios de Trás-os-Montes e fica muito perto de ultrapassar Guimarães, Mafra, Viseu ou Setúbal (todos entre 54 e 62 milhões de euros). Para trás, já ficaram Grândola, Nazaré, Óbidos ou Figueira da Foz, entre muitos outros. O salto foi gigante: o município madeirense era o 45º em 2024 e, antes disso, o 63º em 2023.
Os pagamentos com cartões estrangeiros abarcam, potencialmente, várias realidades, incluindo imigrantes e residentes não habituais que não usem ainda um cartão local e até emigrantes de regresso no verão. No entanto, em Machico, como em muitos outros, o grande catalisador é o turismo.
O concelho madeirense, que faz fronteira com o aeroporto Cristiano Ronaldo, não tem sequer 20 mil habitantes, numa área semelhante à de Almada, mas recebeu um acumulado de 110 mil turistas nos seus hotéis ao longo do ano passado, segundo os dados do INE. E os números de dezembro ainda estão por conhecer.
O crescimento do turismo está a ser tão acelerado que em julho já tinha praticamente alcançado o número de todo o ano anterior (69 mil hóspedes). Se compararmos os primeiros onze meses de 2025 com o período homólogo, o salto é de 79%. O mais próximo na Madeira são os 17% da Ribeira Brava. E o arquipélago como um todo aumentou 5,3%.
Voltando ao dinheiro, a receita na hotelaria subiu 86% em 2024, para cerca de 10 milhões de euros, estando cada vez mais perto de entrar no top 5 da região autónoma, num total de 11 concelhos. Já no que diz respeito aos gastos com cartões estrangeiros, é o terceiro — com larga distância. Em 2023, os valores eram pouco maiores do que os da Calheta ou de Câmara de Lobos. Hoje, são mais do dobro.
Embora Machico não seja o único município madeirense a ter acelerações nesta estatística, nada se aproxima dos 183,6%: Porto Moniz e Ribeira Brava, com subidas entre 80 e 90%, são os mais próximos.
E o que explica, afinal, estes aumentos de Machico? A beleza natural desempenha o seu papel, e a oferta hoteleira tem aumentado no concelho, nomeadamente de luxo. Mas ter servido de cenário para as filmagens de “A Acólita”, uma série do Star Wars, em 2023, também terá dado um empurrão para entrar de rompante no radar dos turistas. O produtor Damian Anderson, que filmou em vários locais da ilha, incluindo a Ponta de São Lourenço, no concelho de Machico, descreveu o arquipélago como “um lugar mágico” e “incrível”. Quase tão incrível como estas estatísticas. May the Force be with you, Machico.
Este artigo é o primeiro da rubrica Visão Periférica
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